Um jovem diretor (à época), em seu terceiro longa-metragem, pega um roteiro assinado por David Ayer e escolhe um monstro da atuação para liderar sua narrativa, incorporado no personagem principal Alonzo Harris. Este filme, que carrega a história simples e – a princípio – “batida” do good copbad cop, toma proporções bem maiores do que esta sinopse tendenciosa por conta da direção e das atuações. Não à toa, a obra foi responsável pelo segundo Oscar de Melhor Ator (dessa vez principal) para Denzel Washington e uma indicação a Melhor Coadjuvante para seu parceiro Ethan Hawke (na pele do policial novato Jake).

Logo na primeira cena de Dia de Treinamento, somos introduzidos à figura de Jake, um bom homem, pai de família, com criança recém-nascida e sua mulher a cuidar do infante. No momento seguinte, a contraposição disso tudo com Alonzo, esterótipo do ser detestável, antipático, controlador e ignorante com o que se mostra menor do que ele. Desagradável propositalmente. Tudo isso em uma sequência de poucos diálogos e muitos olhares. A expressão corporal de cada ator enriquece essa relação que se sustentará durante todo o filme. O jogo de poder, no qual Alonzo testa a cada instante o jovem detetive, em seu primeiro dia de treinamento na divisão de narcóticos, começara ali, naquela mesa de restaurante, durante o café-da-manhã. A animação quase infantil de quem está onde, por muito tempo, desejara o cega para aquilo que virá ao longo das próximas horas.

O “simpático” Alonzo Harris e seus métodos não convencionais.

A primeira parte do treinamento de Jake Hoyt é, portanto, apresentá-lo às ruas. Alonzo dá dicas sobre como lidar com os “chicanos“, com vendedores de droga e com traficantes grandes para que todos sejam presos. Muitas vezes, fazendo o bom moço passar por situações extremas (algumas delas promovidas pelo próprio protagonista). Aqui já nos é clara a história good copbad cop. Mas aqui, também, já estamos vidrados com a construção desse personagem que, embora detestável, é fascinante. Ele tem uma presença quase inerente ao seu ser e que faz com que os demais, ao redor, se sintam intimidados. Por conta disso, especialmente, Jake vai sendo engolido por uma teia complexa planejada pelo detetive superior, a seu favor individual. “Were you planing this the whole day?” (você esteve planejando isso o dia todo?), pergunta surpreendido o novato: “I’ve been planing this the whole week, son” (eu estive planejando isso a semana inteira, filho), responde o sarcástico “titereiro”.

O que se segue é a velha dicotomia do caráter. “Alguém não dormiu na aula de ética”, atesta ironicamente um outro policial do bando, quando Hoyt se recusa a receber propina. Quando se vive em um mundo deturpado, de valores invertidos, a honestidade passa a ser um alvo a ser destruído. Alonzo surge, portanto, como a figura demoníaca, ao derredor como leão, tentando o outro a trilhar caminhos tortuosos. Este, por sua vez, tem o desafio de se manter firme às suas convicções, atravessando as adversidades que possam vir da sua escolha. “Eu posso resistir a qualquer coisa, além da tentação”, disse certa vez Oscar Wilde. O trabalho de Jake é resistir a tudo que Alonzo vai oferecendo, quase como um diabo com um acordo em mãos para ser assinado. Até onde ele consegue ir? A figura do homem “puro” se manterá inabalável? Ou a velha relação de poder conseguirá superar a crença de um indivíduo?

“Tudo é uma questão de sorrisos e choros”.

Boa parte passado dentro do carro, com trilha sonora inspiradora (as notas que vêm das ruas) e o já mencionado show à parte das estrelas em foco, Dia de Treinamento conta com um pouco de suspense policial, drama e, em um momento ou outro, ação. Filmado com estilo por Antoine Fuqua e escrito com precisão por Ayer, o resultado não poderia ser outro que não um filme digno de se assistir algumas vezes. Lembro que naquele ano de 2001/2002, vi tantas vezes com meu primo (tell me a story, Bruno), em nossos tempos livres de moleque, que várias falas ficaram decoradas até o presente momento.

Pena que a única cena que daria mais profundidade ao personagem de Denzel fora cortada da montagem original da obra. Nela, podemos ter uma noção do que passara aquela pessoa para ter se tornado o que ficamos 2 horas a ver: Alonzo narra a história de quando era novato, num carro como aquele, em que seu treinador mostrara o senhor Chow, um chinês que acenava para ele, enquanto espancava um cachorro. “Você vê o senhor Chow?”, disse seu então superior; “Ele está ensinando os cachorros a odiarem negros”. Com um olhar fixo em um nada vazio, Denzel (no corpo de Alonzo) afirmava que ali havia perdido sua inocência. Pena que os americanos não admitem tons de cinza, onde tudo é um extremo perfeito ou imperfeito. Pena que esta seja uma das imperfeições desse filme.

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