Crítica: Elize Matsunaga - Era Uma Vez Um Crime

Um dos motivos pelos quais o cagador de regra que vos fala optou pela graduação em Direito, no longínquo ano de 2012, mesmo ano da tragédia que envolveu a família Matsunaga, foi justamente a análise desses casos criminais comprometidos pelo nosso “jornalismo investigativo”.

Lembro que durante algum daqueles testes vocacionais mequetrefes do ensino médio, um episódio do saudoso “Linha Direta” serviu de pano de fundo para que noções iniciais de Direito Penal me fossem apresentadas e me despertassem para um possível envolvimento profissional neste universo.

Até hoje eu tenho sérias dificuldades de compreender aquele sujeito que presta vestibular para Direito, ingressa a uma boa universidade e tem a pachorra de dizer que não gosta de Direito Penal. Acho que isso deve representar algum tipo de desvio de caráter, mas não estou aqui para atacar os meus colegas amantes da burocracia e apaixonados pela indústria do dano moral.

Fato é que essa curiosidade em torno do que choca e o interesse pelas profundezas da mente humana acaba transformando as angústias e os conflitos do processo penal em uma ferramenta extremamente sedutora quando o assunto é o engajamento popular em torno de um crime midiático.

Eu nutro até um certo apreço pelo imbecis que, mesmo leigos, discutem a eficácia de medicamentos, se recusam a tomar vacinas testadas ou questionam o formato do mundo. O criminalista sempre precisou conviver com esse tipo de “opinião”. Gera um certo alívio ver mais gente sentindo na pele como é difícil passar anos desenvolvendo construções teóricas, embasamentos técnicos, até surgir um abutre qualquer e colocar tudo por terra.

O próprio catálogo de filmes, séries, e documentários que buscam revisitar os crimes mais chocantes do nosso passado recente são a prova viva de que a espetacularização do papel de juízes, promotores, delegados e até mesmo advogados é uma rica e eficaz fonte de entretenimento.

Isso já virou até gênero: o true crime.

Ora, se temos um true crime no qual a ré confessa transformou o seu então marido bilionário em strogonoff, por quê não percorrermos o seu passado maltratado e colocarmos uma sonoplastia de filme de suspense para tentar desmistificar as nuances por trás dos fatos?

Melhor… E se pegarmos um bando de machos obsoletos que tiveram um papel decisivo naquele processo e ensaiarmos algumas discussões acerca da manutenção do poder primário e da predominância de homens em funções de controle e privilégio?

Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime estreou na Netflix com a fórmula perfeita para chocar novamente, refrescar a curiosidade das pessoas e tentar desmontar alguns estereótipos criados em torno de um julgamento que entrou no imaginário do público a ponto de fazer com que quase todo mundo se interessasse pela obra.

De um modo geral, eu tendo a desaprovar situações em que pessoas são alçadas a uma condição de acuamento, independentemente do delito cometido ou da acusação a ser questionada. A minha empatia por Elize parte antes mesmo do documentário se iniciar, o que me fez detestar o formato “embelezador” de como a filmagem foi produzida.

Entre as péssimas alternâncias cronológicas e as entrevistas desconfortáveis, a diretora Eliza Capai trabalha para montar uma protagonista frágil, machucada, de origem humilde e heranças traumáticas, que em um momento de destempero e abuso psicológico teria cometido um dos crimes de maior repercussão no Brasil. Reinicia-se o conflito de ação vs reação no caso.

O problema é que a produção não se mostra nada interessada em trazer elementos novos, criar dúvidas sobre momentos determinantes da tragédia ou fazer o que o true crime faz de melhor: criar uma tensão na sua narrativa transcendente aos fatos.

O que o documentário tem de mais interessante, provavelmente a matéria que o Fantástico exibiu em 2012 também teve. A propósito, a sétima temporada da série “Investigação Criminal” traz um episódio de 45 minutos sobre o caso que faz o mesmo serviço.

Sob o grande álibi da entrevista inédita, tendo em vista que Elize Matsunaga jamais se pronunciou publicamente sobre os fatos, a obra finge tentar compreender as motivações por trás do crime, mas acaba criando uma caricatura da personagem pela qual havia uma tentativa de humanização. As próprias inserções da Elize contribuem para um efeito narrativo sensacionalista ao sugerir elementos ocultos e segredos inconfessáveis dignos de novela.

Reconheço que não há como ser indiferente ao que Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime exibe em seus quatro episódios de cinquenta minutos. A história é montada com diversas imagens da cobertura jornalística do caso, bem como registros do acervo pessoal do casal e uma série de depoimentos.

Acontece que essa coletânea de faíscas do crime, por si só, não me fez ter um pingo de tesão ao final de cada episódio. Tudo parecia um grande programa do Datena ao contrário.

Se o objetivo da Elize era mesmo deixar um material comovente e relevante para a reconstrução dos seus laços com a filha fadada a arcar para sempre com uma história tão macabra, lamento dizer que não rolou.

Se o objetivo da diretora era mesmo trazer um lado humano da sua protagonista, reforçar dúvidas sobre as motivações para o crime e criar compensações entre patriarcado e esquartejamento, lamento dizer que não rolou.

Se o objetivo do delegado, do promotor e dos demais depoentes homens era mesmo consolidar a historinha de que a puta oportunista premeditou toda a barbárie para meter a mão na grana, lamento dizer que não rolou.

Para mim, quase nada rolou.

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