“A melhor razão pra você respeitar rigorosa e sensatamente o distanciamento social é não me colocar a mim, médico, no desagradável papel de ter que escolher se conecto o último respirador disponível à sua mãe ou ao seu vizinho. Se precisar escolher, eu sei escolher, eu escolho e você não será nem consultado. Portanto, fique comportadinho em casa e, pelo menos, não nos atrapalhe.”

Esta citação não é minha. É de um médico infectologista, professor doutor da USP, que está nas trincheiras desta Terceira Guerra Mundial que explodiu no planeta, na qual o inimigo não tem rosto, não tem causa, não tem pátria. A escolha a que ele se refere é uma típica ¨escolha de Sofia”, termo que se consagrou por definir escolhas que temos que fazer sem escolha. Algo como o ditado que nos ocorre quando estamos numa bifurcação de dois caminhos desastrosos: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

A frase do Professor Doutor contém uma densidade realista tamanha sobre escolhas que me levou a fuçar o baú de meus DVDs e encontrar o que fui impulsionado a rever. Um perfeito exemplar do bom Cinema, dramático ao extremo, difícil de assistir, impossível de esquecer.

Trata-se de A Escolha de Sofia, dirigido e roteirizado por Alan J. Pakula, a partir do romance de William Styron, cujo título foi absorvido pela cultura popular como a  tradução mais perfeita de decidir sobre algo sofrido, cruel e desumano. O filme é estrelado por Meryl Streep, que já acenava ao mundo como uma das maiores atrizes de todos os tempos. Foi seu primeiro Oscar de atriz, entre os 3 que ganhou, em 9 indicações. Um recorde a se reverenciar de joelhos.

Em 1947, um jovem aspirante a escritor, de nome Stingo (Peter MacNicol), vai morar no Brooklyn, na casa de Yetta Zimmermann (Rita Karin). Lá conhece Sofia Zawistowska (Meryl Streep), sua vizinha. Sofia é polonesa, ex-prisioneira de um campo de concentração nazista e namora Nathan Landau (Kevin Kline), um carismático judeu de temperamento difícil. Stingo aos poucos vai descobrindo que Nathan é doidão e, mais ainda, que Sofia tem uma história a ser pesquisada, que a traumatizou pelo resto da vida, uma escolha inominável que lhe marcou a alma a ferro em brasa. Um passado eternamente presente em sua vida.

É possível que alguém o sinta como um filme longo. Mas os dramas mais intensos não se medem pela duração e sim, pelo seu poder de chapar, com razões e emoções, o espectador na poltrona. A cena da escolha em si é de se tirar cardíacos da sala. Não recomendada a pessoas de sensibilidade à flor da pele. É tão violenta psicologicamente – perto dela, Tarantino é filme da Disney – que a própria Meryl Streep não aguentou um segundo take. Foi tudo de primeira.

Pais e mães que vivem a plenitude da missão mais nobre da vida, que é amar, criar e cuidar de seus rebentos, oferecendo a eles ninhos aconchegantes e asas próprias vida afora, entenderão o sentimento. Talvez até chamem um médico. Eu, por exemplo, revi de teimoso. E reconheci um recorrente fantasma dos meus pesadelos, de braços dados com as culpas que nos atazanam.

Sei que este site é de Cinema, puro Cinema, adorável Cinema. Mas o momento exige que se tome uma modesta resenha de um grande filme como um clamor por uma reflexão. A escolha de Sofia que o médico Professor Doutor é obrigado a fazer diariamente é o símbolo do porquê só temos uma única escolha nesta guerra tão inesperada quanto absurda: ficar em casa. Não se expor na rua a abraços, apertos de mão, aglomerações de perdigotos. Para simplesmente não fazer do sistema de saúde em colapso o cenário de escolhas trágicas e finais infelizes. Fique em casa, siga a ciência. Mais que uma auto proteção, mais que um respeito ao próximo, pode ser o recomeço de uma vida. De milhões de vidas.

O Cinema ficcional e a realidade sempre inspiram perceber que a dor do outro pode ser nossa. Sofia Sawistowska e o Professor Doutor da USP que o digam.

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