Na primeira vez que visitei a terra do Tio Sam, me senti fisgado por uma espécie de realismo fantástico. As lojas, produtos, roupas, abundância e até mesmo a paisagem me faziam questionar se estava mesmo na Terra. Na minha cabeça tonta de infante, ninguém podia ser infeliz com um Mcdonald’s a cada esquina e games por 60 filés.

A qualquer custo (Hell or High Water), longa de David Mackenzie indicado a 4 estatuetas da academia: melhor ator coadjuvante para Jeff Bridges, melhor filme, melhor roteiro original e melhor edição; mostra um EUA bem diferente do que visitei. A América de raiz, esmiuçada nas quase 2 horas de filme, é um país desesperado, que alterna entre ofertas de bancos e placas de venda-se. Uma gente sem esperança, que cultiva os traumas e preconceitos do passado, enquanto tenta sobreviver na sombra das grandes megalópoles globalizadas.

Sob essa realidade, no interior do segundo maior estado americano, o Texas, dois irmãos, um ex presidiário (Ben Foster) e um pai divorciado com dois filhos (Chris Pine), perderam a terra da família. Para se restabelecerem financeiramente, recuperarem a terra e darem uma vida digna para a família, ambos embarcam numa jornada de assalto à bancos. Tudo vai relativamente bem até que um delegado à beira da aposentadoria (Jeff Bridges), que saliva por um último e grandioso ato, entra no caso. Dessa forma, um faroeste moderno de assalto toma corpo, oscilando entre drama pessoal, suspense e até bang-bang.

Personagens bem construídos, uma história muito bem contada e uma vocação política são os maiores méritos da película. Obstinado a falar da alma perdida americana, Mackenzie constrói diálogos memoráveis que recontam a história sangrenta e usurpadora dos EUA. Nada de glamour, ou cowboys heróicos. O que temos são pessoas profundamente desiludidas entre a poeira e areia do país que perderam.

Chris Pine e Ben Foster entregam interpretações esforçadas, que fazem a empatia entre o público e os protagonistas aumentar em cada diálogo. As motivações são nítidas, humanas e, apesar de serem anti-heróis, a simpatia pela missão Breaking Badiana é incontestável. Porém, quem rouba a cena é Jeff Bridges, que apresenta mais uma atuação memorável em sua brilhante carreira. Interpretando um policial velho, cansado e obstinado. Que joga pelas regras, mas sem honra, faz seu dever, enquanto arrasta as correntes que sempre assolaram o país do Mickey. Destilando preconceito e sobriedade, o personagem de Bridges é a alma da narrativa e um baita antagonista. Dificilmente a estatueta dourada de melhor ator coadjuvante não vai para sala do consagrado ator de Big Lebowski.

Falta apenas um pouco mais de estilo ao longa. Planos mais ousados, ângulos menos previsíveis, a tensão está na história e a câmera é apenas coadjuvante. Verdadeiro desperdício. A mesma crítica não pode ser feita quanto a vocação política. A obra coloca o dedo na ferida e ataca os bancos, instituições financeiras e o capitalismo neoliberal com força. Apesar de não aprofundar o tema, é um belo pano de fundo que torna a narrativa muito mais instigante.

Sustentado por uma trama forte, uma mensagem atual vinda de uma realidade profundamente trumpiana e personagens extremamente bem trabalhados, “A Qualquer Custo” além de um memorável faroeste moderno da decadência ianque, é um dos melhores filmes americanos  da temporada.

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