Vivemos em uma era de universos cinematográficos de grandes blockbusters. Como fã de quadrinhos quando pequeno (e ainda hoje), eu deveria estar extasiado e tendo diversos orgasmos a cada lançamento da Marvel e da DC. No entanto, a cada lançamento, mais anestesiado eu fico e menos prazer extraio de cada longa-metragem com meus heróis e vilões favoritos se digladiando em tela. O que acontece?

Desde o início dos anos 2000 uma enxurrada de filmes de super-heróis, alguns muito ruins e outros consideravelmente bons, com EXATAMENTE a mesma fórmula são lançados anualmente. Basicamente vou ao cinema para ver a mesma história com personagens diferentes e isso já deu no saco. Falta originalidade e, por vezes, competência.

Porém, o que mais falta, e o que faz alguns filmes dessa leva serem bons, é o desenvolvimento emocional dos protagonistas e antagonistas. E é justamente nesse quesito que a obra do nosso Assita! de hoje brilha.

Corpo Fechado, dirigido por M. Night Shyamalan, consegue, em 1h45min, criar uma atmosfera crível, apresentar personagens com os quais criamos grande empatia e narrar uma história que te deixa apreensivo até o plot twist, afinal, é o Shyamalan.

O longa conta a história de David Dunn (Bruce Willis), personagem que você fatalmente conheceu ao assistir “Fragmentado”, uma pessoa vivendo uma crise conjugal e frustrado com seu trabalho de segurança em um estádio de futebol americano. Dunn se envolve em um acidente de trem, do qual ele não somente é o único sobrevivente, como também sai totalmente ileso. Cena essa realizada com uma tomada espetacular e uma tensão crescente, como você pode conferir acima.

Nosso protagonista, pouco após ter alta, encontra no para-brisa de seu carro um recado daquele que será responsável pela sua jornada (e a nossa) de autodescobrimento: Elijah Price (Samuel L. Jackson). Elijah nasceu com uma doença que deixa seus ossos extremamente frágeis e suscetíveis a fraturas, uma forma de osteoporose. Isso o isolou da sociedade e, influenciado por sua mãe, o tornou um aficionado por quadrinhos de super-heróis, tanto que quando adulto passa a trabalhar em uma galeria de arte de quadrinhos.

They called me… something.

Elijah, obcecado pela sua paixão pelos arquétipos de heróis e vilões e vítima de sua condição fisiológica, considera que Dunn está do lado oposto ao da sua fisiologia. Ele acredita que Dunn é dotado de certos “poderes”, a encarnação do mito do super-herói. Elijah, então, passa a assediar Dunn e sua família para tentar comprovar sua teoria, levando Dunn a conflitos com sua esposa e filho, ratificando que a imagem do herói aqui será diferente do que estamos acostumados a ver.

Nosso protagonista é um homem ordinário, sem o glamour ou a moralidade impecável sobre o que é certo ou errado que guiam o Superman ou o Homem-Aranha. Ele é falho e emocionalmente um desastre, lembrando muito os “heróis” de “Watchmen”, melhor história em quadrinhos sobre a psique dos ditos-cujos protetores da justiça.

Fucking plot twist!

Um dos grandes trunfos de Shyamalan é nos deixar incrédulos, mas esperançosos, de que Dunn possa ser o tipo de pessoa que dá base às lendas dos grandes super-heróis, tanto da ficção quanto da história da humanidade. A cada avanço na confirmação dessa teoria, o filme puxa nosso tapete levemente e ficamos com aquele sorriso amarelo estampado no rosto e com vergonha da nossa ingenuidade.

O herói.

Corpo Fechado apresenta a melhor história de vilões e super-heróis já contada em uma tela de cinema, um conto sobre quem somos e porque estamos aqui. Ficamos no aguardo no embate entre Dunn e o The Beast (de Fragmentado) no próximo filme de Shyamalan em 2019 intitulado “Glass”.

Sugestões para você: