Certas sensações são inesquecíveis. A primeira punheta, onde você acha que quebrou a genitália ou a primeira ereção, no meu caso com a Xuxa (eu sei,triste) por exemplo, te perseguem pelo resto da vida, não importa a idade em que tenham ocorrido.

Um de meus momentos memoráveis enquanto infante, foi o dia que assisti meu primeiro filme do Studio Ghibli. Minha mãe chegou do trabalho com um DVD estranho, não disse onde tinha comprado, quem tinha indicado, simplesmente me disse “ toma”. O pequeno Thotti não era o maior fã de animações japonesas ou animes. Fora criado a base do velho e brilhante Cartoon Network. O estranhamento com aquela capa onde uma menina com traços nipônicos , camisa listrada , um dragão branco ao lado e o título “A Viagem de Chihiro” gerou quase que em mesma proporção estranhamento e curiosidade no pequeno Thotti.

Do segundo em que o reprodutor de DVD começou a funcionar até os créditos, minha versão 1.0 sentiu que a casa havia caído.

“A Viagem de Chihiro” foi o Cidadão Kane da minha vida. O deslumbramento que senti com tanta criatividade, emoção e, mais que tudo, com o jeito com que o filme, apesar de ser um “filme para criança”, não me tratava como um debilóide mudou para sempre minha vida. Em tudo que faço, almejo reproduzir nos outros a minha face enquanto via pela primeira vez Yubaba, Kamaji ou o macabro fantasma sem rosto.

Mas isso infelizmente não é um nostalgia ou indicação de  Chihiro, talvez um dia esse post chegue. A questão é, independentemente do filme, se fosse do Studio Ghibli, eu me sentia exatamente como me senti naquela tarde enquanto dividia pipoca com minha irmã. “Princesa Mononoke”, “Meu Vizinho Totoro”, “Serviço de Entregas da Ki-ki”, “Túmulo dos Vagalumes”… todos eles me emocionaram de diferentes formas, mas em igual proporção.

O último longa de Hayao Miyazaki (diretor de Chihiro) foi o sensacional “Vidas ao Vento”, em 2014. Após tal película, essa persona, que é uma das maiores referências que tenho no mundo cinematográfico, anunciou aposentadoria. Studio Ghibli, sem seu mestre e fundador também anunciou “recesso”após o belo “As memórias de Marnie”, também de 2014.

Quando assisti pela primeira vez o trailer de “A Tartaruga Vermelha”, no começo de 2016, quase pulei da carteira escolar que estava. Mesmo que fosse apenas uma co-produção, sabia que voltaria a sentir a sensação Ghibli.

Aqui estou, quase um ano e meio depois, em que tanta coisa mudou.

“A Tartaruga Vermelha” não tem o peso de Chihiro, a mensagem de um “Princesa Mononoke” ou a fofura de “Meu amigo Totoro”. Não tem Miyazaki ou Isau Takahata na direção. Entretanto, sobra sensibilidade, delicadeza e sensação Ghibli na produção franco-belga- japonesa.

Do seu inicio, no naufrágio de um homem desconhecido numa ilha deserta, até o seu final, A Tartaruga Vermelha é uma ode a tudo que o estúdio de Miyazaki representa. Os movimentos, cenários e trilha sonora foram capazes de me comover sem esforço e, mais do que isso, sem palavras, já que o filme é mudo. Apesar de não ser tão imaginativo, a obra compensa com beleza em todas as cenas.

Com uma premissa simples: um náufrago numa ilha deserta que encontra uma tartaruga vermelha. A animação de 1h e 20 minutos entrega um maravilhoso conto sobre como encaramos o mundo, a natureza e a idade batendo na porta. Com um surrealismo pungente, cores que faziam meus olhos lacrimejarem e uma delicadeza em cada gesto de seus personagens, sejam eles humanos ou simples caranguejos, “A Tartaruga Vermelha” deve ter feito Miyazaki orgulhoso, estando, inclusive, concorrendo ao Oscar de animação este ano.

Dessa vez não houve pipoca dividida com minha irmã, não havia a surpresa de não saber do que o filme se tratava ou dragões brancos. Mas o resultado foi o mesmo, um ser humano com um sorriso de ponta a ponta que mais parecia o pequeno Thotti em seu eterno deslumbramento para com tudo, em contraste com o atual e meio moribundo Thotti.  Independentemente do que aconteça, permaneço com a certeza: enquanto o Studio Ghibli lançar filmes, sejam eles co-produções ou obras de seu mestre Hayao Miyazaki (que cogita deixar a aposentadoria), serei feliz por pelos menos alguns pequenos, todavia eternos momentos.

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