“Qual a sua princesa preferida?”

“É a Bela!”

Euzinha quando criança. É e sempre será, dentre as da minha geração. Apesar de fisicamente ter sido sempre designada a “brincar de Cinderela”, era a do vestido amarelo com quem mais me identificava como menininha moleca. Pode soar extremamente pretensioso, mas eu me via na Bela por ela ser inteligente, lida e, em relação às outras princesas, menos girly – apesar de, claro, sua história acabar girando em torno de um príncipe também! “A Bela e a Fera” é um conto do século XVIII e, como tal, transmite muitos valores, expectativas e rotinas daquela época. Por conta disso, ainda que análises sobre o passado sejam necessárias sim, acredito que criticar ferozmente suas características  – por vezes sexistas, submissas, etc – é demasiado anacrônico.

O resumo da história para aqueles que vivem numa bolha é o seguinte: Bela, nome autoexplicativo, vive com o pai e, ao se deparar com ele aprisionado pela Fera, prefere tornar-se sua prisioneira no seu lugar. A Fera era antes um príncipe e por ser um babaquinha arrogante recebeu um feitiço que o transforma num lobisomão. Isso faz com que ele viva isolado do vilarejo, sozinho em seu suntuoso castelo. O feitiço só será quebrado se ele amar e for amado por alguém e Bela surge como uma possibilidade disso acontecer. Acontece que amar a Fera pode ser difícil pela sua suposta personalidade desagradável, estúpida e… mimada. Afinal, o que dizer de um cara que roda a baiana por que alguém pegou uma simples rosa no seu jardim abarrotado com diversos tipos de flor?

Fera em seu ataque de pelancas. “TIRA A MÃO DA MINHA ROSA ROSA, BICHO!”

Mas agora vamos falar do que a Disney fez aqui! Já no primeiro filme, uma animação, a personagem de Bela não é nenhuma bobinha não. Agora no de 2017, Bela (Emma Watson) é construída ainda mais independente, dona de si e irreverente. Ah… Mrs. Watson! Que papel excelente e que dialoga bem com os ideais libertários e igualitários da atriz, conhecida por discursos motivadores no que tange o feminismo e incentivo das meninas por aí. Voltando à coisa da ”princesa”, que de princesa não tem nada (“I’m not a princess!”, ela diz), é gratificante assistir o quanto Bela é indiferente à preocupação do casamento, não se importa com a solidão – mas acredita no amor e quer amar um dia -, é destemida e bota a mão na massa pra resolver os problemas que surgem. Não é a toa que é ELA que salva o pai (não uma, mas DUAS vezes) e também a Fera (Dan Stevensno final. Bela é tida como a esquisitona da cidadela porque lê muito, sonha em viajar e é inteligente – tudo fugindo muito às expectativas quando o assunto era modelo feminino. Além de, de quebra, rejeitar o “garanhão” Gaston (Luke Evans), que é na verdade o maior narcisista metrossexual que você (não) respeita. 

Gaston se gaba da capacidade de ESCARRAR: “I’m especially good at expectorating!”

Além de Gaston, no melhor tipo cômico e desprezível do metidão embalado a vácuo, temos um dos melhores personagens adorno do filme: Le Fou (Josh Gad), seu melhor amigo/mascote. Ele é uma figura cheia de piadinhas na hora certa, trejeitos bem engraçados e puxa saco do outro cara. Alguns até dizem por aí, e eu concordo, que nessa versão fica subentendida uma paixão meio obsessiva (mostrada sutilmente) da parte de Le Fou para com seu aliado. O que eu particularmente acho um toque modernoso bem interessante! O filme trata de adequar um pouco mais toda a fantasia para a geração de agora, o que é mais que bem-vindo, e isso é notado em passagens como essa e outras – sempre suaves – durante músicas e trocadilhos. Well done!

No sentido amoroso, eu, confesso que, bastante romântica que sou (ai, porra, por que…?), fiquei encantada. A premissa de que o amor transforma é conduzida com cuidado para que não se torne uma desculpa que permita mágoas serem toleradas. Eu acredito na capacidade de florescimento a partir dele e o filme dança com isso na medida em que mostra que a Fera tinha um adormecido potencial de ser gente boa. Bela o estimula a ser melhor e não recriar-se ou idealizar-se. Outra coisa que achei interessante foi a mensagem de que o amor é verdadeiro quando libertador: assim como Bela está ali pra libertá-lo de um feitiço, a criatura deve entregar liberdade à ela também. E, por conta disso, diferente da fábula original, a Fera não só permite a saída de Bela como estimula e não pede retorno. O clichê super verdadeiro de que, onde há amor, cercas não são necessárias pra impedir a saída de alguém; ela é livre pra ir e voltar. O regresso é fruto do sentimento bom que existe ali.

“Aí, Fera, vou subir nesse cavalo e vazar, falou?”, comunica Bela. “Rawrrrr!”, responde Fera.

É muitíssimo capaz que a nostalgia contida em mim com a fábula do filme tenha irremediavelmente contaminado meu parecer sobre o longa. Fui imersa em toda aquela mágica musical e aproveitei gostosamente as duas horas e pouquinho dentro da sala do cinema. Atendeu às expectativas de uma mulher com espírito de garota guardado por aqui por dentro, entreteu com tomadas musicais bem feitas (um salve especial para as de Gaston e dos objetos animados do castelo) e se adaptou bem à uma nova geração. “A Bela e a Fera” é um ode a um clássico e, como tal, triunfa como uma belíssima homenagem aos apreciadores e simpatizantes.

Chorei 4 vezes.

 

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