Blow-Up – Depois Daquele Beijo, primeiro filme falado em inglês de Michelangelo Antonioni, expressa arte em cada pequeno elemento. Liga ilusão e realidade. Fotografia e cinema. Uma verdadeira obra-prima cinematográfica. Acompanhamos o cotidiano de Thomas (David Hemmings), um aspirante fotógrafo de moda, com um grande apreço ao seu trabalho, mas que está cansado do mundo em que vive, cercado de futilidades, onde mulheres o perseguem a fim de serem fotografadas e se tornarem grandes modelos.

A história se desenvolve quando Thomas decide ir à um parque tirar algumas fotos e se depara com um casal. Ao vê-los, não se incomoda em invadir sua privacidade a fim de tirar belas fotografias. Um bonito cenário de um parque em Londres, o ambiente é calmo, ao som do vento e um casal em um momento de felicidade. Aquilo chama sua atenção através da câmera, que parece ser o único modo, para ele, de enxergar a beleza ao seu redor. E quando ele é interrompido pela jovem mulher que estava sendo fotografada, ele se justifica com a simples fala “alguns são toureiros, outros são políticos. Eu sou um fotógrafo.”

Esse é o seu trabalho e ele não mede esforços para fazê-lo. Isso é o que ele é. Thomas pouco se importa com o incômodo da mulher. Desde o início, percebemos que o fotógrafo enxerga a figura feminina de forma fútil, materializada. Como se fossem meros objetos de seu trabalho.

Em seguida, analisa as fotografias tiradas, em uma lindíssima cena, na qual em cada imagem Thomas desvenda uma nova foto, e em cada nova foto outro detalhe chama mais a sua atenção. E através de uma sequência de imagens, toda uma linha narrativa contando os fatos é revelada. E ali, ele percebe que pode ter testemunhado um homicídio. E aquela que seria a última fotografia de seu álbum de violências, o bonito momento retratado, que causaria o contraste, na verdade, foi o caso mais violento.

A partir desse momento, o filme passa a mostrar sua proposta principal e diversos questionamentos surgem. Aqueles borrões realmente parecem um corpo? Ou é consequência de diversos blow up (uma expressão usada para um recurso de se aumentar a imagem, mas que também quer dizer explodir) realizados na foto? Como ele não reparou esses detalhes no momento que tirou a foto?

Thomas, sozinho, pois não consegue uma justificativa coerente sobre a situação, tenta desvendar o caso. Tenta compreender, através do aspecto visual, a realidade retratada. Mas o caso pode ser considerado real? Para o fotógrafo, a noção de realidade surge a partir da imagem. É através da lente da câmera, que ele passa a entender o mundo, mas sem participar dele. Seria o homicídio paranoia da cabeça de Thomas? Aqui, a realidade existe apenas na imagem, que é, simplesmente, o que chamamos de cinema. O retrato de diversas realidades em tela – “Fotografia é verdade. Cinema é verdade vinte e quatro vezes por segundo” (Jean-Luc Godard).

A noção de realidade de Thomas vai se desconstruindo até o ponto no qual não se consegue distinguir verdade de ilusão. O filme não te mostra se a situação retratada realmente aconteceu, deixa a questionar. Mas em uma incrível conclusão lúdica, Antonioni parece deixar clara sua proposta. O fotógrafo assiste a um jogo de tênis entre mímicos, e apesar de não aceitar logo de primeira, Thomas passa a observar a bola inexistente. E o espectador passa a acompanhá-la através da câmera, também, fazendo aquilo ser tão real quanto os acontecimentos retratados pelo fotógrafo. E quando o mesmo aceita o que está vendo, passamos a ouvir as jogadas, como se aquilo passasse a ser concreto, de alguma forma. Mas no final, Thomas desaparece, se torna como a bola do jogo. Partindo desse jogo de câmera, vemos como o filme é apenas outra ilusão, vista somente através da lente.

Antonioni nos apresenta aqui um filme extremamente artístico. É a representação do que a arte nos mostra: diferentes percepções da realidade. Um filme que te tira da zona de conforto, te faz questionar. E o principal, nos propõe que o mundo visto através da câmera pode não ser o mesmo do visto com os olhos. Essa é a magia do cinema, uma ilusão de realidade, e mesmo sabendo que estamos de frente a algo fictício, artificial, ainda assim nos causa diversas emoções.

(por Nathalia Amorim)

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