Um sábio amigo, que para minha tristeza não está mais por aqui, sempre me dizia: que “gostar de filme bom é mole, quero ver gostar de filme ruim”. Presto hoje minha homenagem a ele e saúdo todos os filmes ruins que atazanam as telas, telinhas e telonas do mundo. Há que se respeitá-los, desde que não sejam pretensiosos e cumpram a missão de serem inocentemente ordinários e pronto.

Se o filme ruim não alimenta em nada os intelectos, pelo menos emprega gente e, dependendo do estado de espírito do espectador, pode até divertir por hora e meia ou duas para espantar a insônia.

Lembro com louvor de “O Ataque dos Tomates Assassinos”, filme que vi e revi em momentos em que só esvaziar a cabeça era o suficiente para me sossegar. Lembro de um filme exaustivamente assistido no cinema empoeirado na cidadezinha onde passei várias férias de infância: um psicopata que chupava o cérebro de entorpecidos prévios com um canudinho de aço. Precisa dizer mais?

No entanto, nem toda obra estapafúrdia tem seu valor. A conjuntura atual brasileira – de ordinário roteiro, impregnado de absurdos operados por personagens deprimentemente reais, imbrocháveis, charlatães, toscos, desbocados, negacionistas, sinhás anacrônicas, terraplanistas, hipócritas, corruptos, falso moralistas, pseudo arautos dos bons costumes, visionários impostores de Jesus na goiabeira, enfim, canastrões que beiram o inacreditável –  pode ser vista por um portador de otimismo crônico como um filme surrealista e inverossímil, cujo The End tem hora de aparecer. Infelizmente, não creio que o fim esteja próximo e segue o pesadelo diante dos olhos abertos à luz do dia, assombrados pela semelhança com histórias esdrúxulas e bizarras que passam pelos nossos narizes tais como cenas de horror de quinta categoria, daquelas que consagram um mau cineasta ou péssimo ficcionista.

Outro dia li aqui no MetaFictions uma crítica sobre um filme ruim do roteiro ao cartaz. Não estou tratando deste tipo de filme ruim. O que me encanta é o filme B, de baixa qualidade de ideia e de produção miserável. Nesta categoria, um cineasta fez história com todos os avessos dos méritos: Ed Wood, aclamado o pior diretor de todos os tempos. Seus filmes viraram cult entre os cinéfilos e sua jornada ainda inspirou um filme de alta sensibilidade de Tim Burton, protagonizado por Johnny Depp. Este, sim, um grande filme, ironicamente, sobre o pior do cinema.

Ed Wood Jr. foi um ser esquisito. Sua paixão obsessiva pela sétima arte lhe conferiu um talento que não tinha e uma determinação ilusória em fazer parte do glamour de Hollywood. Dizia ele que cinema era plano aberto e raramente regravava uma cena. “Corta! A verdade já está captada”, justificava com um sorriso sinceramente vitorioso. Acreditava piamente que tudo que fazia era muito bom, tangenciando a perfeição. Um otimista contumaz, sem espelhos, sem senso de autocrítica, sem superego. Saía produzindo e dirigindo filmes de estética, roteiros e orçamentos mais baixos que o sofrível, sob a batuta de uma energia impressionante e contagiante. Era acompanhado de um séquito de atores decadentes e desajustados, que o seguiam a cada set, na crença de que estavam fazendo o cinema que a carreira lhes negou. Incrível é que a obra de Ed Wood, de um jeito ou de outro, entrou para a história, como símbolo dos excluídos dos holofotes.

Pois foi exatamente essa essência que as câmeras de Tim Burton captaram. Ed Wood é um filme em preto e branco, propositalmente tosco e com um overacting tão primoroso que só mesmo o talento de Johnny Depp e seus pares seriam capazes de emprestar verdade convincente e uma sutil homenagem melancólica ao limitado sonhador real. A já consagrada tabelinha Tim Burton e Johnny Depp mais uma vez funcionou, nessa mistura de comédia cínica e homenagem tristonha. O elenco que gira em torno de Depp, essencial para o ótimo desenvolvimento da história, comprou a ideia de fazer um filme ruim e muito bom ao mesmo tempo: destaque para Bill Murray, Sarah Jessica Parker e Martin Landau, que por sua vez brilhou como Béla Lugosi, um ator vivendo os tormentos do seu ocaso.

A produção teve lá suas peculiaridades. Ed Wood só filmava com saltos altos femininos. Conrad Brooks, um dos atores do séquito do verdadeiro Ed Wood, aparece como barman. Um dos momentos de chacoalhar a emoção é quando Wood encontra Orson Welles (Vincent D’Onofrio) num bar e ouve do seu mito que nunca ouse desistir de seus sonhos. Ed pira. A voz perfeita de Orson Welles é do dublador Maurice LaMarche, o mesmo do personagem Cérebro da dupla de desenho animado “O Pinky e O Cérebro”. Outra cena antológica é a luta contra um polvo criada e produzida do jeito que dava para ser. Sobre prêmios: Melhor Ator Coadjuvante (Martin Landau) e Melhor Maquiagem (Rick Baker) no Oscar de 1995.  Martin Landau repediu a dose no Globo de Ouro, quando o filme Ed Wood foi indicado para melhor ator (Johnny Depp) e melhor comédia.

Ed Wood não é um filme fácil de se encontrar por aí, mas uma busca no Google é capaz de resgatá-lo. Como sempre, abri o baú dos meus DVDs, onde essa obra icônica sobre o mau cinema habita e me leva a compreender que nem tudo é desprezível, desde que, repito, não tenha pretensões de mudar o mundo, dividir águas e abrir caminhos para a Humanidade.

O cinema mal feito tem lugar na minha história. Quando militava como Diretor de Criação em agências de propaganda costumava perguntar para meus colegas qual a pior produção publicitária que haviam criado. No começo foram reticentes, pois publicitários em geral não gostam de admitir fracassos. Mas a coisa ganhou corpo e criamos, entre uma equipe deliciosa de se trabalhar, o Prêmio Ed Wood de Filmes Publicitários, onde cada um revelava às gargalhadas suas grandes escorregadas. Era divertido e humano. O erro admitido, o sonho em tirar ideias da gaveta – por pior que sejam – não deixa de ser admirável pela coragem que a vida exige.

A propósito, repararam a foto que introduz minha biografia no Metafictions? Não sou eu. É Ed Wood, o próprio.

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