Garimpo Netflix #54

O Garimpo é um quadro do MetaFictions no qual indicamos toda semana 3 bons títulos disponíveis nas maiores plataformas de streaming. Clique aqui para conferir os anteriores.


Todo mês, quando penso no próximo garimpo a construir, sempre me pego escolhendo algum tema. Como um fio condutor entre os três títulos apresentados, a fazer sentido dentro da publicação. É mais uma mania minha do que uma necessidade. O “brilhante” (termo posto em aspas pelo próprio e não por mim – não que ele não seja, porém) Big Boss Chefia Guguito Guddu insiste que o quadro não carece de tema e que bastam três obras boas para o deleite de nosso leitor/espectador, independente de qualquer assunto que os ligue. Dessa vez, me entreguei.

Mais do que isso, fiz bem diferente do que o costume. Estava com dois títulos nacionais engatilhados para um terceiro Garimpo Brasil (aproveite e passe os olhos pelas nossas indicações tupiniquins anteriores: Garimpo Netflix: Brasil e Garimpo Netflix: Cinema Nacional) aqui no site. Acontece que resolvi colocar um deles (guardando o outro para nova oportunidade) lado a lado com grandes obras do Cinema de alta distribuição. Acontece, ainda, que o título brasileiro muito provavelmente seja o melhor entre os aqui citados.

Assim sendo, trago-vos uma produção francesa (em muito também falada em inglês), uma inglesa/francesa e uma (como já anunciado) brasileira.


Personal Shopper, de 2016, dirigido por Olivier Assayas

Uma produção nada trivial, que mistura suspense, drama e mistério, impacta com seus significados, sua nuances e sua profundidade a chacoalhar o espectador nas cenas mais intensas. Através da história de Maureen (Kristen Stewart) conhecemos os conflitos mais naturais e sensíveis de uma personal shopper, a se reconstruir emocionalmente após a perda de seu irmão gêmeo. Mais do que isso, a personal shopper é uma médium que sofre de um problema de saúde igual ao do irmão.

Uma sinopse aparentemente sem muita substância é, na verdade, um filme realmente sério e contundente acerca da crise enorme de identidade e de espiritualidade pela qual passa a protagonista. O fantasma do irmão (literal ou figurado) é a representação de uma dificuldade grande de se desvencilhar dos traumas que surgem e de se refazer a partir dos escombros que se apresentam dentro de um ser frágil e abatido. Balançando no fio da navalha entre ser o manequim a vestir a pele cara das roupas de grife de sua “patroa” e ser uma “cópia” genética de seu irmão, além de um receptor do Além, Maureen é a representação do que somos em vida: indivíduos tentando diversas aparências, em busca de sua própria identidade principal.

Aproveite e confira a crítica na íntegra.

Negação (Denial), de 2016, dirigido por Mick Jackson

Primo Levi, um sobrevivente do extermínio judeu promovido pela Alemanha Nazista, se tornou escritor e pedia, com veemência, que nunca se deixasse de falar sobre os horrores acontecidos nos campos. A cinematografia entendeu bem o recado e diversos são os filmes cuja temática se insere neste contexto. Negação, porém, não vai para o front de batalha ou para as mazelas indizíveis sofridas nos campos. Mick Jackson, em seu filme, nos situa dentro de um tribunal. Mas o julgamento não é sobre soldados alemães ou líderes do Partido. O objeto a ser julgado é a História propriamente dita.

Deborah Lipstadt (Rachel Weisz), uma judia especialista na extermínio judaico, defende a verdade histórica que todos conhecemos. Richard Rampton (Tom Wilkinson), antissemita racista também especialista na temática, nega o que historicamente se conhece sobre o assunto. E, dentro de um tribunal surgido por conta de processos de difamação, a História é julgada.

A importância do filme se torna ainda maior em tempos nos quais os extremos políticos no Brasil e mundo afora insistem, de forma completamente infantil e ignorante, em reescrever, de acordo com o interesse de seus grupos políticos, a História.

Confira a crítica na íntegra.

Cinema, Aspirinas e Urubus, de 2005, dirigido por Marcelo Gomes

O personagem é um alemão de nome Johan (Peter Kenath). O ano é 1942. Mas o local não é a Europa. É o sertão nordestino, árido, quente, abatido. Johan, fugindo da poderosa guerra que perdurava por anos no velho continente, se torna vendedor de aspirinas pelo nordeste brasileiro. Como representante da Bayer, ele faz a propaganda do comprimido através da exibição de filmes em uma ação primitiva de exibição cinematográfica, através dos instrumentos que carrega em seu carro. Junto com o nordestino Ranulpho (em belíssima e sensível atuação de João Miguel), os viajantes tentam encontrar o maior número de pessoas possível.

Uma história de amizade e de diferenças, que traz na relação de um alemão e um brasileiro pobre os abismos entre duas civilizações e a união entre dois seres humanos. A vontade de sair da miséria de um, vendo em seu próprio país a representação mais próxima do inferno, e o desejo de fugir da guerra, o inferno encarnado, por outro são o alicerce de uma história bonita, sutil e cheia de vigor.

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