Há quem diga que Cinema é feito através da justaposição de planos de imagens; isto é, através da montagem, ressignifcando os planos a partir de sua associação com outros, como fazia o Cinema Russo do início do século XX. Indo por essa linha, há quem diga, como David Mamet expõe em seu livro Sobre Direção de Cinema, que quanto menos falado for um filme, melhor é; que o diálogo deve surgir tão somente como uma “cereja no bolo”. Até poderia concordar, já que o Cinema é imagem em movimento; as falas a partir de um texto são uma característica do teatro, e esta Arte é completamente diferente daquela.

No entanto, sem usar muito a memória, podemos listar excelentes títulos que se baseiam quase que unicamente no diálogo: Uma Simples Formalidade, de Giuseppe Tornattore, cujo filme é, praticamente, todo em uma delegacia na qual Roman Polanski interroga Gérard Depardieu (salvo um ou outro flashback muito rápido ou uma cena em outro espaço daquela locação); a trilogia de Richard Linklater, Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite, que traz as discussões de Ethan Hawke e Julie Delpy sobre assuntos cotidianos, enquanto caminham pelas cidades onde estão em cada história. E, sustentando-se pelo diálogo, ainda mais do que as obras supracitadas, surge Locke, de Steven Knight (atualmente, disponível no Netflix).

Hardy & Knight, os registas de Locke

Este, que foi filmado em menos de uma semana, utilizando-se apenas do período noturno que cada dia nos oferece, conseguindo dois takes por dia e rodado em tempo real (enquanto os atores conversavam, efetivamente, pelo telefone) é o nosso Garimpo da semana. Sequer veio para os cinemas do Brasil e, apesar de ter um diretor muito conhecido pelos roteiros que escreve e um grande elenco, a produção parece ter sido ignorada pelos grandes holofotes da mídia cinematográfica em geral. Para mim, no entanto, tratou-se de um dos melhores filmes daquele ano de 2014.
Locke nos traz a história de Ivan Locke, interpretado de forma nada menos que genial pelo brilhante ator Tom Hardy, que dirige seu carro durante uma hora e meia até chegar a seu destino, enquanto fala ao telefone (via Bluetooth) com diversas pessoas, tentando resolver alguns conflitos pessoais e profissionais.

Mais do que Uma Simples Formalidade ou a trilogia de Linklater, Locke nos coloca de frente para Tom Hardy e Tom Hardy apenas. Não há as belíssimas paisagens europeias para nos envolver junto às discussões de um casal apaixonado; não há a exploração de locais de uma delegacia e seus objetos para agregar mais valor à história. Há somente um personagem, que dirige, determinado em chegar ao seu destino, tanto quanto a resolver seus conflitos. O ator britânico leva o filme sozinho. É ele, em sua solidão durante a viagem pela “estrada”. E é exatamente aqui que a obra começa a tomar uma forma deveras profunda.

“A determinação te faz correr, nunca parar, precisar vencer” (Harris)

Se, ao analisar Gravidade de Alfonso Cuarón, eu havia dito que o mexicano vai ao espaço para ilustrar uma delicada e bonita metáfora sobre a vida, escrevo agora que Steven Knight utilizou um carro e uma avenida para tratar sobre o mesmo tema (com aspectos diferenciados, é claro!). E é aí que reside a beleza da Arte. Duas histórias que tratam sobre um mesmo tema, mas com formas completamente distintas.

Ivan Locke é um importante administrador de obras e não poderá estar presente na maior entrega de concreto da História da Europa, pois decidiu acompanhar o nascimento de seu filho fora do casamento, a acontecer naquela noite. Enquanto dirige até a maternidade, ele conversa ao telefone com seu assistente para resolver os problemas que surgem da grandiosa entrega; em paralelo, durante o intervalo dessas ligações, fala com sua mulher sobre seu erro – “a única vez em que fez isso na vida” – de ter se relacionado uma noite apenas com outra, o que gerou um filho. Diante disso, Locke faz suas escolhas enquanto segue em sua trilha.

A solidão do corredor de longa distância

A beleza do filme reside em dois pontos muito simples: a atuação de Tom Hardy e a já citada metáfora da vida. O ator passa toda a tensão e determinação do personagem sentado em um banco de carro e dirigindo sem parar. Tudo o que temos durante 90 minutos é ele dialogando, por telefone, com as vozes dos outros personagens. Ou seja, o filme é Tom Hardy. E, com esses poucos elementos, ele consegue te deixar atônito durante a viagem. Os dois conflitos do personagem passam a ser igualmente importantes e o espectador, vidrado, se torna parte daquela teia de relações que definirá o futuro de Ivan Locke.

Em uma obra cinematográfica sempre há muito mais do que um ator – e um ator somente – para a realização da história; e, devido ao fato de, em Locke, Tom Hardy ser praticamente o único elemento, repito incansavelmente que se trata da melhor performance de qualquer produção lançada naquele ano.

Em relação ao outro ponto, isto é, a interpretação pessoal de que o filme trata sobre a vida, imediatamente lembro-me do conto de Alan Sillitoe, The Loneliness of the Long Distance Runner, bem como da música homônima do Iron Maiden, escrita por Steve Harris, que mostra a vida como uma corrida na qual você deve dar seu máximo para chegar ao destino, enfrentando as milhas que parecem nunca acabar, não chegando a lugar algum, fazendo tudo parecer fútil. E não seria Locke uma releitura disso? Ele dirige, para chegar até onde decidiu, para dar um nome ao filho bastardo, para resolver a entrega do concreto e garantir que o prédio seja construído sem erros, pois uma falha apenas poderia colocá-lo no chão após alguns meses de construído.

“Você tem vontade de entregar a corrida. É tudo tão fútil” (Harris)

Junto a isso, sua única falha na vida – um dia de relacionamento extraconjugal – talvez o coloque para fora de seu lar. Ivan não pode voltar sua vida, como uma fita gravada, e reiniciá-la como se não soubesse o resultado. Locke não pode passar em algum lugar sem deixar marcas de concreto que parecem se eternizar onde se fixam, como diz sua mulher no filme, pois isso é o que ele é – e alguém é capaz de atravessar a vida de outrem sem deixar seus vestígios, esculpidos ou brutos? Não seria isso, portanto, um resumo de nossas vidas: tentar construir algo da forma como desejamos, deixando marcas mais ou menos profundas – dependendo das situações – sabendo que um erro, e um erro apenas, pode ser o responsável por toda a nossa estrutura, delicadamente criada, ruir? E, assim, Steven Knight realiza uma obra digna de se assistir um sem-número de vezes; Knight nos coloca de frente para nós mesmos, através da construção de Ivan Locke, sob a pele do inesquecível Tom Hardy.

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