Aproveitando a semana na qual estréia o mais novo filme de M. Night Shyamalan (Fragmentado, nesta quinta-feira, especificamente; com resenha de minha autoria), decidimos indicar neste quadro Assista! aquela que é, na minha opinião, a grande obra-prima do diretor: A Vila. Aliás, o filme é tão digno de indicação que, no ano passado, eu o exibi, seguido de debate, aos alunos de uma das escolas onde trabalho como professor de História. Sim, o filme é para isso mesmo.

O ano era 2004 e – de acordo com a própria contagem do Night, que parece deixar de lado seus dois primeiros títulos, antecessores ao O Sexto Sentido – seu quarto filme era lançado. Lembro-me de alguns amigos terem visto no cinema antes de mim e voltarem com as melhores críticas possíveis. Uns, ainda, alertavam para a possível falta de entendimento quanto à conclusão da obra, visto que alguns de seus conhecidos não pareciam ter entendido completamente o que o diretor quis passar. Um tanto quanto inseguro pela possibilidade de “não entender o filme por completo” (se é que isso, de fato, existe; na minha opinião, são leituras diferentes e essa é graça da coisa toda), entrei, sozinho, no deveras diminuto (sem pleonasmos mesmo, o lugar era quase do tamanho de um banheiro) cinema do Paço Imperial, no Rio de Janeiro. Lá pude me entregar àquele conjunto de cenas que me arrebataria da cadeira.

Shyamalan e Adrien Brody no set de A Vila

Em 1897, um pequeno grupo mora numa vila isolada e tranquila, onde todos vivem em perfeita harmonia. Rodeada por bosques, ninguém ousa sair dali, pela constante ameaça de criaturas misteriosas, chamadas por eles de “Aquelas de Quem Não Falamos”, com quem vivem em uma trégua, respeitando um o espaço do outro. O limite é o início da floresta, lugar reservado para estes seres. A comunidade é autogerida, com regras debatidas em um Conselho de Anciãos. Além da proibição supracitada, não se pode manter a cor vermelha naquele ambiente, sob pena de atrair os entes perigosos.

“Não os deixe entrar”

Começamos o filme em uma cena de perda, em que um dos líderes, choroso, reflete sobre o local, questionando que momentos como aquele os fazem pensar se aquilo é realmente válido. Em seguida, tentando superar o episódio, os habitantes retornam aos seus afazeres cotidianos. Varrer, trabalhar com madeira, plantar, se reunir em conselho: todas as coisas que levam ao auto sustento da comunidade. Shyamalan, nesse início, nos apresenta cada detalhe importante para a história que estamos acompanhando. O filme é uma aula de Cinema, no que tange um roteiro enxuto e perfeitamente lapidado, mostrando-nos que absolutamente nada ali é à toa; sendo tudo um componente essencial da narração.

Da mesma forma, precisos são os personagens: Lucius Hunt (Joaquin Phoenix, atuando sempre de maneira excelente) é um jovem corajoso e introspectivo, detentor do recorde de uma brincadeira bastante juvenil: ficar por mais tempo no limite aceito entre os territórios; Ivy Walker (delicadamente interpretada por Bryce Dallas Howard), uma dócil jovem pura e cega, apaixonada por Lucius, que é muito tímido para demonstrar de volta que sente o mesmo; Noah Percy (atuado no tom exato por Adrien Brody), um jovem louco que, por vezes, não respeita as proibições do Conselho porque sua mente o impede de entender o sentido pleno das coisas. Esse conjunto de personagens traz todos os elementos para fazer desse conto algo de uma profundidade invejável.

Ivy e a Vila

Após algumas invasões das criaturas à Vila, a trégua parece estar fragilizada. O motivo pode ser que Noah tenha desrespeitado o acordo. O medo passa a ser constante entre os moradores, que vigiam a fronteira, assegurando a proteção do grupo. Os castigos a Noah nunca são suficientes, pois ele pensa diferente. Louco, mentalmente desfiado, o que seja, ele não tem a mesma estrutura de pensamento dos demais, ele não se encaixa nos padrões, ele não tem a mesma moralidade e perspectiva da Vila, ele é um excluído daquele modelo social. Tudo piora quando seus sentimentos por Ivy são machucados pelo anúncio público de que ela e Lucius vão se casar (o bravo jovem consegue enfrentar a si mesmo e expor seu amor à bela dama). Eis que, então, Noah realiza o primeiro ato selvagem da História daquela região: um proposital ataque à vida de um conterrâneo. O homem louco esfaqueia Lucius, manchando sua mão trêmula e nociva com o vermelho-carmesim proibido naquelas terras de paz.

Lucius, temem os moradores, não sobreviverá aos ferimentos, devido ao escasso recurso médico disponível no conjunto. Apenas as cidades, para além do território inimigo, podem prover as necessidades do jovem desacordado. Então, tão corajosa quanto seu par, Ivy requere ao Conselho sua ida às cidades, tentando salvar o amado com os remédios que poderá trazer. Aquela que não vê conhecerá os escondidos territórios, fora dos limites permitidos à sua sociedade. E é exatamente nesse ponto que tudo apresentado por Shyamalan até aqui passa a fazer sentido pleno. É nesse instante que entendemos as escolhas de Night na construção de seus personagens, na apresentação das cenas, na forma como decide filmar cada plano. É nesse momento que mergulhamos fundo na profundidade inalcançável de sua fábula.

Lucius e Ivy

Os famosos flashbacks da história se concluem e entendemos o porquê de tudo aquilo. Entendemos os conflitos de cada personagem; seus gestos e opiniões. Aceitamos seus medos e aflições; seus sonhos e desilusões. Concordamos com suas verdades e mentiras. Caminhamos com a cega, em território inóspito, em meio a criaturas rudes; tememos como ela – este sentimento nos foi provocado, foi colocado dentro de cada um de nós. Já não somos mais espectadores, mas um outro habitante daquele vilarejo tão acolhedor. Precisamos viver com a esperança de que ela atravessará as dificuldades do áspero caminho. Mas porque…?

A cega e seus medos

A resposta é a mais óbvia: porque somos Ivy; somos os cegos, vivendo com um constante medo de criaturas que nos espreitam, rugindo ao nosso derredor como leões, aguardando o momento do ataque; somos cada um daqueles que vivem de acordo com o contrato social, andando na linha demarcada, sem pisar fora para não sermos castigados; somos Lucius Hunt, tentando viver nossa vida de acordo com nossos sentimentos, ainda que tentemos escondê-los ao máximo dos outros; somos a vontade de viver em uma sociedade perfeita, na qual podemos nos sentir seguros e acolhidos, muito embora haja sempre a ameaça da loucura perto de nós. Caminhamos como a cega, em território inóspito, em meio a criaturas rudes; porque temos a esperança de que aquela Vila, a nossa Vila, existe, de fato, em algum lugar.

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