Para escrever esse artigo sou obrigado a cometer um certo sacrilégio. Abro minha mais profundo e escura gaveta, retiro entre garras do Wolverine, máscaras do Batman e vasos gregos, a Bíblia. Abro-a sem um terço da cerimônia que costumava ter. Hoje, para mim, é apenas mais um best-seller de ficção, com pitadas de sci-fi, terror, ação e muita, muita pornografia. Deslizo meus dedos pela dedicatória de minha mãe, os inúmeros parágrafos de introdução, até que chego a primeira página, narrativa da criação:

“No princípio, Deus criou o céu a terra. A terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. Deus disse ‘Faça-se a luz’. E a luz foi feita”.

Caro leitor, você não imagina o conforto que eu costumava extrair dessas sílabas, tão mofadas e manjadas. A simples ideia de um ser, lá do alto, capaz de criar onde nada havia, interceder dando origem à luz, sempre me foi muito reconfortante. Hoje, é um simples ópio cujo sabor evaporou.

Todavia, nem tudo são chamas, nem tudo é deserto. Na arte achei meu mais novo e profundo conforto, e, vez ou outra, seja na literatura, música, cinema ou videogame esbarro com algo tão sacro e profundo quanto o velho livro. Tarkovsky, Tolstói, Bach e Zelda são os maiores e mais obtusos exemplos. Dessa maneira venho falar de uma das minhas mais recentes experiências místicas, A Árvore da Vida de Terrence Malick, na semana seguinte à estreia de sua mais nova película, De Canção em Canção, já resenhada aqui no MetaFictions.

“Pelo menos há esperança para a árvore: Se for cortada ainda se renovará, e não cessarão os seus renovos. Se envelhecer na terra a sua raiz, e morrer o seu tronco no pé, ao cheiro das águas brotará e dará ramos como a planta.” Jó 14:7-9

Odiado por muitos, exaltado por outros, o filme sofreu uma das maiores injustiças do nosso tempo. A injustiça, repito aqui, jaz em chamar essa obra de arte meramente de filme. A Árvore da Vida por mais que seja conduzida por uma narrativa sobre um pai (Brad Pitt) e um filho (Sean Penn, já na fase adulta) no interior do Texas, não é sobre isso. Não é uma história sobre memórias ou perda. A obra é uma montagem impressionista, permeada por dialética e religiosidade até seus confins.

Terrence Mallick passou décadas desenvolvendo essa profunda reminiscência do mundo das ideias. Entre a criação do universo, infância e perda, temos vislumbres de uma filosofia densa, que vai nos levando até o rio do esquecimento e apresentando duas margens: natureza e graça.

Com as imagens de répteis colossais, matando e conquistando a partir do instinto, o diretor nos apresenta a natureza em seu estado mais profundo e puro. O eu acima dos outros, a sobrevivência e autopreservação. Nos retratos de uma família, na humanidade de uma mãe interpretada por Jessica Chastain, Malick nos apresenta a graça, preocupação perene com os outros seres, solidariedade e necessidade de devolver, caminho do criador.

Esse ying e yang bíblicos colidem por todo filme, na violência do pai, no amor da mãe, na frieza dos répteis, no amparo da natureza, eles vão se manifestando e se entrelaçando até formar uma enorme árvore da vida, onde cada um de nós somos galhos, destinados a oscilar entre o irascível e o sagrado. Simbolismo e esoterismo escorrem por todas as cenas, sejam elas no Texas ou na criação do planeta.

“Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito.” Êxodo 32.32

Com uma filosofia pungente, imagens de tirar o fôlego e uma trilha sonora que faz jus à Bach, Malick é capaz de construir uma das grandes obras do nosso tempo. Obrigatório, sagrado e eterno, A Árvore da Vida sumariza a dicotomia de Adão e Eva.

Todavia, antes dos religiosos da sabedoria explícita em seus livros, Terrence mostra o caminho de Deus como a graça, aquele que se doa e busca dar, sem esperar retribuições. Olhando nosso mundo hoje, se essa força criadora de fato existe, ela mesmo se viu obrigada a autopreservação, destinando suas criaturas a um império de dúvida e hesitação. Ele não parece ter se doado pelo Oriente Médio, África ou Paquistão. Partindo do pressuposto que Ele existe, não teria até mesmo Ele se ausentado, desistido de se doar por nós? Pior, se até mesmo Deus é capaz de cair no instinto, o que poderia ser inabalável? O que poderia ser eternamente recheado e maculado pela graça?

Se Malick não respondeu com sua enigmática obra, faço um esforço do alto de minha soberba e com um sorriso no rosto e com o pecado do orgulho digito:

Arte.

Guardo a bíblia e abro o DVD, minha árvore da vida.

“Todos vamos morrer. E é isso que nos torna pessoas de sorte. Existe uma imensa maioria que nunca vai morrer, pois nunca vai nascer. As pessoas em potencial que poderiam estar no meu lugar, mas que nunca verão a luz do dia, superam em número os grãos de areia do Saara. Entre esses fantasmas com certeza há poetas superiores a Keats. E cientistas superiores a Newton. Disso sabemos porque o conjunto de pessoas possíveis que nosso DNA permite supera maciçamente o número de pessoas que existe. A despeito dessa probabilidade chocante, somos você e eu, em toda nossa banalidade… …que aqui estamos.” Richard Dawkins

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