Falar sobre Blade Runner é falar sobre a recepção de Blade Runner. Desde seu lançamento em 1982, o filme já foi interpretado de diferentes maneiras, o que atesta o caráter denso e múltiplo dessa que é provavelmente a principal obra de ficção científica da história do Cinema (sorry, 2001).

Primeiramente, há de se entender o suposto lugar de Blade Runner no cânone cinematográfico. Quando lançado, o filme teve uma baixíssima bilheteria e críticas mornas – resultado bastante decepcionante considerando que Ridley Scott vinha do sucesso de “Alien – O Oitavo Passageiro” e Harrison Ford era a estrela mais popular da época (Han Solo! Indiana Jones!). Posteriormente o filme adquiriu sobrevida com o crescimento do mercado de home video ao final dos anos 80 e início dos 90, criando um público de aficionados. Com o lançamento da versão do diretor em 1992, um público ainda maior descobriu a obra, que passou inevitavelmente ao status de “filme cult”.

Com o passar dos anos, um sem número de videoclipes, HQs e outros filmes se inspiravam em Blade Runner não só no aspecto visual, mas também em suas temáticas provocadoras com relação à desumanização do indivíduo e o alvorecer da pós-humanidade. Começavam a falar em “clássico do cinema”. Em 2007, Blade Runner entra definitivamente para o cânone cinematográfico devido a dois acontecimentos ilustres: primeiramente, Ridley Scott lança a aguardada “versão final”, apresentando sua visão definitiva; e em segundo lugar, o American Film Institute inclui a obra entre os 100 melhores filmes americanos de todos os tempos.

Mesmo assim, ainda hoje Blade Runner não é um filme extremamente popular. Ainda que tenha um público fiel e apaixonado, ele não se aproxima do número de um “Matrix” (para ficar no exemplo de outra obra de ficção científica influente). Os primeiros ávidos defensores do filme foram acadêmicos, que viram nele diversos aspectos sociais, biológicos e econômicos que tematizavam o mundo contemporâneo. A obra, desde logo após o seu lançamento, foi abraçada especialmente por teóricos marxistas que a usaram como exemplo da estética e da lógica pós-moderna.

Isso não quer dizer que o filme seja hermético ou pouco acessível. Em um primeiro nível, Blade Runner é uma história policial, onde temos um detetive em busca de criminosos. O contexto é futurista (Los Angeles de 2019) e os criminosos são andróides, mas isso não tira o foco do paradigma indiciário que estrutura o enredo detetivesco.

Em um segundo nível, porém, serve como perfeita tradução das temáticas de Philip K. Dick, autor do romance Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Do Androids Dream of Electric Sheep?), do qual o roteiro de Blade Runner foi adaptado. Os romances de Dick, de forma geral, problematizam a natureza da realidade, desconstruindo noções de humanidade e molduras sociais que servem de porto seguro para os indivíduos. Que o filme lide com todas essas questões a partir da recontextualização do neo-noir (gênero fundado pela busca de certezas) para o território da ficção científica, é um golpe de mestre.

Em termos técnicos, o filme é de um perfeccionismo impressionante, mas dois nomes se destacam: o diretor de fotografia Jordan Cronenweth, que traduziu com lirismo o preciosismo visual de Ridley Scott; e Syd Mead, o consultor especial sobre futurismo, responsável em grande parte por idealizar o universo urbano da Los Angeles do século 21 que deu origem a várias imitações.

Poderia ainda falar sobre a irrepreensível trilha de Vangelis, a visceral interpretação de Rutger Hauer, o incrivelmente criativo figurino, as inúmeras referências literárias e religiosas… Porém, acredito que a melhor forma de apreciar Blade Runner é apertar o play e se deixar admirar por uma atmosfera única, até hoje incomparável na história do Cinema.

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