Bud (David Pendleton) está sentado. Seu rosto é sulcado, seco, com feridas e pústulas cobrindo seu corpo todo. O cabelo é ralo e sua respiração é intermitente. A imagem que vem primeiro à mente de qualquer espectador é a de que se trata da exaustivamente explorada visão de um zumbi. Mas não. Bud apenas está nos estágios finais de uma doença avassaladora e desconhecida, o que, no mundo criado pelo diretor e roteirista Trey Edward Shults, quer dizer que ele será carregado para fora da casa onde mora com sua família, morto com um misericordioso tiro na cabeça e incinerado para prevenir qualquer contágio.

Aqui já está um dos acertos do roteiro de Shults. Em momento algum há algum noticiário explicando o que aconteceu ou aparece algum iluminado com todas as informações pertinentes ao contágio. Nós, espectadores, sabemos tanto quanto os protagonistas desta história e qualquer informação que nos é passada sobre esse cenário pós apocalíptico é feita de forma incidental, de modo a induzir o espectador a deduzir o que aconteceu e sem tratá-lo como idiota. E é bom que seja assim, já que a catástrofe, em si, está longe de ser o tema nodal do longa.

Sarah (Carmen Ejogo), filha de Bud, é casada com Paul (Joel Edgerton), com quem tem um filho, Travis (Kelvin Harrison Jr.). A família vive em uma grande casa afastada de qualquer centro urbano, no meio de uma floresta em algum lugar ignorado dos Estados Unidos. Paul é um pai e marido disposto a ir até onde for necessário para proteger sua família não apenas da tal doença desconhecida, mas do mundo em geral, criando para tanto diversos mecanismos de proteção daqueles que ama. 

Estes mecanismos, contudo, não contavam com a necessidade humana de socializar e com a aparição inesperada de Will (Christopher Abbott), o que eventualmente acaba por fazer com que outra família – mais jovem e com uma criança de 5 anos – vá morar com eles.

Não há nada aqui de muito elaborado ou floreado. Shults se vale de um roteiro convencionalmente excelente e de um elenco bem azeitado para apresentar uma narrativa que fala de sobrevivência e da culpa que inevitavelmente recai sobre aqueles que restam. Valendo-se desses dois elementos, o diretor apresenta um filme surpreendentemente seguro, considerando que este é apenas seu segundo longa metragem e o primeiro com orçamento maior que os 10 mil dólares de seu primeiro filme, Krisha.

A porta para o desconhecido.

Ao Cair da Noite não é um filme de terror como seu marketing sugere, umas um thriller excelente, comandado por um jovem diretor com ares de veterano. Trey Edwards Shults entrega um filme deliberadamente lento, no qual não acontece tanta coisa, mas que, ao mesmo tempo, apresenta tensão em níveis quase insuportáveis, demonstrando assim a marca de um cineasta que, apesar de novato, domina a linguagem cinematográfica como poucos.

 

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