Chame-me de megalomaníaca, egocêntrica ou do bom e velho babaca, mas não há como eu falar de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças sem cair na pessoalidade. Não à toa marquei a pele com a estrofe recitada acima, escrita por Alexander Pope no século XVIII. Em um momento do filme somos agraciados com a tocante poesia de Pope, que dedilha entre as memórias de dois amantes medievais trocando cartas melancólicas. Eloisa e Abelard, separados por tabus de época, forçados a esquecer um do outro, questionavam nos versos a plenitude de uma mente vazia de lembranças e o quanto vale o olvido…

Comentarei o filme como quem descreve uma pessoa, tamanho apego que tenho. É capaz de que soe obsessivo, visto que assisti pelo menos uma dezena de vezes desde que o descobri em 2012. Há um hiato, fruto de ignorância e juvenilidade, de bons anos desde seu ano de lançamento, 2004, mas há também explicação para tal. Lá na primeira vez que o assisti passava pela minha primeira experiência de frustração amorosa, a primeira intensa dor de amor.

Deitada no sofá, com aquele conhecido por todos sentimento de tristeza e confusão, passava pelos canais quando, por sorte, decidi assistir ao filme tão somente por causa de quem estava no elenco. Conhecia Kate Winslet de Titanic, por anos um filme que adorei (peço perdão por isso), e Jim Carrey por causa de filmes em que ele repetidamente interpretava um palhaço (vide O Máskara, Debi & Lóide e franquia Ace Ventura). Mal sabia eu que conheceria, na fusão dos dois, Charlie Kaufman, um brilhante roteirista (e também cineasta) por quem criaria adoração.

Meet me… in Montauk…

Joel (Jim Carrey) decide apagar Clementine (Kate Winslet) de sua memória. Depois de viverem um relacionamento singular e intenso, ele não consegue suportar o peso das sombras que lhe cercam; tudo remete à sua ex-namorada, ainda amada. Acredito que essa ideia superficialmente infantil tenha passado pela minha cabeça inúmeras vezes. Na realidade, ainda questiono se é inteiramente descabida. Um paradoxo que carrego e que o filme traduz como mais nada consegue. Revisitamos memórias tão únicas dos dois mas, ao mesmo tempo, caímos em nossas próprias: e se editássemos aqui e ali? Seria mais doloroso esquecer e doer vazio ou lembrar e doer por inteiro?

Uma enorme metáfora é traçada tomada a tomada conforme a narrativa vai seguindo. Eu assistia ao filme e me sentia dentro dele. Insanamente eu era Joel e Clementine ao mesmo tempo. A mulher por sua personalidade diferente, mudanças de humor e sensibilidade ora qualidade, ora defeito. Ela fala por mim quando se descreve como alguém com a cabeça fodida procurando por paz. O homem pela tentativa de se enquadrar na normalidade e de até parecer padrão; mas, por dentro, tão ferido quanto qualquer outro ser. Ele fala por mim quando acha uma perda oferecer tamanho investimento em alguém para tê-lo como estranho depois.

Fora os indivíduos, eu me sentia dentro daquela relação. Por mais autêntica que fosse, passara e passava por fases comuns às do mundo real: a paixão, a calmaria, o atrito e os caminhos abertos como consequência.

Clementine: É isso, Joel. Isso vai acabar logo. Joel: Eu sei. Clementine: O que fazemos? Joel: Aproveitamos.

Na jornada de esquecimento, arrependimento e retomada, vemos os dois analisando seus próprios passos. Perdões. Indigestões. Traumas. Mágoas. Felicidades indescritíveis. Tudo faz parte daquele relacionamento. Com uma sensibilidade e verossimilhança comum à seus escritos, Kaufman nos gruda à Joel e Clementine. Iniciei querendo esquecer. Mudei de ideia com tudo vivido. Voltei, querendo consertar. Aceitei o imutável, reavaliei o adaptável. Mas não era eu: era Joel. E também era eu, no ápice de minha ressaca amorosa, estabelecendo um ritual de dissecar dores através de filmes.

Por fim, temos que o amor pode, dentro de um limite, resistir caso queira. Como romântica ludibriada, muito mais para desacreditada por cansaço, tenho pra mim que o grande desafio amoroso não é achar alguém que não seja quebrado e abarrotado de chatices. Todos uma hora ou outra são irritantes, é inerente ao ser humano. O maior desafio é fazer com que as particulares rachaduras do outro se alinhem com as suas próprias; que suas injúrias também se completem, assim por dizer. Para que, passada a época em que é difícil encontrar um defeito sequer no amado, sigamos tendo-o como adorável apesar dos previsíveis conflitos por seus defeitos. Dar sentido ao intrigante e delicioso caos de um relacionamento é parte do amor.

Joel diz que não consegue ver nada de ruim em Clementine. E ela responde que ele verá, e que pensará a respeito, e que ela se sentirá entediada e enclausurada por que é assim que age, ao que ele responde com um tudo bem.

“Eu poderia morrer agora, Clem… Estou simplesmente… feliz. Nunca senti isso antes. Estou exatamente onde queria estar.”

Tudo bem.

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