As tábuas pregadas contra o vidro fosco da janela.  Semblantes desesperados, olhos apreensivos, lábios rachados e pupilas piscando como se fossem fogos de artifício. Do lado de fora os murmúrios, passadas lentas, de quem possui a eternidade. Quantas vezes já vimos essa mesma cena?

A mortalidade intriga o ser humano, a imortalidade assombra, a junção das duas aterroriza. Para constatar isso basta sintonizar a televisão, aventurar-se ao cinema ou simplesmente ligar o videogame. Num misto de fascinação e verossimilhança, o entretenimento de zumbi se tornou nossa febre, mal da época, criatura símbolo. Tal qual os vampiros, melancólicos, sedutores e imortais reinavam na era da romântica decadência, e os centauros, faunos e minotauros na Grécia antiga, permeada pela conjunção entre o mundano e o platônico, os mortos vivos são nosso espelho retorcido.

A escolha é fruto da mecanização, uniformização, materialização, impostos repletos de juros e ãos do progresso. A modernidade estilhaçou os sentimentos, esmagou o olho no olho e colocou o Snapchat no óculos, Instagram roçando os dedos e a mensagem ainda não recebida no zap zap pulsando solitária no cérebro.  Experimente tirar o celular de um jovem, ele vai espernear, gritar, fraquejar, barganhar, gritar um pouco mais e jamais ceder. É mais fácil deixar a geração ovomaltino sem comida do que sem seus smartphones ultra mega x exus d 23 querosne y, sou prova viva e testemunha disso, todos os dias. Às vezes na sala de aula olho para o lado e me sinto numa casa de ópio chinesa, todavia os chineses possuem menos espinhas e o ópio é tão mais charmoso que as telas de retina!

Tudo isso para chegar aqui, nesse parágrafo cujo vocábulos adio em rabiscar. Porque esta noite, 17/07/2017 rabisco com pesar.  Bram Stoker, Mary Shelley, algum grego com nome terminado em a ócles (que a humanidade infelizmente nunca conhecerá), hoje George A. Romero se junta a vocês (reparem todos os demais são escritores, apenas Romero é filho da sétima arte). Toda criatura precisa de um criador, um engenheiro, para tecer suas capacidades, polir suas características e tolher seu desespero. Foi isso que o cineasta ianque fez em “A Noite dos Mortos-Vivos”, quase como um Victor Frankenstein pós-moderno, com sua câmera de tanta luz e tanta sombra deu asas ao monstro dos novos séculos.

Gosto de pensar que ainda na sala de edição, ao ver pela primeira vez sua película, Romero tenha tirado seus simpáticos e robustos óculos e clamado: “Contemplem o morto-vivo moderno”.

Infelizmente para minha imaginação e felizmente para seus colegas, George Romero provavelmente possuía o tal do “bom senso”.

Sua provável falta de teatralidade ou espafatolhasidade não lhe retira um miligrama de crédito comigo. Porque é humanamente impossível – seja você cinéfilo, fã de Transformers ou mendigo do skate – não se deliciar com a obra de 1968.

De premissa tão seca quanto a pele de seus mortos vivos, a película narra a luta pela sobrevivência de 7 indivíduos. Sendo Ben (Duane Jones), o principal deles. O protagonista é negro, o que confere a tudo um traço ainda mais inflamado de presente e urgente (naquele tempo a discussão sobre direitos civis estampava as manchetes ianques). Além de ter que conviver com os filhos do inferno, é obrigado a aguentar as picuinhas do velhaco Harry e sua esposa Helen, insanidade da patricinha Barbara, caipiragem de Tom e Judy e por fim uma criança no leito de morte.  Os 7 estão reprimidos numa casa e medicam a ansiedade com doses sistemáticas de rádio e TV.

“As coisas mais bonitas do mundo são sombras.” Charles Dickens

Se os personagens dão corpo a trama, o que a faz indispensável até os dias de hoje é sua intrínseca subversão. Do protagonista negro, até a dependência pelos meios de comunicação, Romero não tem medo de mergulhar num profundo oceano de preocupações e fazer a mais intoxicante e taciturna de todas as questões: “Até que ponto vale a pena sobreviver?”.

Com coquetéis molotov, facadas e apunhaladas, os personagens de A Noite dos Mortos-Vivos nos levam de volta à máxima do mestre/gênio Nietzsche: “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”

Se não bastasse as questões filosóficas, em sua obra, contemporânea de “2001: Uma Odisseia no Espaço”, o diretor inaugura um novo gênero, tão aclamado e repetido hoje em dia: o apocalipse zumbi. No seu senso de urgência e perdição, o filme encarcera nossas pupilas na claustrofóbica casa, sem ter para onde correr, sem ter onde se esconder. Maldita pandemia!

Nada disso seria lembrando se a película não se sustentasse na linguagem do Cinema. Gravado com um orçamento de 114 mil dólares (em nível de comparação um mísero episódio de The Walking Dead custa 1,3 milhões de Trumps), uma equipe pequena consegue construir uma obra atemporal e tecnicamente primorosa. Com planos agoniantes, closes no momento certo e cenas memoráveis como a abertura e o final, A Noite dos Mortos-Vivos é para enquadrar e pregar na parede.

Quantos mortos-vivos há entre nós? Não zumbis, mas pessoas mortas por dentro.

Hoje, apocalipse zumbi é sinônimo de piegas. Os mortos-vivos de 1968 dificilmente assustam os que já viram zumbis velozes, furiosos, em chamas, com molho barbecue, curry, empanados e queimando no palito. Mesmo com toda essa saturação, as fagulhas de originalidade e o brio do melhor e mais clássico filme de Romero são imperdíveis. Hoje, mais do que nunca, precisamos celebrar este homem nascido do Bronx, primeiro porque ele merece, segundo porque nós necessitamos desesperadamente de um espelho mais provocador que “Meu Namorado é um Zumbi” ou “O asiático vai demorar quantos episódios para morrer?”

Mesmo que tenha perdido um pouco de sua capacidade de nos refletir A Noite dos Mortos-Vivos foi e ainda é capaz de inspirar uma nova geração de cineastas e artistas a dar um uso mais profundo e digno às criaturas reinventadas por Romero. Além de ensinar a fazer cinema de entretenimento denso, cheio de terror, subversão e desconstrução.

Que você descanse em paz com suas criaturas.

Por fim, resta o indispensável e melancólico “obrigado, George A. Romero”, a tensão, reflexão e admiração que suas obras me proporcionaram permanecem, assim como a  torcida para que, no cantinho do apocalipse, sua versão morta-viva estraçalhe meu pálido recipiente e murmure: “contemplem o morto-vivo moderno. Ahhhh… cérebro”.

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