Crítica: À Espreita do Mal (I See You)

Eu nunca vou entender o planejamento da Netflix. Há semanas que só estreiam títulos a priori desinteressantes, ou toneladas de séries, em detrimento de filmes diretos que falam a um público específico. Umas obras saem em nível mundial, com data igual para a maior parte dos países do globo; outros demoram semanas ou alguns meses para chegarem às virtuais terras brasileiras. Outras, porém, ainda demoram anos. Lançado em 2019, À Espreita do Mal nos chega agora, após 1/3 do ano de 2021. E é uma produção bem específica para o nicho do suspense, um gênero que agrada a muitos e que sempre tem um alto grau de buscas.

Uma família abalada pela recente traição da mãe (Helen Hunt) ao pai (Jon Tenney), que tentam conviver debaixo do mesmo teto em uma ação falha de manutenção das aparências, conta com um filho (Judah Lewis) adolescente rebelde por não perdoar o pecado da progenitora. Em meio a isso, o patriarca, detetive local, investiga casos de crianças sequestradas e desaparecidas, que ressurgem como cópia de um mesmo modus operandi, tendo o principal suspeito da época remota preso. Em paralelo a isso, eventos estranhos acontecem dentro da casa dessa família: músicas que tocam repentinamente; talheres que somem; pessoas inexistentes que atendem a porta para terceiros. Mas um filme que poderia sugerir dois em um, na verdade, consegue costurar bem sua narrativa e manter o mistério bem presente ao longo de suas sequências.

Máscaras literais.

Há dois elementos, portanto, que sobressaem aos demais. Muito para além do drama de uma família desconstruída que precisará unir esforços para uma tentativa, ainda que aparentemente vã, de reconstrução, os principais focos da direção de Adam Randall são o suspense e o mistério. Em alguns momentos, porém, preferindo mais o mistério ao próprio suspense, a montagem opta por cortar a cena e voltar a narrativa para que juntos montemos um quebra-cabeças revelador em vários âmbitos da narrativa que nos é entregue passo a passo. É nesse sentido que a mão do diretor consegue pesar bem cada momento do filme, impedindo que se torne – como supracitado – dois títulos em um. Ainda que nem tudo pareça ter uma relação direta entre si – e estou a falar sobre os mistérios desse suspense – os elementos propostos se encaixam com harmonia, sem cair em uma forçada de barra que costuma ser inevitável a obras assim (muito embora, tenha um toque ou outro um pouco mais forçado mesmo; mas nada que nos faça desacreditar a produção).

A trilha sonora marcada por sons musicais que mais se assemelham a ruídos dissonantes entre si, a cada momento do desenrolar da trama, ajudam a criar o ambiente sombrio que vai sendo construído pelos personagens e seus traumas e medos. Máscaras literais ou máscaras sociais vão caindo e revelando os aspectos mais obscuros de seus protagonistas/antagonistas (ou ambos a um só tempo). Julgamentos prévios surgem como inevitáveis, mas se mostram posteriormente como armadilhas a nos constranger. Cada ação – antes digna de rejeição – passa a figurar como uma prática digna de se compreender (ainda que não se concorde). Tudo o que vem sendo construído, em um piscar de olhos, talvez precise de uma ressignificação, porque algumas máscaras vêm para esconder vergonhas ou machucados; enquanto outras para maquiar feiuras e monstruosidades. À medida em que a narrativa se constrói, também os personagens vão sendo lapidados; uns como seres humanos, outros como bestas inumanas.

E máscaras sociais.

O que parecia ser mais título genérico a compor um acervo de suspense e mistério, na verdade, entrega uma proposta que é bem cumprida em sua realização. De dramas ao suspense com mistério, À Espreita do Mal é uma boa pedida para aqueles que querem se envolver com uma narrativa muito bem contada e pegajosa (no melhor sentido da palavra), pois ela não te permitirá ignorar cada mistério que aparece sem antes querer cada uma das respostas às questões levantadas. Um suspense maduro e bem realizado.

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