Cheguei à sessão antecedendo seu horário, sentei na esquina da última fileira da sala e assisti. Não ao filme – ainda. O filme ainda demorou uns 10 minutos para iniciar. Eu assistia as pessoas. Elas gritavam. Eram, majoritariamente, grupos de mulheres dos seus 30 anos ou casais de diversas faixas etárias. No primeiro grupo é onde habitava o fanatismo. Observei alguns desses grupos ainda na entrada; estavam verdadeiramente extasiadas. Parecia que era uma estreia de franquia adolescente e febre mundial só que para o clubinho das solteironas. Algo similar à despedida de solteira ou boates com gogo boys… deve captar o mesmo público.

Deslocada e um pouco perplexa. Essa era eu na fila do pão. Do cinema. Tanto faz.

Fui ver o filme sem expectativas, na verdade, com o reverso disso. Ansiei pela sequência de vergonha alheia e repulsa antes de me acomodar na cadeira. Antes de eu dar meu parecer, acredito que não muito animador, vamos lá:

Você busca em “50 tons mais escuros” algum tipo de soft porn? Uma introdução ao mundo BDSM? Esquentar a relação? Um romance mais apimentado? Caso seja alguma dessas coisas, que pena. O filme é só mais um incontrolável clichê que (re)atesta um papel fraco, sem vida e ridiculamente inocente, apesar da “sujeira” envolvida,  à uma mulher.

Vamos a um resumão do primeiro filme, antes de qualquer coisa. A mocinha conhece o Sr. Cinza e se presta a todo e qualquer tipo de vergonha perto dele, virginal e insegura que é. Não existe uma cena onde Anastacia (Dakota Johnson) não se sinta pequena perto do multimilionário fodão Christian Grey (Jamie Dornan). Já me fez coçar aí. A problemática final do primeiro filme é: o “homem dos sonhos” (ha-ha), rico, romântico, gostoso, confiante e bom de cama(?) gosta de mandar e de umas putarias mais pra violentas (aka:  ser o dominante no sexo e, como extensão, no relacionamento) e só sabe ser assim. Será que a menina Anastacia, insegura, sem propósito de vida até então, irritantemente passiva e dona de uma voz rastejante vai querer desgraçar sua vida com esse rapaz?

SIM! SIM! Afinal, vamos lá, que mulher não sonha com esse partidão? Um cara que sustente padrões altos  (afinal, ele pilota um helicóptero e tem dezenas de carros), foda, como ele mesmo diz, nada de romancinho – só na base dos tapa – e queira mandar na tua vida? Diz aí.

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“Olha como eu sou foda, tenho um helicóptero com meu sobrenome, fêmea”

Fico me perguntando ao que as mulheres estão acostumadas para vangloriar esse personagem, por que elas realmente o tornam um príncipe. Um príncipe que coisifica a mulher estabelecendo um relacionamento a base, literalmente, de um contrato. Fico meio triste com isso mas… ok.  Sigamos. A problemática no primeiro filme é tão grande pra cabecinha da Anastacia que eles se separam. O que nos leva ao segundo filme…

No primeiro eles terminam por que a mocinha fica chateada em ver que ele é sádico (até agora não entendi essa parte, posto que ela sabia desde o início dos fetiches dele). Aí o segundo filme é todo na historinha de volta do casal. E, aí que vem a parte que mais me deixou FURIOSA, nela tentando consertar o homem quase perfeito. Afinal, é claro que o amor conserta tudo, não é mesmo?

Vejam bem. Eu não tenho NADA contra BDSM. Também nada contra pessoas que se identificam como submissas na cama, ou, sei lá, na vida (talvez aí eu fique um pouco mais incomodada sim, confesso). O que me irrita MUITO em “50 tons mais escuros”, assim como no primeiro filme, é a idealização de um cara baseada na grana preta que ele tem e no físico, vamos ser sinceros. A coisa toda se baseia no “cavalheirismo” dele, no quanto ele a trata cheio de mimos por causa da grana que tem… poxa vida, esse vale a pena, apesar das esquisitices. Vale a pena por que tem bala na agulha. Se fosse um pé rapado que gosta de um sexo mais violento não ia ter essa romantização toda em cima. Vale a pena por que tem um corpo escultural (aliás, aquele grupo de solteironas GEMEU e BERROU em todas as cenas que o cara aparecia despido). Que porra de valores esses. Ah, e claro, o segundo filme se sustenta na ideia que Anastacia vai salvar Christian de seu lado perverso – que aparenta ser inerente à existência do moço. Bem “Bela e a fera”, só que pós-moderno.

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“Que homão da porra”, ela pensa. Tá certo.

Enquanto eu assistia, sentia sendo anexado ao meu currículo alguns certificados de idiota – fala sério, salvar um cara desgraçado da cabeça? Mudança drástica, salvação a partir da figura endeusada da mulher? NÃO! Não, não, não. O amor inspira bons lados, não faz um extreme makeover. Mais uma vez, romantização beeeem datada e irreal. O Mr. Grey é um cara control freak e possessivo e arrancou suspiros da mulherada ao falar coisas como “você não vai viajar a trabalho com seu chefe!”, “não quero ninguém olhando pra você que não eu” e “você é minha” (mas não naquele jeitinho boca pra fora que, confesso, pode ser bonitinho). Ele coisificou a garota por grande parte dos dois filmes e depois tomou um pouco de consciência e começou a ligeiramente se comportar melhor. Aí, pela mudança brusca, começou a ganhar biscoito da plateia. É aquela história do homem que às vezes faz o básico e é elogiado. Um saco.

O filme, para mim, acaba sendo uma medíocre alegoria sobre como as mulheres ainda estão dispostas à aceitar pouco para si mesmas. Pouco sim pois, apesar de ter muita grana, Grey tem muitas facetas tóxicas que são maquiadas pelo poder e pinta. Anastacia é uma figura que me deixa frustrada e envergonhada enquanto mulher: uma marionete vivendo em função da única referência sexual e amorosa que ela teve até então e tentando alcançar sua redenção.

Enquanto erótico também deixa a desejar. Acredito que duas cenas no total me chamaram atenção por serem excitantes. De resto, eu fiquei entediada e, o final, meu deus do céu. Eu quase sai correndo do cinema. E a plateia interativa bradou “Toma! Chupa! Se fodeu!” e mil “Awns” durante. Brega, forçado e com um clima de novela mexicana dos anos 90 (o que tá longe de ser uma boa referência).

“50 shades darker” tá mais pra uma comédia aos que não entram no transe romântico/erótico que oferta – mas não cumpre.

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