Você já se pegou em um dia em que tudo deu errado? Desde colocar um simples copo de água e derrubá-lo ou criar um incêndio físico ou mental? Aqueles momentos em que parece que há um gênio da lâmpada vingador que mexe as cordas do destino só para te zoar? Chegar ao ponto de ônibus e o transporte que vem de 2 em 2 horas passara naquele exato instante em que você virava a esquina? Ou que alguns segundos a mais ou a menos poderiam mudar por completo o que se passou até ali. Quando essa série de situações acontece comigo, eu só penso que deveria me deitar logo e dormir, como se isso pudesse resetar o possível bug do dia. Essa (quase) banal “trama” é o que costura as 24 horas de Paul Hackett, protagonista de Depois de Horas, do inigualável Martin Scorsese.

Um cidadão comum, trabalhador, responsável e solitário cumpre todas as suas tarefas diárias. Acorda, vai para o trabalho, paga as contas, volta para casa, onde relaxa por poucas horas para, no dia seguinte, repetir a trajetória usual e implacável. Paul (atuado no tom preciso por Griffin Dunne) parece sentir falta de algo; algo que o tire daquele marasmo promovido por uma repetição incansável e abusiva de horas, dias, semanas, anos, vida… que se repete. Hackett gostaria de algo novo para mudar o eterno déjà-vu invasor, que se mete em sua companhia como uma sombra que jamais poderá ser separada do corpo, sempre ligada pelos pés, tal qual um espírito obsessor que castiga o seu “hospedeiro”. Quem nunca?

“Não faça isso, Paul!”

Eis que, em uma determinada noite, ao consumir qualquer coisa do cardápio de uma cafeteria, o bom americano se depara com uma garota. É Marcy Franklin (belamente interpretada por Rosanna Arquette), uma jovem bonita, que desperta a curiosidade de Paul. Era a isca perfeita para aquele possível gênio da lâmpada vingador anteriormente sugerido no presente texto. Um convite lançado ao vento. Hesitação. Hackett é muito trivial para quebrar o controle que tem sobre seus dias (ou o controle que seus dias exercem sobre ele). Mas ele precisa de algo diferente. Pensa. Aceita. Não devia. “Vá para casa dormir, Paul”, pensam aqueles que já assistiram ao filme. Mas ele não sabia o que estava prestes a acontecer. Nós tampouco.

O que se sucede durante a hora restante de filme é um conjunto de situações mais bizarras do que a anterior, como uma teia de aranha que gruda o primeiro fio para, naquele movimento cíclico e louco, enrolar a presa em um abrigo sufocante, visando tão somente um único objetivo: a ação predatória do prisioneiro. Paul – e nós, por nosso automático exercício de empatia com o protagonista – tenta respirar em meio ao movimento destruidor do aracnídeo invisível. Cada passo em frente, um nível mais abaixo nesse gráfico parabólico que tem sido essas horas depois de horas. Era só ter ido para casa dormir, Paul.

Paul de frente para um espelho?

Se Marty é conhecido por sua identidade violenta nos filmes que faz, Depois de Horas mantém os principais elementos: essa violência (que aqui, no entanto, não é física, mas emocional) e a curva aludida no parágrafo anterior, acerca do movimento de seus personagens (dentre outros, certamente, que eu poderia passar um review inteiro pontuando).

Cada filme de Scorsese narra a história de alguém que vem de baixo, conhece seu auge e depois experimenta o declínio. É exatamente isso que vemos acontecer com Paul Hackett. O dia dele é a ilustração do que tende a acontecer a qualquer protagonista nos filmes de Martin. Mas como se trata de um dos maiores diretores de todos os tempos – e aquele que mais entende sobre Cinema no mundo – ele é tão flexível e sublime em suas obras, que consegue trazer sempre algo novo para o espectador. Ainda que o título seja de algumas décadas atrás, assisti-lo nunca deixará de ser uma oportunidade de degustar das originalidades que o ítalo-americano nos traz.

Sugestões para você: