Um dos mais importantes poetas da história do Brasil, Ferreira Gullar, em seu revolucionário “Poema Sujo”, de 1975, afirmava em um de seus mais famigerados versos haver “muitas noites na noite”.

De maneira semelhante, Tom Ford, em seu segundo trabalho cinematográfico, faz um filme dentro de muitos filmes.

Animais Noturnos abre com uma esplendorosa e chocante cena. Dali para frente o que se vê é um show de fogos de artifício, um mais deslumbrante que o outro. Ford abusa de seu senso estético apurado, com ambientes marcantes, figurinos memoráveis e um uso de cor poucas vezes visto. Nas três histórias que compõe o filme a estética sempre é o ponto forte.

A narrativa apresenta uma mulher frustrada, imersa num mundo de prazeres fúteis e cada vez mais esporádicos, essa é Susan interpretada pela gelada Amy Adams que dá vida à personagem sem nenhum exagero ou dramaticidade exacerbada. Ela tem tudo e ao mesmo tempo não tem nada. Rica, mas sem ter o que consumir, casada, mas com um marido previsivelmente vazio. Ela realiza exposições de arte que nem mesmo gosta. Presa nesse marasmo, o fantasma de seu ex marido bate à porta, num manuscrito dedicado a ela.

Nisso pulamos para a história do livro, que compartilha o mesmo nome do filme. Nela, um pai de família viaja à noite com sua mulher e sua filha no oeste do Texas. Entretanto as coisas não dão muito certo para ele, que termina por se encontrar na mão de marginais no meio do deserto americano.

Junto ao presente de Susan e à narrativa do livro, temos flashbacks do passado entre ela e seu ex marido, o escritor. Uma relação frustrada que ainda causa mal estar em ambos.

O pai de família e o escritor são interpretados por Jake Gyllenhaal que rouba a cena mais uma vez, em um dos melhores papéis de sua carreira.

A trama flerta com impotência, fraqueza, melancolia, destino, família e felicidade. Mas se entrega de corpo e alma ao clichê da vingança. Por trás  de toda purpurina, glitter e serpentina, tanto visual quanto narrativa, se esconde uma trama simples. Para um filme de câmera e estilo pretensioso ao extremo, com influencias Kubrickianas, Cohenianas e Hitchcockianas, é muito pouco.

Apesar disso, para muitos a parte visual pode ser um prato cheio, cada cenário, obra de arte, figurino é trabalhado com esmero e tem em si um simbolismo próprio. Ford tem incontestável talento para a coisa, com planos belíssimos e um suspense apurado. Além de extrair de seus atores o melhor. Destaque para Aaron Taylor-Johnson, irreconhecível no papel do maior vilão da narrativa do livro. Sem dúvida o melhor papel de sua carreira. A atuação é tão soberba que vem lhe rendendo prêmios como o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante em filme dramático.

Resta torcer que da próxima vez o estilista diretor escolha um texto compatível com a profundidade de seu show visual. Aí sim teremos uma obra prima.

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