Durante alguns anos estive em relacionamentos abusivos. Apesar de não ser algo que grito aos quatro cantos – seja por vergonha, seja por falta de jeito – é um assunto que tento internamente ‘destabutizar’ para que, a partir da minha experiência, outras pessoas identifiquem a coisa e também se sintam confortadas. O motivo dessa constatação pessoal é para estabelecer que, por ter passado por tais, acho necessário e interessante a inserção da temática no Cinema. Por isso, vivo a observar a construção dessa problemática em filmes.

Em A Escolha de Sofia isso é feito magistralmente. A personagem de Meryl Streep, Sofia, é uma mulher fragilizada pela vida que “escolhe” estar ao lado de Nathan (Kevin Kline) apesar das consequências tóxicas da relação. Mas eu pergunto: isso é, de fato, uma escolha? Será que não deve ser posto em cheque o histórico de alguém que se submete a essa predileção? Será que essa não é a única opção que a pessoa vê, tomada pela dinâmica dominativa da coisa toda? A história começa a nos abrir caminhos pra entender Sofia. E entender, principalmente, que escolhas ela pôde – ou não – fazer em sua vida.

Nathan e Sofia.

Entender Sofia, no entanto, não é uma tarefa fácil. Encontro-me, o filme inteiro, dividida entre a revolta e a empatia; entre o questionamento e a aceitação. Vejo a confusa imagem de uma mulher que é frágil, submissa e doce mas que, ao mesmo tempo, tem uma verdadeira fortaleza dentro de si. Além de abordar a delicada situação a dois na vida dela o filme traz outras densas reflexões. Sofia foi marcada pelo holocausto e sobreviveu à Auschwitz, e homeopaticamente revela em sua narrativa os fantasmas que ainda a visitam. Eu acredito que o peso que escolhas trazem e suas, muitas vezes, consequências irremediáveis, instauram em Sofia uma incapacidade de traçar seu próprio caminho. Sua história nos mostra que diante do trauma da escolha mais difícil de sua vida, Sofia abre mão de quaisquer outras mais.

A Escolha de Sofia é um dos filmes que mais emociona minha mãe e que, apesar de sua densidade e tristeza, toca o coração de mulheres e espreme o coração daquelas que são mães. O ápice dessa identificação se dá em uma das cenas finais do filme, de cujos detalhes pouparei para aqueles que nunca assistiram. Derramamos lágrimas e assustadoramente sentimos na pele a tristeza diante de uma cruel escolha.

O olhar triste e sincero de Meryl Streep enquanto nos mostra feridas ainda em aberto. A atriz ganhou seu segundo Oscar pelo papel de Sofia.

O interessante do filme é que, a princípio, seu título pode deixar o espectador esperando pelo desencadear da tal escolha. A olhos rápidos, essa escolha parece que se dará no âmbito amoroso: Sofia teria de escolher entre Nathan, o homem que a “salvou” e por quem tem incondicional dedicação – mas que também é agressivo e paranoico -, e Stingo (Peter MacNicol), jovem escritor vizinho dos dois. Seguindo essa linha, a suposta escolha nos parece óbvia; afinal, por que ela optaria por continuar com um homem que alterna entre tratá-la como rainha e como, segundo ele mesmo, uma prostituta polaca? Então começamos a recapitular o seguinte: depois de tantas barbáries, aquela é a menor e mais tolerável para a mulher. Sofia tem traumas que adormecem enquanto dedica sua vida a Nathan – ela define nele sua razão de viver, muito por não ter mais nenhuma. E, apesar de isso soar absurdo, somos carregados durante o filme para entender precisamente a lógica deste pensamento.

“A Escolha de Sofia” fala de relacionamento mas, brilhantemente, não se limita a isso. Sofia não é definida por sua relação com Nathan, apesar desta ocupar grande importância em sua vida. Ela é e sempre será mãe. E nada durante todo o filme machuca tanto quanto as cenas em que Meryl Streep brilha os olhos e desespera-se diante do sofrimento de seus filhos. Minha mãe, e acredito que muitas, ficam com aperto no peito e, ao final do filme, abraçam seus filhos na primeira oportunidade que tiverem. A partilha da maternidade que o filme traz é visceral.

Sofia e sua pequena. “A Escolha de Sofia” é, na verdade, pluralizado: quantas foram as escolhas experienciadas por ela?

Portanto, nesse dia das mães, é às mães – em especial à minha e à Dona Ana Carolina – que dedico esse artigo e esse filme, que dialoga tanto com nós, mulheres, mas principalmente com vocês, mães. Por escolhas que tenham feito em sua carreira; por escolhas que tenham feito por seus filhos; por escolhas que, na verdade, não foram escolhas – foram a única solução. Pelo fragmento, ainda que mínimo, de “Sofia” que muitas carregam consigo – afinal, a maternidade também constrói fortalezas internas. Minha eterna admiração pelas tantas mães, em suas mais profundas diversidades, partilhando o denominador comum do desafio e do amor genuíno e em muito difícil de explicar.

 

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