Garimpo Netflix #102

O Garimpo é um quadro do MetaFictions no qual indicamos toda semana 3 bons títulos disponíveis nas maiores plataformas de streaming. Clique aqui para conferir os anteriores.


Hoje trago a vocês três obras distintas em suas propostas. Mas o que elas têm de comum, além da qualidade de tudo que é apresentado na tela e do fato de serem produções largamente independentes, é que conseguem aliar entretenimento e reflexão sobre os mais variados temas, desde sobre o ser humano enquanto animal social, sobre o determinismo de quem está inserido em determinado contexto social e sobre exatamente o que é que nos faz humanos.

Uma comédia, uma ficção científica/ação e um drama, todos entre o melhor que a Netflix tem a oferecer em seus respectivos gêneros.


– Upgrade: Atualização (Upgrade), de 2018, dirigido por Leigh Whannell

Menos conhecido do que seu parceiro James Wan, Leigh Whannell é a outra metade do time responsável por trazer frescor ao gênero do terror quando escreveu e produziu na raça com Wan o primeiro e excelente “Jogos Mortais”, além de ser um dos protagonistas. Depois ele e Wan fizeram isso de novo com a franquia “Sobrenatural” e agora Whannell, com um elenco desconhecido mas espetacularmente escalado, traz o sensacional Upgrade, um filme tão criativo em sua premissa quanto tecnicamente na maneira que é filmado. Inclusive, Upgrade virou premissa para uma série que está sendo produzida.

Aqui temos a história de Grey Trace (Logan Marshal-Green, o Tom Hardy genérico), um mecânico de automóveis avesso ao mundo excessivamente tecnológico em que vive, exemplificado por sua esposa, que trabalha em uma empresa de robótica e tem um carro automático. Grey, por razões que prefiro deixar para que vocês descubram, fica paraplégico em um assalto em que sua mulher é assassinada. Ele então recebe um chip, o tal Upgrade do título, que permite que ele se locomova normalmente novamente. Mas nada é o que parece e Grey vai entrar numa espiral violentíssima de vingança e questionamentos existenciais num longa filmado com extremo e criativo esmero técnico. É imperdível!

– Deidra e Laney Assaltam um Trem (Deidra & Laney Rob a Train), de 2017, dirigido por Sydney Freeland

Há alguns anos a Netflix apostava mais pesadamente em produções independentes e de baixo orçamento do Cinema americano. São vários os exemplos e já indicamos vários por aqui, mas essa tendência parece ter sumido com a gigante do streaming investindo mais em grandes e caríssimas produções típicas do cinemão hollywoodiano como o recente e lamentável (porém divertido) “Army of the Dead” e em obras de outros países. Um dos melhores longas produzidos nessa época é este Deidra e Laney Assaltam um Trem.

Em alguma cidadezinha no meio do nada em Idaho, Deidra e Laney são irmãs que precisam amadurecer muito antes do necessário porque tem um pai ausente (ainda que hilário) e uma mãe que tem um surto no trabalho e vai presa. Deidra (Ashleigh Murray), a mais velha e brilhante irmã de seus 18 anos, toma para si a tarefa de cuidar de Laney (Rachel Crow), de 16, e do moleque brabo Jet (Lance Gray). Para pagar as contas e também a fiança da mãe, Deidra e Laney desenvolvem um plano para roubar os trens que passam em frente a sua casa, descobrindo no processo a força dos laços familiares e como o destino é um negócio que é a gente que faz.


– Gridlock’d – Na Contra-Mão (Gridlock’d), de 1997, dirigido por Vondie Curtis-Hall

Uma absoluta joia e um dos clássicos do cinema independente americano, que teve seu grande momento justamente nos anos 90, é este Gridlock’d (favor não confundir com o merdíssimo “Gridlocked”), estrelado pelo sempre ótimo Tim Roth e pelo icônico e saudoso Tupac Shakur, que trazem um conto sobre a epidemia do vício em drogas e a massacrante burocracia do mero existir em uma sociedade que, mais frequentemente do que deveria ser, nos faz parecer empacados em um engarrafamento (gridlocked quer dizer justamente isso: engarrafado).

Stretch (Roth) e Spoon (Tupac) são dois músicos usuários pesados de drogas que testemunham uma amiga ter uma overdose gravíssima. Isso faz com que os dois tomem a decisão de parar com as drogas. Eles então, sabedores da fraqueza do vício, vão procurar uma clínica de reabilitação para drogados (ou seja lá qual for o nome disso) do governo, uma vez que eles são fodidos de grana. A isso alia-se também todas as vicissitudes inerentes a quem usa drogas e frequenta ambientes e pessoas que as vendem. Essencialmente, é uma analogia com o próprio uso de drogas. Não importa o que se tenta fazer, a sensação é a de se estar num engarrafamento eterno, mas aqui pelo menos esse congestionamento tem uma das mais espetaculares trilhas sonoras do cinema americano.

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