Durante minha adolescência uma das minhas diversões dessas meio babacas e sem propósito era assistir filmes de terror sozinha. Funcionava como um teste: Larissa vs. Larissa. Eu já assisti a filmes bem ruins mas que enchiam listas do tipo “Os Filmes Mais Aterrorizantes Do Planeta” e similares. Tais filmes abrangiam diversos gêneros do terror: psicológico, gore, fantasioso (zumbis, monstros, afins), clássicos de possessão e alguns que misturavam polêmicas bizarrices com tudo citado anteriormente. Hoje em dia (e aqui alguns membros do site vão me sacanear porque não passou tanto tempo assim) continuo assistindo terror porém de maneira muito mais seletiva, dando mais espaço aos que perturbam o psicológico. Toda essa ladainha falando de um hábito esquisito de uns tempos atrás é pra deixar claro que não me considero uma pessoa extremamente medrosa pra esses filmes. Cenas de muito sangue no geral não me aterrorizam – é claro que CHOCAM, mas não fixam em minha cabeça até a hora de dormir. Espíritos me dão susto, mas dificilmente me tiram o sono. É no absurdo do ser humano que mora meu medo.

O filme “A Autópsia” nos proporciona boas cenas de anatomia humana, diga-se de passagem. Ambientado em um necrotério, a história não poupa o telespectador de diversos planos fechados em um corpo sendo aberto, órgãos e seus manuseios e sangue em quantidade considerável. É possível que pessoas mais sensíveis à esse tipo de imagens sintam-se enjoadas ou/e nervosas – eu confesso que fiquei um pouco.

A história é a seguinte: Tommy (Brian Cox) e seu filho, Austin (Emile Hirsch), trabalham juntos dissecando corpos e lidam na tranquilidade com essa rotina estranha (o filme inteiro eu fiquei pensando que nunca conseguiria banalizar esse trabalho). Inclusive, a namoradinha do rapaz, Emma (Ophelia Lovibond), tira esses pensamentos de minha cabeça e questiona como ele consegue. Boa reflexão mesmo.

Dentro dessa normalidade aí aparece um corpo que desafia pai e filho de determinarem a causa daquela morte específica. Obcecados pelo trabalho e determinados a conclui-lo ainda naquele dia, os dois decidem virar a madrugada no necrotério até que cheguem à conclusão. Já aí é inserido o velho elemento do terror clássico: a escolha estúpida de um ou mais personagens diante de uma situação no mínimo esquisita.

Do momento em que o corpo de “Jane Doe” (que em inglês é usado para denominar cadáveres femininos não identificados) é posto na maca até o clímax da história, há uma interessante e inevitável tensão construída. Fiquei tensa e tapava o rosto com as mãos de modo a deixar fiapos de imagem entre os dedos. Para a minha sorte a sessão estava vazia então aquela cômica cena de alguém toda encolhida na cadeira do cinema, “vendo e não vendo” o filme e semi-rangendo os dentes passou despercebida. Tudo nos encaminha para um fim de borrar as calças de tão assustador pela tensão que vai escalonando conforme as descobertas daquela história. Quanto mais perto os dois parecem chegar da explicação sobre o corpo, mais denso e profundo pisam por um caminho esotérico e arriscado. O necrotério deixa de ser um frio local de trabalho e torna-se muito mais vivo e ativo do que deveria. E o corpo passou por diversas dilacerações externas e internas que estão além da rotineira compreensão científica. Afinal, o que houve – ou há – de errado com aquela mulher?

As coisas saem do controle. Daí é ladeira abaixo de merda acontecendo…

Depois de uma sequência de cenas do tipo “escolhas estúpidas”, como descrito inicialmente, os dois percebem que é melhor salvarem a porra das suas vidas. Posta de lada a desnecessária presepada sherlock-holmiana de desvendar o mistério do corpo, pai e filho lutam pra sair do lugar e é isso até o fim do filme. Particularmente acho que o filme pecou e degringolou consideravelmente de seu meio para fim, deixando ir pelo ralo o clima tenso construído com firmeza até então. Uma vez que o “mistério” foi mastigado pelos personagens e o filme não acaba aí, rola a famigerada “encheção de linguiça” pra conclui-lo. Ficou ruinzinho.

No mais, como nosso especialista de terror de Metafictions, Ryan, comentou a respeito, o resultado é um longa honesto. Acima da qualificação “não fede nem cheira”, abaixo da “obrigatório assistir”. “A Autópsia” vem com as seguintes prerrogativas: 1)A curiosidade matou o gato (='( ); 2) Não trabalhe além do seu expediente e 3) Não aja que nem um fanfarrão diante de situações de risco.

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