Este é provavelmente o primeiro de uma série de filmes que vamos indicar que foram dirigidos, roteirizados, produzidos e editados por Ethan e Joel Coen, ou Joel e Ethan Coen, dependendo do filme e da função de cada. Os irmãos Coen, como ficaram célebres, começaram a lenda de seu nome com filmes que hoje são tidos como grandes clássicos cult como Gosto de SangueArizona Nunca Mais e Barton Fink – Delírios de Hollywood.

Sempre trabalhando juntos e sempre se alternando na direção, roteiro e produção de seus filmes (muito embora saiba-se que eles fazem tudo a quatro mãos mesmo), os irmãos Coen fizeram alguns dos filmes mais memoráveis da história recente do cinema, sendo este aqui o primeiro deles.

Em 1996, sob a pretensa alegação de ter sido baseado em fatos reais e após terem lançado um filme que foi um retumbante fracasso de bilheteria (Na Roda da Fortuna), eles, em uma sinistramente divertida homenagem ao homem comum do meio oeste americano, lançam esse Fargo: Uma Comédia de Erros, cuja tradução para o português entrega fidelissimamente do que se trata o filme

Paul Bunyan, o Hércules do meio oeste americano.

Fargo nada mais é do que uma cidadezinha na bissetriz do cu do meio do nada da divisa entre a Dakota do Norte e Minnesota, no meio oeste americano, na qual Jerry (William H. Macy) contrata Carl (Steve Buscemi) e Grimrud (Peter Stormare) para sequestrarem sua esposa em Minneapolis, capital do Minnesota e onde Jerry mora com sua família. Jerry é o típico merda e, como todo bom merda que se preze, quer dar uma volta em alguém para ficar rico sem muito esforço. Esse alguém, no caso, é seu sogro meio escroto que, calcula Jerry, pagará o resgate de sua esposa sem qualquer discussão. Acontece que, conforme o título do filme em português nos adianta, nada acontece como o planejado e voa merda (e sangue) pra todo lado.

Para o deleite do espectador, os “erros” sugeridos no título se amontoam e, eventualmente, após uma meia hora de exibição, entra em cena a personagem principal do filme e sua razão de ser, Marge, brilhantemente interpretada por Frances McDormand, em uma performance justamente recompensada com o Oscar de melhor atriz. Aqui já vemos uma característica própria da obra dos irmãos Coen. Frequentemente personagens chave e até mesmo protagonistas não aparecem nas primeiras cenas, sendo guardados mais para frente e sem prejudicar em nada o filme, o que já demonstra o domínio absurdo que estes dois têm sobre a arte de escrever para o cinema.

Marge está grávida e é chefe de polícia de Brainerd, uma cidade um pouco menos irrelevante que Fargo e mais ou menos no meio do caminho para Minneapolis. Por pura obra do acaso e da carnificina trazida por Carl e Grimrud, ela acaba por se achar no meio daquilo tudo. Vale destacar aqui que, ao contrário do que normalmente acontece em filmes onde uma mulher interpreta alguém comumente associado a violência, Marge é um amorzinho. Ela é fofa com seus subordinados, come como uma mulher grávida e passa na loja de pesca para comprar minhocas para seu marido logo depois de ver três corpos brutalmente assassinados. Ela não sente aquela necessidade de ser ainda mais violenta ou masculinizada e, mesmo sendo esse amor de pessoa, ela não deixa de ser respeitada por seus subordinados e admirada por seu marido.

E é em Marge que os irmãos Coen fazem seu retrato do homem comum americano e demonstram sua admiração por uma espécie de sonho americano que não é cantado em verso e prosa, mas que faz parte da vida da maioria dos americanos. Marge não quer ser riquíssima e gastar seu dinheiro com drogas e prostitutos como Di Caprio em O Lobo de Wall Street ou até mesmo Jerry, Marge quer, como a maior parte dos americanos e a maior parte de nós, tranquilidade. Ela quer ter seu filho tranquilamente, em sua cidadezinha pacata, com seu marido meio mosca morta e dono de casa, fazendo um contraponto com Jerry, o malandro cocô que quer dinheiro a qualquer custo.

Mesmo envolvendo assassinatos brutais e à sangue frio, esta é uma comédia que cumpre seu papel de comédia com louvor, seja pela sucessão de situações absurdas, porém inacreditavelmente críveis, seja pelos diálogos com tom inocente de pessoas falando sobre um homicídio triplo. Nada parece fazer força para te fazer rir, mas é difícil conter a risada quando Marge, por exemplo, está entrevistando duas prostitutas, ou em praticamente todas as cenas entre Carl e Grimrud, dois sujeitos extremamente violentos e homicidas contumazes, mas cuja dinâmica é perturbadoramente hilária.

Stormare e Buscemi

Todas essas são características próprias dos filmes dos irmãos Coen. Personagens engraçaralhos, gente um pouco esquisita (uma policial grávida, um marido dono de casa e um assassino sueco), diálogos afiados e uma sucessão de trapalhadas que deixam claro ao espectador que o acaso é a força que domina o universo. Isso sem contar com o esmero que eles sempre tratam as trilhas sonoras de seus filmes (vide os mais recentes E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum e Ave, César!).

Fargo foi indicado à palma de ouro como melhor filme e Joel Coen ganhou como melhor diretor no festival de Cannes. Além disso, foi também indicado a 7 Oscar, tendo ganhado 2 – melhor roteiro e melhor atriz para Frances McDormand – com a mais absoluta justiça. Todas as indicações foram em categorias das mais relevantes (filme, cinematografia, direção, edição, ator coadjuvante em William H. Macy), destacando-se aqui a indicação para Roger Deakins pela fotografia do filme.

“And for what? For a little bit of money? There’s more to life than a little money, you know. Don’tcha know that? And here ya are, and it’s a beautiful day. Well. I just don’t understand it.”

Como você já deve ter percebido das fotos acima, o filme é todo passado no inverno do norte dos Estados Unidos, com neve e branco para todo lado, o que poderia ter se tornado literalmente monótono para o espectador. A câmera de Deakins, no entanto, se vale da aridez do deserto de neve e faz dela mais um personagem do filme.

Trata-se de um clássico do cinema, um filme obrigatório para qualquer cinéfilo e que apresenta, por meio de uma comédia mascarada de filme policial, uma sátira sobre a própria essência dos Estados Unidos e das pessoas de verdade que fazem dele o que ele é. Pessoas como Marge, que, armada com um .22, tem a fibra, a coragem e o estômago de prender e admoestar um homicida múltiplo quem ela acabara de testemunhar ter cometido um dantesco ato de EXTREMA violência. E ela o faz como se o sujeito fosse uma criança que acabara de roubar um serenata de amor nas Lojas Americanas.

Ahh, a expressão “Oh yah” é repetida 188 vezes, o que também demonstra o vasto alcance de vocabulário da galera de Minnesota, que é outro grande personagem desse filme, que está, felizmente, disponível no Netflix, assim como parte da série inspirada nele e estrelada por Martin Freeman e Billy Bob Thornton.

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