Foi cambaleante e nauseabundo que eu saí da sala de cinema quando, ainda em 2013, tentava me recompor do soco na cara que é a experiência de se assistir ao filme do Assista! de hoje, A Caça. Esta produção dinamarquesa dirigida e escrita por Thomas Vinterberg tem esse exato efeito a quem a assiste. E, mesmo que o soco seja bem colocado e doa eternamente, como soe acontecer com toda a boa arte, é inevitável a quem a experimenta querer novamente sentir sua meninge balançando com o impacto.

Vinterberg é, junto com sua contraparte mais famosa Lars von Trier, criador e um dos principais expoentes do movimento Dogma 95 que se espalhou pelo mundo. A ideia do movimento era estabelecer normas e regras que permitissem ao Cinema enquanto forma de arte voltar novamente sua atenção aos seus valores artísticos, em detrimento do puramente estético que tomava conta das salas de exibição mundo afora naquela época. O manifesto deste movimento previa 10 regras que visavam devolver aos cineastas o controle artístico de suas obras, incluindo uma regra que determinava que o diretor não deveria ser creditado, posto que o importante era a obra.

E somente com um compromisso inexpugnável com sua obra e sua arte é que um diretor consegue produzir um filme como A Caça, já que este aborda um tema tão horrível quanto é polêmico.

A Caça é um filme que nos ensina sobre a natureza humana de uma forma desagradável e ao mesmo tempo inegável. É a arte, enquanto veículo de comunicação das angústias de uma pessoa e, por consequência, de uma geração, em sua forma mais pura. E, muito embora Mads Mikkelsen seja a força por trás desse filme em uma interpretação irretocável, é talvez a atuação da menina Annika Wedderkopp quem traz a melhor analogia de mundo ao se analisar o próprio enredo do filme.

O longa começa com uma cena em que Lucas (Mikkelsen) está com alguns amigos em uma espécie de retiro que acontece todo ano. Amigos de longa data se juntam anualmente em alguma floresta idílica no interior da Dinamarca para beber, falar merda e praticar a tal caça do título. Todos são homens de seus 40 anos e agora já discutem sobre seus filhos e o futuro.

Vemos então Lucas voltando para sua vida cotidiana de professor de jardim de infância que, bizarramente, não é viado e tampouco esquisitão. Aqui já se estabelece uma relação entre Lucas e a sociedade que não espera que um homem trabalhe com crianças e, se o faz, logicamente é porque há algo de errado com ele. Ele é estabelecido como um professor amado pelos alunos, atencioso e carinhoso com todas as crianças, sendo alvo do afeto especial de Klara (Annika Wedderkopp) que, além da relação que mantém com Lucas na escola, é também filha de seu melhor amigo, de modo que convive com o professor quase que diariamente em seu tempo livre. 

Um certo dia, Lucas, sem qualquer prova que não o testemunho de um ser humaninho de 6 anos de idade, é acusado de abusar sexualmente de uma criança da escolinha e então, previsivelmente, sua vida se transforma no inferno na Terra. Aqui jaz o grande acerto do roteiro e próprio dos filmes de Vinterberg e dos cineastas do Dogma 95. Não há mistério. Ao espectador não é dada qualquer margem para suspense ou dúvida sobre se Lucas fez aquilo ou não. É sabido, desde o início, que Lucas jamais abusou de qualquer criança, permitindo que a obra se sustente exclusivamente nos três pilares fundamentais que devem guiar qualquer obra cinematográfica: direção (aqui incluída a atuação), roteiro e montagem.

Desta forma, o principal ponto e crítica que faz o filme se torna ainda mais forte e evidente. Estamos, enquanto sociedade, tão preocupados em preservar o nosso futuro e em sermos politicamente corretos, que muitas vezes esquecemos do quanto isso pode prejudicar o presente e quem nele vive.

No filme, assim como na vida real, os pais e a sociedade como um todo (e no filme até mesmo a vítima de tudo isso, Lucas), santificam e endeusam as crianças como seres especiais, portadores de uma inocência que já nos foi perdida há tempos e que, por causa dessa carência idiota daquilo que se perdeu, faz com que esqueçamos que crianças são, antes de qualquer coisa, seres humanos. E, como tal, são falíveis e, principalmente, mentem. E mentem pelas mesmas razões que os adultos.

Aí jaz o brilhantismo de Annika como Klara e o quanto ela incorpora a metaficção perfeita para se entender a obra, uma vez que sua interpretação nos prova inexoravelmente que crianças são apenas versões menores e mais fofas de nós, e que podem ser tão escrotas e execráveis como qualquer adulto, mas com um agravante: a quase total ausência de preceitos morais e éticos. A performance de Annika é tão significativa e paradigmática porque grita ao espectador (aquele que está ouvindo de verdade) que a inocência infantil não a impede de mentir, seja porque está chateada, seja porque está interpretando.

Este é um filme irrepreensível. Todos os aspectos de sua produção são absolutamente perfeitos, sem grandes invencionices ou pretensões de chocar. Roteiro simples e amarrado, diálogos naturais, direção absolutamente magistral e interpretações tão verossímeis que a impressão é a de que aquilo poderia acontecer com qualquer um de nós a qualquer momento, sendo essa a grande lição trazida pela obra. As consequências de nossas ações e, principalmente, de nossas omissões ecoarão pela eternidade de nossas vidas.

Neste que é, na minha opinião, o melhor e mais arrebatador filme produzido nos últimos dez anos pelo menos, digno de receber a inédita claquete de ouro caso estreasse agora, ficamos também com uma das poucas verdades que podem ser consideradas absolutas neste universo.

Não há na natureza força maior do que a de uma mulher melindrada e rejeitada.

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