Garimpo Netflix: A Solidão do Corredor de Longa Distância

Tomando como título do presente Garimpo Netflix o nome do livro de Alan Sillitoe (The Loneliness of the Long Distance Runner) para ilustrar uma das principais temáticas da semana, os três filmes indicados nos colocarão de frente para personagens que buscam se mover, que buscam seguir em frente, mas são impedidos por alguma coisa que os faz permanecer no mesmo lugar. As narrativas propõem, portanto, as tentativas de três protagonistas que chegam aos seus limites, muitas vezes flertando com aquilo que mais odeiam, para que consigam se desvencilhar das amarras que se impõem.

Um pedreiro em plena crise norte-americana, em busca do sustento familiar; um dono de transporte de combustível, objetivando penetrar um mercado fechado e criminoso; ou um detetive determinado na realização da justiça, ainda que de modo pouco convencional. A solidão durante a longa caminhada de cada um é o que conecta as três produções indicadas na presente publicação. Um drama familiar, o envolvimento com criminosos e um conflito investigativo serão os cenários nos quais as histórias se desenvolverão. Ainda que distintos, todos os três guardam marcas do sofrimento desses corredores, ávidos por cruzarem a linha de chegada.


99 Casas (99 Homes), de 2014, dirigido por Ramin Bahrani

O filme inicia forte, com a traumática cena de um homem que havia disparado uma bala na própria cabeça após receber sua notificação de despejo por não conseguir pagar a hipoteca. Rick Carver (nas mãos do poderoso Michael Shannon) é o responsável pelos trâmites legais e de despejo, encontrando a família desestabilizada pelo que ocorrera com o patriarca, além de ser obrigada a sair em dois minutos de sua propriedade (algo tão rico aos americanos). Escoltado por dois policiais e a equipe de remoção dos pertences, Rick é aquele tipo grotescamente frio, sem qualquer gota de humanidade ou compaixão para com aqueles que estão sendo levados a um horizonte de nenhuma expectativa ou esperança.

Em paralelo, Dennis Nash (com o carismático Andrew Garfield) perde o trabalho na construção de uma casa, já que o proprietário não pode mais arcar com a obra, vez que a “América” passa por devastadora crise. Além disso, Dennis recebe a mesma notificação de despejo e se vê sem rumo com sua mãe e filho pequeno. Carver e Nash, face a face, marcam a dicotomia que ilustraria um carniceiro em um abatedouro, sendo Dennis o novilho a ser sacrificado. Sem vislumbrar qualquer possibilidade de mudança, o garoto pedreiro recebe uma proposta de Carver: ajudá-lo a despejar mais uma lista de famílias pela frente.

Querendo seguir em frente e sustentar a própria família, Dennis Nash ficará na corda bamba que o separa entre um provedor responsável de uma figura detestável que encarna o descaso do Estado para com aqueles que se veem sem um lar.

O Ano Mais Violento (A Most Violent Year), de 2014, dirigido por J.C. Chandor

Nova York, 1981. Pouco espaço para um imigrante investidor que tenta se fazer grande entre os chefões do mercado de transporte e distribuição de combustíveis. O cenário de extrema violência (a que o título se refere), aliado ao modelo pouco simpático de concorrência por parte dos demais empresários, faz com que Abel Morales (pelo excelente Oscar Isaac) se sinta vulnerável na proteção de sua família, bem como de seus negócios. Querendo seguir em frente e se tornar um dos grandes, Abel se vê atado pelas constantes ameaças que sofre, desde uma tentativa de invasão à sua casa até roubos de carregamento de seus caminhões.

Contando com o suporte de sua mulher, Anna Morales (pela perfeição em forma de mulher Jessica Chastain), uma figura imponente, exalando poder e controle, Abel fica acuado quando percebe que não conseguirá pagar o empréstimo para a compra de um terreno onde pretende fundar nova parte de sua empresa, correndo o risco de perder tudo. Apesar disso, ambos se unem para tentar encontrar uma saída de forma que consigam atravessar o ano mais violento até ali.

– Laços de um Crime (Blood), de 2012, dirigido por Nick Murphy

Os policiais Joe e Chrissie (respectivamente pelos ótimos Paul Bettany e Stephen Graham), filhos do ex-chefe de polícia (pelo tão bom quanto Brian Cox) agora aposentado, começam a investigar um crime local após o aparecimento do corpo de uma jovem. Cego pela justiça que tem que ser feita a qualquer custo, Joe sente quem é o culpado. Muito embora vestígios liguem o suspeito ao crime, o atual chefe de polícia não pode autorizar a prisão, por falta de evidência efetiva. Joe, portanto, com sua certeza absoluta inabalável recorrerá à métodos pouco convencionais usados pelo seu pai (um velho já confuso mentalmente) para extrair uma declaração de culpa do provável algoz.

Mas os atos de Joe vão o prendendo em sua própria teia, engolindo-o em um labirinto auto-erguido, de maneira que, durante a investigação principal, o policial se deparará com um crime que ele mesmo cometeu. Abalado moral, psicológica e emocionalmente, Joe se afunda em seu remorso, enquanto traz consigo o próprio irmão. Como em uma tentativa de se livrar do mar revolto, ao se agarrar em quem está ao lado, Joe começa a submergir Chrissie e, até mesmo, o pai.

Unindo a trupe britânica (que conta ainda com Mark Strong), Nick Murphy realiza um notável thriller policial envolto em dramas pessoais, desnudando ética, valores morais e relações pessoais.

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