Em 2008, ao lançar o primeiro “Homem de Ferro”, a Marvel, que é hoje propriedade da Disney, começava o seu Marvel Cinematic Universe. A Warner, por sua vez, dona dos direitos dos personagens da DC Comics, resolveu iniciar o seu DC Extended Universe com “O Homem de Aço” em 2013 (e só agora percebo a ironia de que ambos os filmes têm basicamente o mesmo título).

Foi então que a Universal desceu para o play do Edifício Roleúde e viu seus amiguinhos Disney e Warner se divertindo horrores fazendo bilhões mundo afora, mesmo com títulos deploráveis como “Thor” e “Esquadrão Suicida”. Tomada por aquela gostosa e saudosa invejinha infantil, a Universal então fez beicinho, bateu o pé e se desesperou. Depois de tanto soluçar e ver que de nada adiantava, ela foi olhar dentro de seu baú de brinquedos velhos e teve a epifania que dá vida a este filme:

“E se eu pegasse os meus famosos Universal Monsters e fizesse um universo todinho meu?”

A resposta a isso é o Dark Universe, povoado desta vez por Drácula, Frankenstein, a Múmia e os mais diversos monstros que foram filmados exaustivamente pela própria Universal desde a década de 20 e que habitam indelevelmente o imaginário popular de gerações.

Apesar de derivativa e nada original, a premissa, sob um ponto de vista puramente de entretenimento, é excelente e uma puta jogada comercial. Ocorre que, se esse A Múmia é indicação de alguma coisa, de Dark esse Universe nada tem. O que se vê durante a 1h50min de exibição é Tom Cruise fazendo o que faz de melhor: correr. Ele corre para um lado, dás umas bolacha num malandro, corre para outro canto, toma uns sopapo de um zumbi e o filme vai nessa pegada até o seu final, quando então o espectador percebe que a múmia do título é só uma desculpa para mais uma história de ação e aventura rasa e esquecível.

E isto ocorre por causa do caos que é o roteiro. Escrito a nada mais nada menos que 12 mãos – os três sujeitos da ficha acima e mais três outros indivíduos cujos nomes não estão ali porque não ia caber – não é de se espantar que a história seja uma bagunça. Tom Cruise interpreta Nick Morton, um sargento-batedor do exército americano no Iraque que aproveita a guerra para tentar roubar antiguidades e relíquias para vender no mercado negro. Ele, inadvertidamente, encontra uma tumba egípcia a mais de 1.500 km do Egito.

Isto chama a atenção de Jenny (a peça firme Annabelle Wallis), uma arqueóloga (acho eu) que Nick (é claro) comera alguns dias antes. Ela e Nick mandam e desmandam na porra toda, muito embora ele não seja oficial e ela nem militar, e finalmente conseguem desenterrar Ahmanet (Sofia Boutella), uma princesa egípcia praticante de bondage e que havia sido apagada da história justamente por ser a namoradinha do capeta (ou, no caso, Set).

Após uma sucessão de clichês sem fim, o surgimento de uma organização comandada pelo Dr. Jekyll (Russell Crowe) – que só não é chamada de S.H.I.E.L.D. por razões legais – e da Múmia mais sensual desde Jéssica Lopes, percebe-se que o temos aqui é basicamente um filme de origem de super herói, onde um sujeito egocêntrico encontra a redenção pela força do amor e abre o leque de possibilidades para os próximos filmes desse “universo”.

O problema é que as motivações são confusas, as relações forçadas e a própria condução da história se torna enfadonha. O que se salva no filme é o elenco, que conta com o Tom Cruise fazendo seu papel de sempre de homem mais carismático do mundo, Russel Crowe atuando de forma econômica, mas acertada, na pele de Dr. Jekyll (sim, é o alter ego de Mr. Hyde) e Jake Johnson, o sósia de Oscar Isaac, na pele do sidekick engraçaralho de Tom Cruise.

Fica-se ao final com aquele gosto de que o filme tinha um potencial enorme, mas a ambição do estúdio em medir pau com a Marvel e com a Warner foi tão grande que o levou a pasteurizar uma obra que, ainda que se comprometesse a ficar longe do macabro e sanguinolento, poderia pelo menos ter sido tão divertida quanto aquele “A Múmia” de 1999. Mas qualquer tentativa de identidade aqui é perdida, seja pelas mãos dos 6 roteiristas, seja pela direção burocrática de Alex Kurtzman, veteraníssimo produtor, quase que estreante como diretor, o que deixa ainda mais claro ser este, de fato, um filme total e infelizmente conduzido pelo estúdio.

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