Quem vos escreve, caro leitor, é um Professor Doutor em Química Inorgânica de 37 anos que foi empaticamente introduzido para dentro da vida do inesquecível professor Walter White (Bryan Cranston), personagem principal, alma, guia, criatura paradoxal e acima de tudo, epíteto de uma transformação máxima experimentada por um ser humano.

Minhas identificações com a personagem de Walter são inumeráveis. Talvez o ponto máximo de afetividade que tive com esta personagem foi devido ao fato de ambos sermos professores de química. E acredito que o primeiro momento de Walter White em sala de aula com seus alunos mostra a essência da série em forma de aula de química. Walter diz para seus alunos que a Química é a ciência da Transformação, da mudança, do movimento; elétrons que saem de níveis de energia mais baixos para mais altos, moléculas que se desfazem e outras que se formam, fluxos de energias que nunca são estáticos. A química é a ciência da transformação, e é justamente este o leitmotiv, o tema recorrente, de toda a série.

Em termos científicos e naturais, as transformações são isentas de valores morais como boas ou más; elétrons, prótons e nêutrons não estão em julgamento como nós humanos. Se alguém ingerir cianeto de alguma forma, este indivíduo morrerá mesmo se for a melhor pessoa do mundo, pois sua morte é oriunda da formação de novas moléculas em nosso organismo que irão decompor suas relações intrínsecas de movimento e repouso. A pessoa morrerá, mas a natureza em si não experimenta perda, pois a partir da morte de uma pessoa, um novo mundo microcósmico se forma diante de nós. “Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, já dizia Antoine Lavoisier.

Eis o que quero dizer: a série Breaking Bad nos fala de uma transformação que nem sempre será isenta de dor e sofrimento, porém ela é absolutamente necessária. E o que vemos acontecer com o tímido professor Walter é uma baita transformação! De professor de química de uma high school americana, ganhando pouco, sendo caçoado por alunos ricos que não mostram por ele o mínimo respeito, descobrindo um câncer praticamente incurável que o matará em pouco tempo, com problemas em casa com uma esposa grávida e um filho com deficiência, para um traficante de drogas esperto e temido, rico, batendo de frente com assassinos cruéis e manipulando pessoas de maneira estrondosa e sempre dando a volta em todos. “O senhor White é o próprio Diabo”, diz assustado o cômico e dramático personagem de Jesse Pinkman (Aaron Paul), aluno e companheiro de Walter durante as cinco temporadas da série.

Walter White, um homem de meia idade e doente, à beira da morte, frustrado profissionalmente, vê diante de si uma chance de transformar sua vida e a de seus familiares por meio do lucrativo tráfico de drogas. Uma pergunta ao caro leitor: se estivessem na posição do professor White, vocês pegariam o caminho que ele tomou? Ou esperariam a morte chegar, deixando seus familiares sozinhos e sem dinheiro? Creio que a escolha de Walter não foi pelo dinheiro em si, embora este tenha sido o catalisador; a escolha de Walter foi pela Vida, sua Vida. Walter queria viver seus últimos momentos no limite, como um bom corredor que aumenta de velocidade ao se aproximar mais e mais da linha de chegada. Foi preciso esperar até o último capítulo da série para sua esposa Skyler (Anna Gunnlhe dizer, após tudo ter se perdido no caminho, para ele não voltar a dizer jamais que ele, Walter, havia feito tudo aquilo pela família deles, afinal ele havia perdido a família neste caminho percorrido. A isto Walter responde: “Não, eu fiz tudo o que fiz porque eu gostava”.

Neste momento, caros leitores, esbocei um enorme sorriso na face, pois sempre soube que esta era sua real motivação. Walter queria viver! E viver não tem nada a ver com esgueirar-se, conservar-se, acomodar-se, lamentar-se e esperar a morte chegar várias e várias vezes! A Vida é um fluxo de intensidades cheias de riscos, cobertas de Som e de Fúria! Shakespeare dizia que um covarde morre muitas vezes em vida, mas o homem corajoso morre apenas uma. Walter White já tinha morrido muitas vezes em vida, mas ele decidiu morrer apenas mais uma única vez, a morte real e derradeira. No fim, o câncer não o matou, mas, sim, um tiro. Breaking Bad sempre me fez pensar que prazer e dor parecem não ser objetivos de seres humanos fortes e soberanos, mas sim sempre algo a mais, sempre mais, mais e mais.

“O que é esse mais?”, o leitor se pergunta. Bom, este “mais” é o Poder, a Potência, o sentimento de Vida plena e intensa. Walter White, mais do que todos as personagens na série, experimenta esse a mais de poder como nenhum outro. Para ele conseguir tudo isso, o mal foi libertado por toda parte. E esta destruição que a personagem acaba trazendo para aqueles que entram ou já estão presentes em sua vida é apenas aparente. A Segunda Lei da Termodinâmica nos ensina que o aumento de entropia, ou aumento de desordem dos sistemas, do próprio Universo, é um Fato inexorável, é uma lei constitutiva de nossa Natureza física. Em outras palavras, não se luta contra a entropia. Tudo aquilo que foi organizado, não será mais com o avanço do tempo. O universo tende ao Caos. E não seria o Caos uma nova forma de organização, de difícil compreensão, pronta a se transformar em um caos ainda maior? Na verdade, tudo o que há é a Transformação. E Walter White se transformou, além do bem e do mal.

Gostaria de acrescentar que Breaking Bad foi uma séria marcante em tantos sentidos e para muitas pessoas. Foi desta maneira que acompanhei as 5 temporadas da série, mas sei que cada um dos espectadores extraiu dela uma intensidade, uma marca, uma memória. Nestes 10 anos de estréia da série, é bom poder recordar de uma produção que arrebatou a crítica e o público. Não é à toa, Anthony Hopkins disse em entrevista que ele assistiu a toda a série em duas semanas (assim como o escritor que vos fala), ou seja, bem depois que a quinta temporada tinha terminado. Nosso grande ator ficou tão fascinado pela série que escreveu uma carta dirigida a Brian Cranston parabenizando-o enormemente por aquela que foi, em sua visão, a maior atuação que Hopkins já tinha visto em sua vida como ator; a interpretação de Cranston para a personagem de Walter White. Hopkins se rendeu a Cranston e a todo elenco da série.

Se nosso eterno “Hannibal The Cannibal” se rendeu a esta grande produção, recomendo aos leitores que ainda não assistiram a série que façam uma maratona Breaking Bad.

Foquei meu texto naquilo que entendo ser a questão principal da série, a transformação de Walter White. Porém, a série é composta de vários universos, perspectivas e personagens riquíssimos em profundas transformações. Personagens como o inesquecível Gustavo Fring (Giancarlo Esposito), o velho Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks), Pinkman, Saul Goodman (Bob Odenkirk), Tuco Salamanca (Raymond Cruz), Skyler White, Hank Schrader (Dean Norris) e tantos outros.

Atualmente está sendo produzida uma série para os orfãos de Breaking Bad, que já está indo para a sua quarta temporada e que também recomendo acompanharem; trata-se de “Better Call Saul, cuja personagem principal é o malandro advogado de porta de cadeia Saul Goodman, um dos responsáveis pela veia cômica de Breaking Bad.

Breaking Bad é uma das séries que recomendo de olhos fechados. Acreditem, a transformação espera por vocês!

por Leonardo da Cunha

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