10 Filmes Sobre Empoderamento Feminino

Ser mulher é cansativo. Quanto mais cortarmos tudo aquilo que romantiza o quão belo é sê-lo, melhor é. É cansativo por que vai além do próprio cansaço de ser, por fim. Não há um dia sequer que eu não encare alguma atitude machista, qualquer grau que ela seja. Meu aluno, alienado, reproduz machismo; vou lá e desmonto. Minha mãe, às vezes antiquada, reproduz; vou lá e tento. Desconhecidos, sem mais nem menos, invadem minha privacidade nas ruas, num assédio que já virou banal pra tantas mulheres assim como eu. Alguns amigos, alguns casos, propagandas, conhecidos, arte. Eu mesma me autoflagelo por vezes com cobranças baseadas em papéis impostos para mulheres. É infeliz mas é verdade e não, não estou querendo fazer drama. Nós, mulheres, carregamos uma pressão invisível que cá ou lá pode nos fazer chorar por revolta ou mandar pra puta que pariu o mundo todo. E não é à toa. É cansativo, acreditem em mim.

Nos momentos de total angústia, nos quais parecemos estar perto de desistir de reerguer a cabeça, frente à ressonância de tantos discursos te dizendo estar errada, estar exagerando, estar maluca, estar inventando, estar viajando (e por aí vai e isso tem até nome – gaslighting), no fundo no fundo só queremos uma coisa: ser ouvidas. Sem revirar de olhos ou expectativas de que lá vem bomba. Sem diminuir-nos, invalidar-nos, encher de duvidas e dedos ou coisa do tipo. Ser ouvida e genuinamente ser entendida basta. E onde, afinal, procuraremos esse conforto?

A minha resposta é quase sempre eficaz: nos braços de outras mulheres. Seja no literal abraço de uma amiga a quem você conta esses pequenos machucados diários e te diz “eu dou importância para isso também” ou, por que não, na mesma sociedade que te cospe. Afinal, felizmente ainda há esperança e a Arte, por mais falha que já tenha sido (e até onde não tinha opção que não o ser?) te presenteia com curativos em forma de filme. Ano passado fiz uma lista de personagens fortes do cinema, onde cito clássicos do cinema – caso você sinta que faltou algum na deste ano, talvez esteja na anterior. Caso não esteja em nenhuma das listas, é só comentar!

Dessa vez, a proposta é ainda focar em personagens fortes e que transcendem o próprio filme, tornando-se verdadeiras inspirações enquanto mulheres. Seguindo essa linha, gostaria de deixar menção honrosa à alguns títulos que deixei de fora mas que também são reenergizantes para nós. Mulher-Maravilha, na atualizada versão de 2017 que mostra um caráter emancipatório cada vez maior, contanto com a maravilhosa Gal GadotPantera Negra, uma agradável surpresa vinda do filme que não só inclui mulheres fortes, tratando da questão de gênero, como também inclui mulheres negras poderosas, contemplando também a questão racial, através das fantásticas Nakia (Lupita Nyong’o), Okoye (Danai Gurira), Shuri (Letitia Wright) e Ramonda (Angela Bassett). 

Sem maiores delongas, hoje trago uma lista de filmes inspiradores que servem como um abraço que me diz que vai ficar tudo bem e, por que não, que me diz que eu sou FODA!

Nise: O Coração da Loucura, de 2015, dirigido por Roberto Berliner

Seguindo a linha de mulheres a frente de seu tempo, Nise da Silveira (Glória Pires) é um dos mais importantes nomes da psiquiatria brasileira, sendo pioneira da vertente de Carl Jung, de quem foi aluna e mantinha contato através de cartas. Inconformada com o sucateamento humano diante de transtornos psiquiátricos, à época sob sombra da ignorância e brutalidade, a médica introduziu à vida dos pacientes tratamentos humanizados que os colocavam como pessoas, pra início de tudo.

Através da arte, do contato com animais, da conversa e do acolhimento seguro, Nise beneficiou o tratamento de pacientes que eram vistos como irreversíveis e não-funcionais na malha social, trazendo à superfície verdadeiros artistas e provando que o diferente não é sinônimo de inferior. Para isso teve que enfrentar uma área majoritariamente masculina em plena década de 50-60 no Centro Psiquiátrico do Engenho de Dentro, mas nem por isso deixou seu maior objetivo de lado: revolucionar a psiquiatria brasileira. Irreverente e lutadora, Nise é de inspirar qualquer um.
(O filme está disponível aqui na Netflix.)


A Guera dos Sexos (Battle of the Sexes), de 2017, dirigido por Jonathan DaytonValerie Faris

No filme é posto no holofote todo o discurso nojento que enquadra feministas como peludas, odiadoras de homens, agressivas e histéricas. No entanto, indo contra e também sendo à frente de seu tempo, a jogadora de tênis Billie Jean King (Emma Stone) se posiciona dentro de um campo, literalmente, que é dominado (mas que supresa…) pela presença masculina e bastante arisco para com a feminina. Sendo a melhor jogadora na categoria feminina, Billie propõe igualdade no pagamento nas partidas entre homens e mulheres – afinal, o que justifica uma jogadora receber 8 vezes MENOS do que um jogador? E, é claro, uma sequência de desculpas – desde as biológicas até às lavadas que se voltam pro entretenimento – são postas na mesa, maquiando a verdadeira razão que é o bom e velho machismo.

Determinada, Billie cria uma liga feminina e aceita a “partida do milênio” que viria a ser proposta pelo autointitulado “porco chauvinista” Bobby Riggs (Steve Carell), o suprassumo do macho-alfa-sexista. Sempre elegante, Billie Jean luta a favor das mulheres sem entregar os pontos, resistindo à provocações dignas de xingamento em nome da conservação do movimento feminista, já em muito rebaixado e sujo por estereótipos sem fundamento. Que mulherzão da porra! 

Frida, de 2002, dirigido por Julie Taymor

Você não precisa gostar de arte para gostar do filme Frida, já adianto essa informação. Afinal, a vida da mulher vai muito além das telas de pintura. A partir de um grave acidente que a obrigou a viver com metais de sustentação inseridos dentro de seu corpo pro resto da vida, Frida (Salma Hayek) vê na pintura um recanto para lidar com suas dores. Além da física, a artista vive um conturbado e tóxico relacionamento com o também pintor Diego Rivera (Alfred Molina), que, apesar de péssimo marido, foi uma importante influência e estímulo dentro de sua carreira.

Frida é hoje tida como um símbolo feminista, apesar da aparente contradição que é estar num relacionamento abusivo e ser uma mulher forte. A artista provou que o machismo pode infiltrar até mentes aparentemente resistentes a ele, mas que isso não significa que ele é capaz de impedir uma mulher de ser incrível. Ou de, até, libertar-se dele – seja em sua vida ou na Arte.
(O filme está disponível aqui na Netflix.)


Olga, de 2004, dirigido por Jayme Monjardim

Sim, é um filme produzido pela Globo, o que normalmente me deixa com pé atrás e cheia de preconceito. Ainda mais sendo dirigido pelo Monjardim. MAS não deixa de ser a respeito de uma mulher de força inabalável que encarou situações extremas dentro de sua luta política. Batalhou do início ao fim pelos ideias comunistas no qual acreditava e, se já é difícil ser comunista dentro de uma democracia, imagina em plena ditadura Vargas com o nazismo de plano de fundo.

Lutando lado a lado com Carlos Prestes, com quem teve um relacionamento amoroso, ela foi líder de movimentos anti-fascista e sofreu, como infeliz consequência, a pena da prisão ainda que grávida. E teve sua filha dentro de uma cela de cadeia. E, sem nunca ter sabido o destino de sua filha, foi transferida para um campo de concentração onde foi executada em uma câmara de gás. Puta que pariu, bicho. Por isso esse filme merece sim atenção: sua personagem transcende a obra, sem dúvidas.

A Vida Secreta das Abelhas (The Secret Life of Bees), de 2008, dirigido por Gina Prince-Bythewood

https://www.youtube.com/watch?v=c-BwE_xOiyE

O filme indicado não tem apenas uma mulher foda, mas CINCO. Isso mesmo. A história começa com a menininha Lily (Dakota Fanning), que tem uma conturbada infância com a estranha morte de sua mãe e a criação de um pai instável. Sua salvação é a babá Rosaleen (Jennifer Hudson), que exerce sob a menina a influência materna que ela precisa. Cansadas de lidar com o pai violento, ambas saem em busca de outro lugar para ficar e acabam na casa das irmãs August (Queen Latifah), May (Sophie Okonedo) e June (Alicia Keys) – olha só esse elenco.

Daí pro resto do filme é um grande exemplo de sororidade, em especial trazendo o debate racial da sociedade americana durante o século XX, onde a segregação ainda era institucionalizada. Mulheres inteligentes, fortes, peculiares e acolhedoras: são essas as características do longa.


Carol, de 2015, dirigido por Todd Haynes

Carol (Cate Blanchetté uma mulher que, para padrões dos anos 50, é bastante a frente do seu tempo. Seja por se divorciar, seja por ser lésbica e, mais ainda, por estar assumindo o interesse por mulheres como justificativa de um divórcio, Carol é decidida, madura e independente. Após o término com o marido, ela conhece a jovem Therese (Rooney Mara) e resolve investir na relação, ainda que isso tenha como possível consequência não mais ver sua filha diante de uma ameaça do marido com seu ego machucado.

Carol e Therese trocam experiências que vão além da cama por redescobrirem cada vez mais que tipo de mulheres elas passarão a ser a partir do encontro, elas permanecendo juntas ou não. É de se admirar a coragem de ambas, em suas diferentes vidas e posições, por assumirem na medida que dá um amor que não devia nunca ser reprimido.
Livre (Wild), de 2014, dirigido por Jean-Marc Vallée

Numa espécie de versão feminina de “Na Natureza Selvagem, temos Cheryl Strayed (Reese Witherspoon) se redescobrindo a partir da decisão de viajar mais de mil milhas na trilha da Costa Pacífica americana com uma mochila nas costas. O filme é a adaptação do livro da mulher, que não é só uma personagem do cinema; ela existe e tem uma história de se admirar. Após perder a mãe para o câncer, Cheryl vê sua vida instável, esbarrando em drogas, sexo e um ex-marido que não sabe bem como ajudar.

A jornada só se torna uma verdadeira prova de autoconhecimento com a tomada de consciência de limites – a quebrar ou não – e encontro de uma estabilidade interior apesar dos desafios e dores ainda sendo cuidadas. É inspirador uma mulher sair da merda, ir pra uma situação completamente desconhecida e perseverar tanto. Vale citar que Cheryl, fora do longa, é uma ativista progressista que foi parte de algumas organizações na luta dos direitos femininos durante sua juventude.


O Sorriso de Monalisa (Monalisa Smile), de 2003, dirigido por Mike Newell

Augusto Cury diz que educar não é repetir palavras, é criar ideias; é encantar. Ser professora abre portas para transmitir conhecimento e sabedoria – e os dois conceitos têm diferenças. O conhecimento está nos livros; a sabedoria, no leitor. Por isso, acho que é uma honra ser posta em sala e ter a oportunidade de ensinar tanto sobre a vida para alguém – não por que necessariamente sua vida é fabulosa mas por que você está disposta a tornar a vida de outros um aperfeiçoamento de sua própria. Eu faço um paralelo bem nítido com ter filhos, sim.

A professora Katherine (Julia Roberts) está disposta a ir fundo nessa ideologia, mesmo que isso signifique ser severamente julgada por suas visões de mundo “irreverentes”. Ela, uma mulher educada de maneira liberal em plenos anos 50, se vê diante de uma escola tradicionalíssima que educa um grupo seleto de meninas a serem as mais inteligentes de todas… desde que usem todo seu aprendizado tão somente para o lar, como mãe ou esposa exímia. Nadando contra a corrente de seu tempo, a educadora estimula que suas alunas pensem além daquela realidade – o que cria ideias e, portanto, é sempre perigoso para os consolidados dogmas sociais.
(O filme está disponível aqui na Netflix)
Malala, de 2015, dirigido por Davis Guggenheim

Entre a placidez ensurdecedora do silêncio e a libertação arriscada de se posicionar, a paquistanesa Malala escolheu a segunda opção. E, com apenas 17 anos de idade, levou um tiro na cabeça ao sugerir que meninas deviam estudar também. Isso já é chocante o suficiente para voltarmos a atenção a essa história. No entanto, ela poderia – e eu que não julgaria – ir pelo ralo e se afundar em Síndrome Pós-traumática, com o produto final de nunca mais ousar contradizer os homens no poder de seu país.

Parafraseando o ilustre Oscar Wilde, as ideias que não são perigosas não merecem ser tidas como ideias. E a ideia da garota era válida na mesma proporção que perigosa. Malala tornou seu trauma em uma lição e, mais que tudo, em um motor que direciona mulheres à serem firmes e exigirem direitos acima de qualquer risco. A simples conclusão, ainda não muito óbvia para a sociedade oriental, de que mulheres são merecedoras de oportunidades iguais às ofertadas aos homens é o suficiente para justificar sua luta.
(O filme está disponível aqui na Netflix)


Tomates Verdes e Fritos (Fried Green Tomatoes), de 1991, dirigido por Jon Avnet

Eu literalmente perdi as contas de quantas vezes assisti a esse filme. Quando eu era criança minha avó comprou um aparelho de DVD e esse era um dos poucos filmes que ela tinha, além do fato de ela amá-lo… logo víamos com muita frequência. É claro que a memória afetiva me influenciou a colocá-lo na lista, afinal não é nenhuma referência aclamada pela crítica, apesar de indicado aos Oscars de roteiro adaptado e melhor atriz coadjuvante para Jessica Tandy. No entanto, apesar de a primeira vista parecer um filme “ok”, ele fala sobre sororidade e empoderamento do início ao fim.

Uma das personagens principais, dentre as muitas figuras femininas que o filme mostra, Evelyn (Kathy Bates), vai a um asilo e ouve as histórias da juventude da fofíssima Ninny (Jessica Tandy), uma velhinha solitária mas cheia de personalidade. Através do incentivo que essas histórias lhe trazem, das lições de vida, da total admiração a mulher de meia idade, que é presa num casamento decadente, resolve se libertar de sua vida monótona e já sem sentido. Um lindo retrato de como mulheres são capazes de levantar outras mulheres mais do ninguém.

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