Tentando se afastar dos clichês de filmes biográficos, Davies realiza uma orquestração magistral da vida de Emily Dickinson. A decisão de não se concentrar em um enredo no sentido estrito, mas sim nos intrincados sentimentos que inspiraram e perturbaram uma das maiores poetas de todos os tempos, foi acertada e denota a extrema sensibilidade do diretor.

O filme é composto de uma série de cenas bem definidas que, captando a introversão e o senso de reclusão de Dickinson, vão se desenrolando em espaços cada vez mais confinados à medida que a narrativa avança. Os diálogos, provavelmente os melhores do ano, vão do extremamente afiado ao profundamente tocante, contendo uma verve esplêndida, mas também uma perspicaz análise da consciência humana, especialmente considerando o embate entre a culpa cristã e a liberdade individual (um tema central na filmografia de Davies).

Cynthia Nixon é nada menos que visceral interpretando Emily Dickinson, o que mais uma vez denota o talento preciso de Davies na escolha de suas protagonistas femininas (vide Gillian Anderson em A Essência da Paixão, Rachel Weisz em Amor Profundo e Agyness Deyn em A Canção do Pôr do Sol). Nixon é particularmente sublime nas cenas que demonstram a intensificação da doença da poeta: são sequências duras de assistir, mas que provam o imenso talento da atriz.

Mesmo que a utilização de alguns dos versos mais famosos e impactantes de Dickinson seja um tanto convencional, gostei bastante da decisão do roteiro de não mostrar um momento específico de composição, preferindo se concentrar nas emoções que levaram àquelas obras de arte inesquecíveis. Um filme bastante triste, mas também inspirador.

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