Eu e meu grande amigo Rodrigo Cirne (Luv u!) temos uma regra muito simples quando vamos escolher filmes para assistir. Se a palavra “Amor” estiver no título traduzido para o português, então é um sinal evidente de que o filme é uma comédia romântica merdíssima. Os distribuidores aqui no Brasil parecem ter convencionado que essa palavra servirá como uma marca indelével de um filme bobo, esquecível e água com açúcar. Poucas são as vezes em que isso não funciona. Após um cuidadoso estudo, descobrimos, enquanto comíamos um podrão na esquina, que essa regra só não funciona quase que exclusivamente quando “Amor” está no título original.

Façam aí esse exercício nas suas mentes. Amores Brutos  (Amores Perros), Embrigado de Amor (Punch-Drunk Love) e Amor (Amour) são todos filmes excelentes, densos e, mesmo que um deles tenha Adam Sandler no elenco, memoráveis. Em compensação, temos bombas absurdas como Amor à Segunda Vista  (Two Weeks Notice), Um Amor para Recordar  (A Walk to Remember) e Um Encontro de Amor  (Maid in Manhattan), nenhum desses com amor no nome original.

Eventualmente, encontramos uma única brecha em nossa regra quando lançaram Amor Sem Escalas  (Up in the Air) em 2009, que não tem a palavra “Amor” em seu título original e é um filme tão bom que foi com justiça indicado para 6 Oscar, incluindo melhor filme. E agora, absolutamente sem querer, eu acabo de encontrar outra brecha em Um Amor a Cada Esquina (She’s Funny That Way).

O elenco olhando para o diretor tentando entender quem come quem nessa cena.

Acontece que eu sou bem babaca e, em razão disso, meu Netflix está em inglês. O título do filme que me aparece, portanto, é o título em inglês e, por um absoluto e feliz acaso do destino, eu acabei por ignorar o nome do filme em português, ou então eu não teria sequer parado para checar o elenco ou o diretor. Foi só assim que eu pude descobrir que este filme é dirigido pelo grande e subestimado Peter Bogdanovich, de clássicos do cinema como A Última Sessão de Cinema  (The Last Picture Show) e Essa Pequena É uma Parada  (What’s up, Doc?), diretor que, após aparecer para o mundo na mesma leva de monstros como Coppola e Scorsese (e ser louvado como um deles), ficou relegado quase ao ostracismo nas décadas de 90 e 2000, dirigindo filmes para TV quando isso ainda era considerado um xingamento e sem ter feito nada para o cinema em mais de 10 anos antes desse filme.

Este é um filme que homenageia o Cinema. É uma comédia muito evocativa daquelas dos anos 60, com Audrey Hepburn e Gregory Peck, onde os personagens ainda carregam um certo quê de inocência e são todos articulados ao falar, onde a puta é chamada de acompanhante, o adúltero é considerado um gente boa e um distúrbio psiquiátrico gravíssimo é tratado de forma casual e leve. Inclusive, sem que o espectador reflita um pouco mais a respeito dessas questões (e outras), ele sequer sai da sessão sabendo que acabou de assistir um filme sobre um cara casado que come uma prostituta, que é obsessivamente perseguida por um outro sujeito, que contrata para segui-la um detetive particular, cujo filho eventualmente vem a se envolver com a prostituta enquanto trai sua namorada psiquiatra, que por acaso é a terapeuta do sujeito obsessivo e da puta. Enfim, é uma confusão e um tal de gente comendo gente (ou tentando comer) digno de Barrados no Baile.

Owen Wilson tentando lembrar quem come quem nessa cena. Essa é a tônica do filme.

Izzy (Imogen Poots) é uma atriz de fama conquistada recentemente sendo entrevistada para uma revista, sendo essa entrevista o fio condutor da história, já que Izzy é uma sonhadora e uma otimista e conta a sua versão da história que a levou ao estrelato. Descobrimos, por meio de flashbacks que perfazem 90% do filme, que Izzy era uma prostituta (apesar de ela jamais se referir a isso como prostituição) de Nova Iorque e que um dia foi chamada para uma noite com o diretor de teatro Arnold (Owen Wilson). Arnold, casado com Delta (Kathryn Hahn), está na cidade para dirigir a montagem de uma peça que será estrelada por sua esposa e pelo famosíssimo Seth Gilbert (Rhys Ifans), com quem Delta, descobre-se, tem um passado. Arnold passa uma noite maravilhosa (e inacreditavelmente cara) com Izzy, fazendo a ela uma proposta irrecusável ao final e é a partir daí que o filme se desenvolve em uma deliciosa comédia de encontros, desencontros, coincidências e peças pregadas pelo destino.

Meu destaque aqui vai para o velho juiz Pendergast (Austin Pendleton), um cliente antigo de Izzy que desenvolve uma hilariante obsessão pela prostituta. Suas interações com o detetive particular, interpretado por George Morfogen, que ele contrata para segui-la por ai e, em especial, com Jane (Jennifer Aniston), sua terapeuta boca suja, escrotíssima e  direta, interpretada com desembaraço por uma Jennifer Aniston claramente se divertindo no papel.

We were on a break!

Essa comédia ainda conta com pontas de grandes atores e comediantes como Michael Shannon, Richard Lewis, Cybill Shepherd, Tatum O’Neal e uma participação muito especial de Quentin Tarantino ao final, sem dúvidas todos atraídos pela lenda Peter Bogdanovich.

Trata-se de uma grande homenagem a uma outra época do cinema, em que tudo era leve e colorido. Um filme divertido e inocente. Mas não vão se acostumando. Semana que vem, falaremos de Holocausto Canibal.

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