Caso você tenha sido abduzido por ETs ou esteja curtindo uma ressaca da sua festa de formatura ocorrida dez anos atrás, você provavelmente nunca ouviu falar de A Cabana, best-seller de William P. Young que, no Brasil, ocupa há 8 anos (!!!) a segunda posição entre os livros mais vendidos do país. A história de Mack Phillips, um homem que, após uma desgraça familiar, entra em crise de fé, questiona seus valores e é convidado a passar um fim de semana com Deus em uma cabana, acaba de ganhar sua versão cinematográfica. Nos papéis principais, Sam Worthington, como o desesperançoso Mack, e a sempre impecável Octavia Spencer, como Papa, A Cara Lá de Cima. Também no elenco a linda e brasileira Alice Braga, uma encarnação da Sabedoria nomeada – oh, que surpresa! – de …Sophia.

A produção lida com assuntos delicados e pontiagudos. Fé, família, o mal que ocorre para quem não o merece, a dualidade das crenças, tudo isso entra na pegada assumidamente cristã do longa. Ele fornece momentos de emoção e reflexão ao espectador, mas “peca” (com trocadilhos, please) na condução de alguns aspectos. A começar pelos excessos emocionais.

É impossível não experimentar, em suas 2h12min de exibição, a sensação de que a emoção do espectador está sendo manipulada. A direção se vale de uma mão cheia de estratégias para criar momentos hora de derramar lágrimas, pessoal. Seja pelas cenas apoiadas em peripécias narrativas dignas de folhetins românticos do século XIX, seja pelo excesso de closes e da fotografia pesada, tudo está lá, milimetricamente pensado para valorizar as ações das companhias produtoras de lenços de papel. Até a trilha sonora incomoda em certos momentos. A partitura de Aaron Zigman chega a lembrar, sendo cruel na comparação, o efeito mickeymousing dos desenhos animados. Sabe quando você vê um personagem descendo uma escada numa animação e a música “desce” também? Pois é…

O roteiro exagera em frases clichês, fruto, talvez, do excesso de apego à obra literária na qual se baseia. Diálogos com boa construção da tensão são, infelizmente, atravessados por frases como “A dor te rouba da alegria e da capacidade de amar” e “O amor sempre deixa marcas”.  A mensagem do filme é realmente profunda e importante, mas  momentos como esses me davam a impressão de que estava na missa de domingo. Tive medo de alguém chegar no meu ouvido e sussurrar um “posso ouvir um amém?”.

Precisamos falar de Octavia Spencer. Meu Deus, que Deus é essa mulher? Com uma personagem fácil de se embarcar em uma construção exagerada ou até mesmo risível, Dona Octavia consegue extrair profundidade, beleza e até humor. Sem dúvidas é ela o ponto alto deste A Cabana. Glória a Deus(a)! Já Sam Worthington chama atenção por motivos pouco louváveis. Ele parece encarnar o exemplo cabal de miscasting, aparentando o tempo todo ser jovem demais para o papel. A escolha de sua linha de composição do Mack soa bastante equivocada, confundindo baixar os olhos e murmurar com ser profundo e sofrido. Era difícil até de escutar o que ele dizia em algumas cenas.

No fim, o titulo do filme soou como um augúrio do produto final. Não é nenhum castelo, é uma cabana, mas vai falar com certas audiências carentes da sensação perdida de reconexão com o sagrado, base das religiões. E, se Octavia Spencer é Deus, essa missa vale, pelo menos, o ingresso e a pipoca.

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