A Chegada foi uma agradável surpresa em 2016, ano de filmes não muito inspirados no gênero ficção científica. Dentro do Metafictions, A Chegada divide opiniões, com a maioria achando um bom filme, alguns achando uma obra-prima e outros um lixo desprezível. Bem… para quem costuma ler minhas críticas e quadros sabe que eu tenho uma ligação especial com filmes que envolvam aliens de qualquer gênero… humanóides, bestiais, etc. A ideia de encontrar vida inteligente de outro planeta é fascinante e assustadora ao mesmo tempo. Só de pensar que a forma como eles entendem e enxergam o mundo pode não ser nem concebível para os humanos me deixa deslumbrado. A Chegada tenta demonstrar essa visão alienígena em suas belas 1h58min de duração.

Ao ver o trailer pela 1ª vez fui tomado pela ansiedade que tive ao ver o trailer de Sinais (2002) e Contatos de 4º Grau (2009). Foram meses esperando e lendo as críticas que saíam nos países onde o filme estreou antes. Ao entrar no cinema, na sua pré-estreia à meia noite, estava tomado por todas as lembranças e sentimentos que os filmes do gênero me proporcionaram até aquele dia. Eu e todos os aliens que cresceram comigo sentamos para assistir a essa película.

12 naves pousam ao redor do mundo, sendo uma delas nos EUA. A especialista em linguagem Louise Banks (Amy Adams) é chamada para estabelecer comunicação entre o governo e os aliens. Dentre os inúmeros problemas para estabelecer essa comunicação temos a questão do idioma e a escrita. É muito revigorante ver em filmes de contato usarem outra área do saber além da matemática e física.

Que bela formação de nuvens… daria uma grande aula.

O diretor Denis Villeneuve levanta questões muito pertinentes para o mundo atual onde tudo é visto em absolutos. O diálogo entre os diferentes seres se traduz na falta de diálogo entre os iguais. As nações onde as naves pousam, USA, Venezuela, Groenlândia (Dinamarca), Reino Unido, Serra Leoa, Sudão, Rússia, Paquistão, China, Oceano Índico (costa australiana) e Japão possuem diferenças sociais e culturais muito grandes e, em alguns casos, essas nações já entraram em conflito armado entre si. Como unificar o discurso e nossas intenções para interagir com outra espécie se nós mesmos nos vemos separados por inúmeras barreiras? Nós não somos os seres humanos, nós somos o preto, o branco, o gay, o hétero, o cristão, o mulçumano… nós somos nações e não um planeta.

O longa segue a questão da linguagem, em como ela é capaz de formular e traduzir nossos pensamentos e visão do mundo. Pode parecer descomplicado, mas a simples percepção de passagem de tempo depende da nossa capacidade de entender em forma de linguagem que o tempo passa. Formulamos nossos pensamentos com palavras e elas podem significar conceitos complexos. Algumas palavras em certos idiomas carregam significado que em outros idiomas não existem, como algumas palavras para designar tipos de gelo que os esquimós usam ou uma a qual estamos tão acostumados, saudades.

Não é um palavrão.

No entanto a palavra chave aqui é “tempo” e como a percebemos. Lendo casos de pessoas que foram criadas por animais me deparei com algo muito instigante. Aqueles que conseguiram se adaptar ao mundo (dito) civilizado só conseguiram acertar o passo no seu dia-a-dia após compreender a palavra “amanhã”. Que era possível planejar atividades para um tempo que não é o agora. O filme se apropria dessas 2 vertentes e as unifica… tempo e linguagem. Nossos amigos aliens percebem o mundo diferente por causa da forma como eles unificam essas vertentes.

Não bastando isso, Denis Villeneuve força esses conceitos muito além, entrando no campo das possibilidades. Isso é mostrado no belíssimo roteiro e edição. Só tenha em mente ao assistir ao filme que linearidade é superestimada (tanto em filmes quanto na vida).

Só algumas pequenas coisas me causaram, não diria desconforto, mas um leve sentimento de “poxa… gostaria de ter visto (mais sobre) isso”… Dentre eles, a sociedade reagindo à chegada, a questão matemática um tanto (afinal eles chegaram aqui em naves) e resolução de pequenos paradoxos do tempo que o filme apresenta.

Eu na tela do cinema ao acabar o filme.

Nos minutos finais do filme, enquanto subia a comovente trilha sonora, meus olhos se enchiam de lágrimas. Esse era o filme que o Ryan, aquele guri com medo de ser abduzido com seus 14 anos, esperava. Um filme que foge do cliché, que não é anticlimático, que me deixou pensando em como eu percebo o mundo a minha volta e nas minhas escolhas na vida. Durante todo o percurso enquanto dirigia para casa na chuva as 02h da manhã repassava em minha mente as cenas dessa experiência inesquecível e transformadora.

 

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