Antes de ficar mais conhecido por bater em mulher e escrotizar judeu, Mel Gibson era uma espécie de Midas hollywoodiano. Para se ter uma ideia, ele tem em seu currículo Martin Riggs, o “tira” porra louca da milionária série Máquina Mortífera, e é o Mad Max da franquia original iniciada em 1979 com um punhado de dólares australianos por George Miller. Ainda assim, ele é mais conhecido por ter vivido William Wallace, no épico Coração Valente, um filme tão bom quanto é historicamente impreciso, tanto é que já se tornou um dos clássicos indiscutíveis do cinema.

Temos aqui então um ator que viveu, entre outros tipos excelentes, não só um, mas três dos mais emblemáticos personagens do cinema ocidental. Mesmo assim, Mel Gibson não se deu por satisfeito e se lançou como diretor, ganhando um Oscar de melhor direção logo no seu segundo filme, o já referido Coração Valente, que também levou o Oscar de melhor filme naquele ano.

Pata de Jaguar, Papai Pata de Jaguar, Adriano Gabiru e Gala Rala

Depois disso, Mel ficou 9 anos sem dirigir nada e, quando o fez, ele veio completamente alucinado e despirocado, lançando dois filmes cuja própria existência é inacreditável, tamanhas são as quebras de paradigma e peculiaridades de ambos.

O primeiro, A Paixão de Cristo, é possivelmente a maior porrada que um filme produzido em Hollywood já deu na cara do público. Muito embora tenha sido extremamente polêmico e seja falado em Aramaico, Latim e Hebraico, o filme foi um sucesso de bilheteria, dodecuplicando o seu orçamento. Tenho certeza, inclusive, que o nosso cineasta residente, Renê Vettori, em algum momento vai falar alguma coisa a respeito desse filme (e se ele não o fizer, faço eu).

Tava tudo bem até aparecer o sujeito da foto abaixo…

O sucesso permitiu que Mel, dois anos depois, lançasse esse Apocalypto que, se não é tão polêmico quanto A Paixão de Cristo, é igualmente inacessível para as plateias mundiais e em especial à americana. Trata-se de um filme todo falado em Maia, sem nenhum ator conhecido e EXTREMAMENTE violento. Mesmo assim, o filme faturou mais que 3 vezes o seu orçamento inicial nas bilheterias e foi indicado à vários Oscar, apesar de não ter ganhado nenhum.

A história é bem simples: Pata de Jaguar (Rudy Youngblood) é um caçador de uma inocente tribo de uma floresta no que, acredito eu, é a Península de Yucatán no México. Ele, sua família e seus amigos passam seus dias caçando, zoando o amigo gala rala que não consegue engravidar a esposa, rindo do esculacho diário que esse sujeito toma de sua sogra e ouvindo histórias dos mitos e lendas de sua cultura à noite. 

Caso vocês não tenham se ligado, sim, esse malandro aí é o vilão.

Este clima de cachimbo da paz é brutalmente (e eu nunca usei essa palavra mais apropriadamente do que agora) interrompido quando a tribo é atacada por um grupo de guerreiros que vieram não somente para pilhar e estuprar, mas, principalmente, para capturar pessoas, inclusive nosso protagonista. Pata de Jaguar, então, tenta a todo custo escapar para voltar aos braços de sua mulher grávida e seu filho de 4 anos que ele havia escondido em uma cisterna primitiva perto de sua aldeia. Bem simples e direto, não?

Corre, Pata de Jaguar!

Não há nada de simples no subtexto do que está querendo ser passado e tampouco nas cenas absolutamente brilhantes filmadas por Gibson. Em um determinado momento, sob o risco de dar um pequeno spoiler, Pata de Jaguar chega à grande metrópole Maia da região naquela que é sem dúvida a sequência mais desagradavelmente sufocante filmada nos últimos tempos, com destaque para a atuação delirante de dois sujeitos que, com uma troca de olhares, fazem uma ode ao conhecimento científico daquela civilização.

Apesar das dolorosas inconsistências históricas comuns a todos os filmes históricos dos quais Mel Gibson participou, Apocalypto é um filme brilhante, frenético e destruidor, com uma mensagem dúbia de salvação que talvez você pegue, talvez não e que pouco importa. O deleite trazido por suas cenas de ação e, em especial, por sua cinematografia generosa e realista são razões mais do que suficientes para assistir a este filme, mesmo que você, assim como eu, esteja alheio à qualquer discussão religiosa que a presença de Mel Gibson parece obrigatoriamente incitar em qualquer obra sua.

Fodeu!

A verdade é que Gibson, independente de sua orientação religiosa ou de suas atitudes reprováveis (ou não), é um puta de um cineasta, que consegue ser autoral mesmo em um ambiente pasteurizado como é Hollywood e faz filmes que absolutamente ninguém mais seria maluco de fazer, seja pela coragem com a qual encara a narrativa que quer transpor para a tela, seja pelas liberdades criminosas tomadas com a História, que permitem coisas como kilts na Escócia de antes de existir kilts, ou varíola na América Pré Colombiana, muito antes dos conquistadores europeus terem trazido o vírus.

Seja como for, o amor e vocação de Gibson pelo que faz são nítidos na tela. E nós só temos a agradecer por isso.

Sugestões para você: