Em 2015, o bom diretor Jean-Marc Vallée (na sequência dos excelentes filmes Clube de Compras Dallas e Livre) lança um outro petardo mas que – por mim, pelo menos – passou despercebido. Não lembrava, efetivamente, se o título chegara a estrear nos cinemas do Brasil e acabo de confirmar que não, muito embora conte com elenco respeitável. Trata-se de Demolição, uma produção densa e que permanece no seu imaginário, por dias, fazendo-o pensar constantemente sobre o conto narrado. Foi o que ocasionou em mim e motivo – evidentemente – de listá-lo para o Assista! da semana.

Davis (nas mãos do sempre excelente Jake Gyllenhaal) é um jovem rico, que trabalha na empresa de investimento em ações de seu sogro Phil (pelo ótimo Chris Cooper). No entanto, sua vida “perfeita”, e aparentemente impecável, sofre um turning point violento, quando Julia (Heather Lind), sua mulher, sofre um acidente e não sobrevive. Davis, dentro do mesmo carro, saíra apenas com alguns arranhões. Logo após receber a notícia, ainda no Hospital, ele tenta comprar chocolates m&m naquelas máquinas automáticas. O doce fica preso dentro da máquina e ele resolve contar sua vida em uma carta de reclamações para a empresa responsável por essas vendas.

Davis e Julia, em momentos perfeitos.

Começamos a notar um Davis diferente, que não se importa com coisa alguma. Seu trabalho – motivo de tanta ausência emocional dentro de casa – já não se apresenta com a mesma seriedade. Seu trato social modifica e ele é menos polido com as pessoas de seu dia-a-dia. Em um jeito próprio – e talvez até desconhecido para si mesmo – de lidar com o trauma, Davis acredita nunca ter amado sua mulher que se foi, pois não está sentindo nada. Tristeza, remorso, mágoa. Nada o abala e ele pode continuar em seus dias com uma cara de alguém anestesiado por um tipo de droga da felicidade. Parece-nos, ainda, que algum peso saiu de suas costas, o que o permite acordar mais leve.

Essa transformação toda gera um Davis diferente. Sua motivação, agora, vem da destruição. Ele começa a notar que o prazer que não mais sente, seja no trabalho, seja na família, ou em qualquer outra coisa, pode ser resgatado através do ato de destruir. E, assim, ele começa por destruir os símbolos das suas prisões diárias, à medida em que inicia uma curiosa amizade com a responsável pelo atendimento ao consumidor da empresa à qual havia enviado as cartas, Karen (pela sempre excelente Naomi Watts). “Suas cartas me fizeram chorar”, alega ela, em determinado momento. Mas aqueles papéis são apenas uma maneira retórica de Davis colocar para fora tudo o que o incomoda. Do pensamento às palavras escritas. Em seguida, para a ação apocalíptica da destruição.

Davis e seus destroços pessoais.

Com uma montagem que quebra a narrativa trivial, costurando passado e presente, fazendo-os seguir juntos como se ocorressem ao mesmo tempo, porém em planos distintos, como se houvesse dois Davis em um só (o que é a realidade de cada um de nós, efetivamente), vamos mergulhando na mente desse personagem que “despiroca” por completo (não há na língua portuguesa palavra melhor para definir o estado de espírito desse personagem), agindo de maneira livre, fazendo o que bem entende, enfrentando seus dilemas pessoais e destruindo literalmente as ilustrações de uma vida que se apresenta perfeita, mas que enjaula.

Sentimos com ele que, apesar das palavras que narra, o trauma o abalou por completo e que a aparente ausência de sentimentos não é um vazio emocional, mas uma forma destrutiva de lidar com aquilo que, certa vez, chegou próximo de o demolir totalmente. Davis, para não viver em seus escombros emocionais, sentimentais e psicológicos, resolveu botar abaixo tudo o que é respeitado pela sociedade comum, tudo o que é venerado pelo individual, mas que só tende a nos afastar sentimentalmente de quem amamos. Davis promove a ruptura concreta a partir de uma crise existencial, quebrando literalmente as diversas jaulas figurativas que se colocam – com concreto real – no meio de nossas relações afetivas.

Sorrisos no rosto de um homem.

Every time I think about it, I want to cry
With bombs and the devil, and the kids keep comin’
No way to breathe easy, no time to be young
But I tell myself that I was doin’ all right
There’s nothin’ left to do at night
But go crazy on you
Crazy on you
Let me go crazy, crazy on you, oh

(Heart – Crazy on You) – Trilha do Filme

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