Garimpo Netflix #101: Rede Social

O Garimpo é um quadro do MetaFictions no qual indicamos toda semana 3 bons títulos disponíveis nas maiores plataformas de streaming. Clique aqui para conferir os anteriores.


As redes sociais são um fenômeno deveras interessante. Criadas, no início de tudo, como uma fonte de entretenimento e de reaproximação entre pessoas, ainda que de maneira exclusivamente virtual, a brincadeira se tornou uma das principais ferramentas de controle, manipulação e democratização da imbecilidade coletiva específica da raça humana.

Hoje, através das redes sociais, elege-se presidentes, governa-se, torna-se revolucionário (sem sair de casa, sem mover multidões, apenas destilando toda sorte de ignorâncias como verdades absolutas), criam-se mitos (tão sólidos quanto um desenho criado pelas nuvens), diminui-se a inteligência do planeta. A rede social é um poderoso instrumento. Pena que a maior parte das pessoas tem muito pouco a oferecer. Ela, portanto, se torna um multiplicador de horrores.

O Garimpo Netflix de hoje traz três filmes de gêneros e formatos diferentes, que assumem em si a importância das redes sociais: o longa polonês Rede de Ódio, o documentário americano O Dilema das Redes e o média-metragem inglês de terror HOST.


Rede de Ódio (Sala samobójców. Hejter), de 2020, dirigido por Jan Komas

Um jovem de origem popular tenta seguir seus estudos, mas sua vontade de ser grande e apagar a baixa autoestima que guarda de si próprio é um poderoso combustível para confundi-lo em seus passos. Inteligente, talentoso e sagaz na tecnologia da informação, ele tenta se utilizar disso para crescer em meio a uma sociedade que sequer o enxerga e que, muitas vezes, o trata como um pária.

As repetidas ignoradas da mulher por quem nutre um sentimento ajudam-no a se afundar em decisões nada claras de sua vida, quando ele resolve fazer parte de uma grande empresa promotora de fake news mundo afora. Uma vez dentro desse sistema cruel e desonesto, o protagonista percebe que tem o poder de jogar e manipular a sociedade, ora incentivando o radicalismo de Direita, ora o de Esquerda, promovendo, com isso, a iminência de um caos social a partir de algumas letrinhas e imagens selecionadas ao seu prazer na web, esta teia que envolve a todos e preda cada qual sem o menor dó.

Um filme excelente que desvenda o quanto somos gados manipulados por cliques anônimos, mas muito bem orientados.


O Dilema das Redes (The Social Dilemma), de 2020, dirigido por Jeff Orlowski 

Se você é daqueles que viu nossa indicação anterior (Rede de Ódio) e só se divertiu, sem acreditar que aquela ficção é claramente inspirada em eventos reais, aqui está o lado “verdadeiro” da coisa: para aqueles que pensam que documentário (assim como jornais) são a verdade (mas não são; tal qual uma ficção, são expressões da perspectiva de seus realizadores). O Dilema das Redes conta com os grandes figurões por trás da rede virtual e suas redes sociais: os que estruturam, criam, produzem cada uma dessas ferramentas.

Esse documentário apresenta a visão de cada um desses diretamente envolvidos nas questões mais urgentes e essenciais das redes sociais: a ética, as possibilidades, os lados positivo e negativo, e o poder desses recursos sobre toda uma sociedade. Aqui também – como na ficção supracitada – o teor político (diretamente falando) é abordado e, uma vez mais, ficamos com a certeza do quanto as decisões do globo hoje são afetadas pelos cliques, letras e figuras que anonimamente são direcionadas a cada um de nós, diariamente.

Para aqueles que têm um olhar mais crítico, o documentário é até um pouco óbvio. Mas toda obviedade quando vinda daqueles que fazem parte do processo ganha um status bem diferente e se torna tão mais impactante.

Host, de 2020, dirigido por Rob Savage

Em pleno isolamento social, o qual ainda vivemos, seis amigos inventam de contratar uma médium para uma sessão de invocação espiritual virtual através da plataforma de conferências Zoom. Extremamente interessante ponto de partida. Há o mundo material diretamente relacionado com o mundo virtual, utilizando ambos a tentativa de contato com o mundo espiritual.

Mas a animação das amigas e de um rapaz que entra de gaiato na história começa a mudar de figura quando o desrespeito de uma delas (algo muito comum nas redes mundo afora) em relação a suposta entidade gera um retorno extremamente violento por parte do mundo espiritual. Cada usuário será perseguido por esta entidade, que não parará até que atinja seu objetivo. Diante disso, os sentimentos de cada personagem vão se aflorando, levando-os para locais cada vez mais obscuros de seus seres.

Se nas duas primeiras indicações falamos do horror em forma de discurso promovido pelas redes sociais e pela rede virtual de uma forma geral, aqui Rob Savage muito acertadamente impõe uma roupagem um tanto mais direta a este fenômeno: o espírito do Terror que nos suga a Humanidade não necessariamente vem do universo sobrenatural, mas dessa onda virtual que nos consome diariamente.

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