Garimpo Netflix: Pé na Porta, Tapa na Cara

O Garimpo é um quadro do MetaFictions no qual indicamos toda semana 3 bons títulos disponíveis nas maiores plataformas de streaming. Clique aqui para conferir todos os Garimpos anteriores.


São milhões as viúvas de Jack Bauer, o agente imortalizado por Kiefer Sutherland na cultuada e popularíssima série “24 Horas”. Seu estilo consagrado de meter o pé na porta e dar tapa na cara de vagabundo para conseguir as informações que o permitiriam salvar o mundo múltiplas vezes faz uma falta enorme a vários de nós, fãs de filmes e séries de ação.

Felizmente, a Netflix existe e nela podemos encontrar vários outros personagens que usam métodos parecidos com o de Jack Bauer e, principalmente, lidam com os vilões sem qualquer meio termo, empregando recursos defendidos pelo Bolsonaro e que a gente adora encher a boca para dizer que são absurdos, mas para os quais, quando acontecem nos filmes e a gente é levado a acreditar que o vilão merece, a gente caga.

Seja como for, hoje temos uma seleção de 3 obras que certamente agradarão aos fãs do gênero.


O Protetor (The Equalizer), de 2014, dirigido por Antoine Fuqua

Depois do verdadeiramente excepcional “Dia de Treinamento” (a respeito do qual Rene Vettori falou com muita propriedade em um Assista! no site) de 2001, o diretor Antoine Fuqua e o vencedor do Oscar por seu papel no filme, Denzel Washington, demoraram 13 anos para novamente trabalhar juntos. O resultado foi este O Protetor, filme de ação baseado em uma série da década de 80. Nele, Denzel é Robert McCall, um sujeito aparentemente pacato, agradável com seus colegas de trabalho em uma espécie de Leroy Merlin de Boston e um TOC bem suave que o leva a ter uma vida ordeira, limpa e pacífica.

Tudo muda quando este seu cotidiano sagrado é perturbado pela prostituta russa Alina (Chloë Grace Moretz), uma menina com quem ele tinha um contato nada sexual todas as noites no mesmo bar onde tomava um café e lia um livro todos os dias. Por causa de seu instinto protetor, Robert inadvertidamente coloca em movimento uma engrenagem internacional que o levará a usar todas as técnicas e agressividade que lhe são inerentes por causa de sua misteriosa vida passada.

Apesar de parecer um filme meio genérico – e até certo ponto até que é -, O Protetor se destaca não só pelo absoluto esmero técnico de suas cenas de ação, mas, principalmente, pelas atuações de todo o excelente elenco, com destaque total para Denzel Washington, que consegue dar uma profundidade a Robert McCall incomum aos protagonistas deste gênero. Fauda, de 2015 -, criada por Avi Issacharoff e Lior Raz

Lior Raz, criador da série e seu principal protagonista, é um ex-membro das forças especiais israelenses e foi por alguns anos guarda-costas do Schwarzenegger. Ele é filho de judeus que imigraram do Iraque e da Argélia para uma cidade perto de Jerusalém na qual ele foi criado com diversos amigos árabes-palestinos, além de ter tido uma horrível perda pessoal quando, aos 19 anos, sua então namorada foi vítima de um ataque terrorista do Hamas e morreu violentamente esfaqueada.

É com esse histórico que Raz criou esta série que toca em uma ferida aberta já há milênios e que é cercada de uma controvérsia que não parece ter fim. Em Fauda, Raz interpreta Doron, um ex-combatente das forças anti-terroristas israelenses que, na 1a temporada, resolve voltar à ativa porque descobre-se que um dos alvos que ele pensava ter eliminado, o terrorista responsável pela morte de centenas de judeus Abu Ahmad (o excelente Hisham Suliman), ressurge. A partir daqui, em uma série que retrata o terrorismo clandestino do Hamas e o institucional das próprias forças israelenses, os criadores apresentam uma poderosa e explícita crítica a este conflito que hoje parece ser alimentado exclusivamente pelo ódio e pela vingança, com qualquer motivação histórica ficando em segundo plano nas mentes das pessoas que o vivem.

Com uma 1a temporada que começa devagar e vai sendo construída até o ápice em que ambas as partes se mostram dispostas a fazer as coisas mais dantescas e impensáveis em prol da vingança e uma 2a temporada claramente pior (mas ainda boa), Fauda serve não só como série de ação na qual Doron, um sujeito que só faz merda e põe tudo a perder a cada segundo por causa de sua impulsividade e instinto assassino, literalmente mete seu pé em portas, dá tapas na cara e mata muita gente, mas também convida a reflexões profundas sobre a natureza da condição humana.
Redenção (Machine Gun Preacher), de 2011, dirigido por Marc Forster

Gerard Butler aqui interpreta Sam Childers, um violento traficante de drogas motoqueiro que sai da prisão e encontra sua namorada stripper (Michelle Monaghan) mudada. Ela encontrou Jesus, largou o pole dance e, Childers, puto da cara com aquilo, continua a fazer as suas merdas até que um evento traumático faz com que ele perceba que há algo de muito errado consigo, levando-o a se reaproximar da namorada e também a encontrar Jesus.

Por causa disso, ele acaba por ir em missões humanitárias na África, onde finalmente acha sua vocação verdadeira no serviço ao próximo, em especial às crianças africanas tão exploradas e mal-tratadas pela guerra. Isto faz com que Childers construa um orfanato no Sudão e, quando outro evento traumático ocorre, ele se torna o tal “Machine Gun Preacher” (Pastor Metralhadora em tradução livre e sem qualquer relação com o dos Irmãos Piologo) e lidera ataques armados contra a milícia da região para salvar as crianças.

E tudo isso é uma história real. Childers existe, essas coisas todas realmente aconteceram e, assim como Fauda, Redenção também é mais do que um filme sobre um cara que administra a justiça com as próprias mãos e com seus próprios métodos.

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