O diretor tão citado por nós no MetaFictions (muitas vezes, ocupando posições extremamente opostas), em especial ao longo das publicações acerca do Oscar e listas que mensalmente fazemos, surge no presente Garimpo. Poderíamos até nos perguntar porque um cineasta desta expressão, recentemente indicado ao Oscar, figuraria neste quadro, em detrimento do Assista!, por exemplo. O fato é que, entre Os Suspeitos e A Chegada, o título sobre o qual falaremos passou mais “batido” pelo público. Indevidamente. Um pecado. Para solucionar essa arbitrariedade do destino, indicamos, portanto, o interessantíssimo O Homem Duplicado, dirigido por Denis Villeneuve.

Villeneuve adapta a obra homônima de José Saramago para o Cinema. Devo dizer, de antemão, que o presente artigo se refere tão-somente à experiência cinematográfica, sequer aludindo a qualquer passagem da produção literária. Esta nem foi lida por este quem vos escreve. E ainda que fosse, continuaria neste mesmo posicionamento; pois a comparação entre um livro e um filme é algo tão profundo quanto a comparação entre uma laranja e uma bicicleta. Isto é, impossível de ser feita; mais do que isso, sem sentido. Que o antigo bordão “o livro é melhor que o filme” nunca se faça presente em qualquer discussão que se supõe cinematográfica. Tendo dito isto, sigo em meus comentários acerca da construção do diretor canadense e não do escritor português.

“Nenhuma vontade de se movimentar.”

Jake Gyllenhaal é um professor de História que vive uma vida comum e sem grandes conflitos (eu?!). Suas exposições fazem referência a momentos duplos, citando Hegel e Marx, principalmente quando este coloca a História se repetindo, primeiramente como tragédia e, posteriormente, como farsa. Já percebemos que isso deverá acontecer no conto que nos está sendo apresentado. A certeza vem quando o personagem descobre um outro igual a si, sendo este um ator profissional (uma história minha?!). Há algo tão próximo da farsa – se considerarmos aqui os termos históricos – quanto a ficção? Não a farsa como mentira, mas como construção de realidade.

O que se segue é um conflito intenso de alguém que descobre a si mesmo em outro: quem sou eu? Quem é ele? Como é possível coexistir? Um é tragédia e o outro farsa? Seria eu a farsa ou a tragédia? Neste momento, somos levados à quase loucura dos personagens em um jogo caótico de se fazer ser o outro. Eles são enrolados na teia da vida de ambos, tornando-se presas dessa mesma vida que surge como o aracnídeo predador.

Farsa ou tragédia?

Com clima onírico, por vezes desconfiamos se estamos mergulhados em um sonho ou devaneio das personagens. Um conflito tão-somente mental? Na realidade, um conflito de todos. Quantas vezes não somos nossa própria farsa e nossa própria tragédia, tentando ser algo que não somos ou matando aquilo que deveríamos ser? (sobre mim, de novo?!)

Denis Villeneuve controla bem sua história, enrolando-nos na trama da duplicação destrutiva, utilizando-se de metáforas e citações acadêmicas, que surgem como forte componente de seu filme. Várias questões surgem e o diretor não peca tentando respondê-las. Deixa a interpretação livre. O que, muitas vezes, causa estranhamento aos espectadores.

Mas não a mim.

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