Pegue tudo que você sabe sobre Ghost in the Shell e jogue fora, pois, caso você entre no cinema carregando contigo esse conhecimento, sua experiência será atroz. Juro que tentarei ao máximo escrever sobre o filme como se não fosse uma adaptação desse clássico japonês. Até porque, caso o fizesse, a resenha não passaria de uma sucessão de palavrões e indagações.

O longa começa mostrando a confecção do corpo da Major (Scarlett Johansson), um corpo robótico com cérebro humano, o 1º do seu tipo. Projeto liderado pela Doutora Ouelet (Juliette Binoche). Logo após essa introdução, pulamos 1 ano no tempo para a história central do filme, a caça de um hacker que está invadindo a mente de pessoas proeminentes e/ou as matando.

Vale ressaltar que nesse futuro as pessoas vivem com implantes cibernéticos muito mais por vontade do que necessidade. Temos membros e órgãos todos aprimorados e, o mais importante, cérebros conectados à rede. Tive a sensação de estar assistindo a uma tentativa de adaptação de elementos de Deus-Ex Mankind Divided, franquia de jogos de videogame produzidos pelos estúdios Ion Storm e Eidos Interactive a partir do ano 2000. Segue abaixo um curta feito para promover o jogo mais recente e que dá uma ideia do que se trata.

Enquanto a trama se desenrola na busca desse cybercriminoso e de seus motivos para cometer tais atos, vários elementos que dão suporte ao enredo vão se despedaçando à sua frente. Diálogos mal encaixados, personagens fora de contexto e cenas de ação sem sentido tomam a maior parte do filme. Dando a impressão que, para justificar o nome da obra, era necessário reproduzir cenas icônicas do anime.

Fãs do clássico japonês sentirão falta dos diálogos indagando o que é ser humano ou questionamentos sobre a sua própria humanidade. Em alguns momentos do longa uma frase ganha importância e é repetida algumas vezes, que é a negação da premissa do anime. Colocarei aqui a versão do anime (removidas do quadro Assista! pelo editor chefe ao achar que dei spoilers demais) “… a vida confia nos genes para agirem como sistema de memória. Assim o Homem é um indivíduo apenas pela sua memória. Uma memória não pode ser definida, mas define a Humanidade.” Apenas esse trecho apresenta mais profundidade do que todo o filme que vi hoje.

Uau, Fields, que bonito! Se tivesse dutos lacrimais eu chorava.

Scarlett Johansson… pessoas mais chegadas sabem que eu tenho problemas com as suas performances, tanto que o papel que mais gostei dela até hoje foi em HER, no qual ela faz a voz de uma inteligência artificial sem presença física. Sei que boa parte é implicância minha, de fato ela é uma atriz decente, mas sempre que alguém é superestimado eu tendo a ver de forma pior do que realmente é. Dito isso, sua atuação como Major é razoável, não entregando toda a frieza e questionamentos que esperamos de sua personagem, mas convencendo nas cenas de ação.

Em termos de atuação o destaque fica para Pilou Asbæk (Batou), o parceiro de Major, que possui grande presença nas cenas de ação e um visual muito fiel ao original. Creio que poderia dizer o mesmo de nosso antagonista, Kuze (Michael Pitt), que apesar de pouco tempo de tela, sempre possui uma carga emocional grande e “defeitos físicos” que causam angústia.

A tentativa estética mais original e que deu certo do longa.

Percebeu que até agora todos os atores mencionados não são japoneses? Temos dois americanos, um francês e um dinamarquês. Um whitewashing descarado de um clássico oriental, como se já não bastasse profanar a Muralha da China com um chileno e dois americanos. Ao que parece no filme, a 1ª língua do cidadão japonês é o inglês, inclusive quando você está sozinho em casa.

Mas nem tudo está perdido, meus amigos. Takeshi Kitano (Aramaki) está no longa como o chefe do departamento (Seção 9) dos nossos amigos caucasianos. Um chefe fodão que fala em japonês e foda-se. Dando a entender ou que todos falam japonês fluente e deliberadamente falam inglês para nosso entendimento ou que todos possuem um tradutor integrado ao cérebro. De grande notoriedade são suas cenas de ação, protagonizando um tiroteio digno de filmes B japoneses. Esse parágrafo foi patrocinado pelo nosso editor, Gustavo, o viril, que exigiu que ele fosse mencionado em toda a sua grandeza, caso ele queira fazer uma nota explicando a adoração ao ator, be my guest.

Obrigado Gustavo, o pequeno gafanhoto.

A Vigilante do Amanhã é um filme que aponta para uma direção, mas chega a outra. A trama é rasa, mal conduzida e o final não apresenta resolução para os questionamentos levantados. Apenas se apoiando levemente na produção do anime, especialmente nas cenas de ação, o longa, ao tentar algo novo, falha miseravelmente. Infelizmente nem mesmo o visual/fotografia, que nos trailers pareciam fiéis à versão japonesa, impressionam.

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