Os Oscars do ano passado foram cercados de muita polêmica por causa do chamado whitewashing. O que isso quer dizer é a branquificação dos personagens, consagrada por filmes como, para ficar apenas no Egito antigo, Êxodo: Deuses e Reis – que escalou Christian Bale como Moisés e Joel Edgerton como Ramsés – e Deuses do Egito – no qual Gerard Butler e Jamie Lannister, um escocês e o outro Dinamarquês, interpretam os ditos Deuses do Egito. À época, a indústria como um todo negou que isso ocorria, à exceção de gente como Tim Burton e o próprio diretor de Êxodo, Ridley Scott.

A Grande Muralha vem para escarrar fortemente na cara de todo mundo que reclamou do whitewashing ao deixar claro que isso não só efetivamente existe, como também que a indústria não poderia, ainda que tentasse, estar se fodendo mais para isso.

No filme, William (Matt Damon) e Tovar (Pedro Pascal) são mercenários europeus (apesar de um soar americano e o outro latino americano, com direito a um “papi” e o caralho) que estão há meses vagando pela China da dinastia Song na busca incessante pelo mítico “pó negro”, uma arma capaz de matar uma dúzia de homens de uma vez só, segundo nos informa Oberyn Martell logo no começo. Eles eventualmente se deparam com a Grande Muralha da China e só a percebem quando estão a uns 20 metros dela, acabando de vez com o mito de que dá para ver a Muralha do espaço.

Com Jason Bourne não tem bagunça

É partir desse momento, então, que se torna claro ser este um filme de Zhang Yimou, aclamado diretor de filmes como Herói e O Clã das Adagas Voadoras. Tudo é visualmente lindo, exuberante e colorido, trazendo um contraste imediato com o visual maltrapilho e monocromático de William e Tovar quando chegam à Muralha.

Armaduras reluzentes e em padrões extravagantes, cabelos lindos e esvoaçantes, armas e máquinas de guerra engenhosas, um soldado que lava louça enquanto usa sua armadura e percussionistas que deixam no chinelo a Timbalada e o Olodum (eles usam nunchakus!) são todos elementos comuns dos épicos de batalha chineses de Zhang Yimou. Há sempre um cuidado quase patológico com o visual, cuidado este que, sem dúvida, é evidente na tela. Tudo é realmente belíssimo e agradável ao olhar.

Três rapazes elegantes

Infelizmente, isso é praticamente tudo que o longa oferece de bom. O arremedo de história apresentada sugere que A Grande Muralha da China foi erguida porque, 20 séculos antes, uma invasão alienígena ou de seres do centro da Terra (?) teria acontecido e de 60 em 60 anos esses seres surgem novamente para atacar a humanidade, servindo a Muralha como o único bastião a proteger o império chinês. Não se explica, por exemplo, como que os bichos eram mantidos à baia enquanto a Muralha era construída (ela demorou 1.700 anos para ser terminada), ou porque os monstrengos simplesmente não vão para o outro lado do mapa ao invés de ir direto para a Muralha. Tampouco se explica porque a garbosa e riquíssima Ordem que toma conta da Muralha não tenta aniquilar os invasores nesses 60 anos em que nada acontece, ainda mais em se considerando o poderio bélico e o domínio da pólvora por parte deles.

Ora, segundo sugere o roteiro, o que faltava para eles finalmente resolverem essa parada eram dois homens brancos, sendo um deles o Jason Bourne medieval. Muito embora os chineses tenham um senso para moda e tecnologias muito superiores, Jason (ou William) descobre, em 2 dias, aquilo que os chineses não haviam descoberto em 20 séculos, consagrando aqui o whitewashing e a catarrada da indústria na sua cara, que fica ainda mais evidente no previsível final. A rigor, o fato de William e Tovar não serem chineses não traz absolutamente nada à história. Eles estão ali só porque essa produção sino-americana precisava de pelo menos um grande nome do cinema americano para justificar o orçamento de 150 milhões de dólares e talvez não fracassar retumbantemente no mercado americano. Não foi suficiente, contudo, e o filme, apesar de ter sido sucesso absoluto na China, não fez nem 1/3 do seu custo de produção nos EUA.

Tentou-se aqui fazer um novo épico de guerra nos moldes de Herói. O que se conseguiu foi um esmero técnico-visual que possivelmente rivalize com o de Herói, mas a serviço de um roteiro bobo, com poucas batalhas, e de atuações burocráticas. O único momento em que o filme realmente brilha é na primeira batalha, cujo escopo é uma mistura de Guerra Mundial Z e a a batalha do Abismo de Helm do Senhor dos Anéis.

Apesar disso tudo, o filme é, sim, divertido e, caso o espectador não tenha qualquer expectativa além de, no ar condicionado, encher o rabo de pipoca e coca cola de máquina, vale o ingresso. São 100 minutos de chineses muito bem vestidos, de Matt Damon interpretando um cruzamento medieval de Jason Bourne com Gavião Arqueiro e de Oberyn Martell sendo usado quase que exclusivamente como alívio cômico e ostentando uma barbinha por fazer safada que nem o mais hipster dos hipsters teria conseguido cultivar naquela circunstância.

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