Samantha Kingston (Zoey Deutch) está presa em 12 de fevereiro. Por uma semana, inexplicavelmente, todos os dias são o mesmo dia. Samantha Kingston nos conta, logo na primeira cena deste Antes que Eu Vá, que nós temos todos os segundos do mundo para desperdiçar. Ela não. Doze de fevereiro é o último dia da vida de Samantha Kingston. Você já viu este plot dos dias que se repetem antes (brilhantemente) em Feitiço do Tempo (1993). Você já viu o mesmo artifício (nem tão brilhantemente) em Efeito Borboleta (2004). Parece que não é apenas o dia que anda igual, não é mesmo?

Em sua Retórica, Aristóteles diz que todo discurso eficiente se sustenta em três pilares: ethos, logos e pathos. Peço licença ao velho grego para usar sua teoria na análise dessa produção que mira na alta filosofia, mas acerta na filosofia High School Musical no boteco.

O Ethos aponta para a figura do orador. Qual é a sua visão de mundo? Que ética permeia o seu olhar? No cinema, o diretor é o responsável por criar o universo. Chegamos ao primeiro tropeço da produção. Ry Russo-Young opta por uma direção preguiçosa, que escolhe o fácil, o clichê. É uma sucessão de closes para simular profundidade psicológica, a música que entra exatamente quando se espera sua entrada. Além de inúmeros equívocos técnicos, a direção impõe um gigantesco iceberg conceitual: o filme quer ser moralista. Ele se afirma dessa forma. Em seus 98 minutos, é impossível não experimentar a sensação de que o diretor concebeu a sua obra como uma pregação voltada a adolescentes, que deseja mostrar a eles que devemos ser bons para a vida valer a pena. O cinema já fez isso várias vezes. O problema é que Russo-Young não é Frank Capra.

Logos diz respeito ao discurso em si, à palavra. No caso da sétima arte, ele repousa diretamente no roteiro. No caso de Antes que Eu Vá, as palavras não ajudaram muito. O romance no qual ele se baseia, escrito por Lauren Oliver, foi, à época de seu lançamento, até elogiado como um olhar interessante na literatura voltada à adolescentes. Sua transposição para a tela, no entanto, pelas mãos de Maria Maggenti, seguiu o caminho do raso. Em um escorrer de lugares-comuns, fica a sensação de que a roteirista quis fazer um mix de problemas da adolescência atual: popularidade, sexo, suicídio, amizades, família, o pacote completo está ali. No entanto, nenhum desses aspectos é discutido com profundidade ou soa crível. As personagens parecem caricaturas, lá estão a “menina-popular-malvada”, as “amigas da menina popular malvada”, a “esquisita – Carrie – suicida”, o “gato-atleta-cabeça oca” e a nossa protagonista, a “mocinha que descobre o que realmente tem valor nessa vida”. Não deu certo mesmo.

Pathos gerou a palavra paixão em português. É a sensibilidade do discurso, o sangue, o quanto ele consegue mexer com a plateia. Atores são a respiração de um longa, eles devem nos seduzir. Outra derrapada. Em defesa do elenco, é necessário dizer que não havia muito o que fazer com o material que receberam no script. As atuações são bem difíceis de assistir. A protagonista ainda tenta em alguns momentos fornecer nuances maiores à Samantha, mas falha. Foi constrangedora a cena em que ela abraça a irmã e chora… não havia lágrimas. Se aquele foi o melhor take, Deus permita que eu nunca veja os que deram errado. Se o elenco faz o filme respirar, a fotografia é a sua pele, ela esquenta ou esfria uma tela. Sabe luz de hospital? Pronto, esta é a definição da fotografia aqui.

Em defesa deste Antes que Eu Vá, ficam duas possibilidades de futuro: ele vai ficar bem na Sessão da Tarde ou na Netflix, na categoria filmes-para-ver-enquanto-corto-as unhas.

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