Recentemente, um leitor nosso comentou que a sinopse de um filme que havíamos indicado em um de nossos quadros não o havia motivado muito. Insistimos que desse uma chance para a obra e ele disse que daria. Há uma questão muito delicada quando tentamos avaliar um título a partir de sua sinopse. Comumente, eu digo que um dos desenhos mais geniais que já vi na vida carrega como resumo o seguinte: “um gato que persegue um rato, que, por sua vez, abusa de zoar de seu predador”. É possível que, se eu fosse um produtor e alguém me trouxesse uma ideia como essa, eu prontamente negasse recursos para a sua realização. Como dito, esse desenho é brilhante. Trata-se de Tom & Jerry. De todo modo, nem o Assista! de hoje é sobre esse desenho, nem a história envolve gatos e ratos (não nessa forma explícita). Mas a sinopse pode ser muito julgada, a priori.

Um homem misterioso, que ganha a vida como dublê, além de mecânico e piloto de fuga em assaltos, se vê envolvido em um problema quando tenta ajudar sua vizinha, com quem terá um romance pouco convencional. Uma sinopse aparentemente pouco inspiradora como essa – muito embora pareça ter inspirado fortemente o novo “Em Ritmo de Fuga” de Edgar Wright – poderia esconder um filme sensacional em todos os aspectos: fotografia, atuações, montagem e a direção de um homem que parece imprimir uma estética quase sempre impecável em seus filmes: “Bronson“, “O Guerreiro Silencioso“, “Só Deus Perdoa“. Inclusive, eu poderia fazer um Assista! sobre cada um desses, mas irei falar apenas daquele que me parece ainda mais maravilhoso: Drive.

O nome do regista? Nicolas Winding Refn.

Uma leve tremedeira, um falar sussurrado e uma expressão marcante: Ryan Gosling em seu melhor.

Ryan Gosling vem em uma das melhores atuações de sua carreira, interpretando o papel do motorista (ele não tem um nome na história, mesmo). Com pouquíssimas falas, guardando toda a energia da sua encarnação no semblante e na expressão corporal, o excelente ator canadense consegue trazer um ritmo poderoso para o filme a partir de seu personagem. A construção deste protagonista é algo que já nos deixa focados no conto. Independente do que seja a narrativa, o simples fato de estarmos o acompanhando já é o bastante para o espectador. Não menos forte está Carey Mulligan, no papel de Irene, a vizinha que conseguirá extrair dele algo para além desta frieza absoluta na qual parece estar mergulhado.

Nada nesse filme é trivial. O que parece ser uma história de amor comum entre esses dois vizinhos é, na verdade, afetada pela chegada do marido de Irene, Standard (nas mãos do ótimo Oscar Isaac), liberado da prisão por aqueles dias. A relação desse trio será costurada pela dívida que Standard tem com alguns mafiosos, cuja solução será proposta pelo personagem principal, envolvendo-se diretamente na teia maquiavélica dos bandidos. Esse romance, talvez comum em um primeiro olhar, é alternado com cenas de extrema violência de um personagem levado ao limite, mas que guarda seu ódio como combustível de vida, prestes a detonar. Uma cena icônica de um beijo em câmera lenta seguido de um esmagamento de cabeça pelo mesmo misterioso sedutor dá o tom do que é o filme.

Tantos significados em uma “simples” composição de cena.

Para além de algo que possa parecer grotesco, a estética já aludida de Nicolas Winding Refn (estruturada no trabalho fantástico do diretor de fotografia Newton Thomas Sigel) faz esta história de extremos flutuar em beleza extraordinária. Os enquadramentos calculados, trabalhando com simetrias a partir dos quadrantes da tela, compondo cada plano com um detalhamento e delicadeza em muito auxiliam na profundidade da história. É quase uma aula de como um belíssimo diretor é capaz de enriquecer uma obra produzindo um subtexto a partir de cada elemento cênico. Não à toa, a trilha sonora também se apresenta como um dos personagens dessa narrativa.

Drive é um daqueles filmes que, se desandarmos a falar, é provável que não consigamos traduzir, nem de perto, a força que a produção tem. Na verdade, seria um crime, ainda, tentar fazê-lo, já que o vigor desta obra vem da característica principal que faz o Cinema ser Cinema (o que não parece ser muito comum em alguns títulos por aí, apesar da obviedade da assertiva): a força da imagem em movimento.

Apenas assista!

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