As vezes faz frio na cidade do Rio de Janeiro. Nessas sacras e raras ocasiões, escondo meu corpo em um cobertor, deixando só os dedos do pé para fora. Em minuciosos e bem calculados intervalos, retiro cuidadosamente minhas mãos do casulo, para jogar uma contra a outra e sentir o frio capturado pela pele. Gostaria de fazer um café, tomar banho quente. Não necessariamente nessa ordem.

Nesses dias, concilio meu tempo escrevendo, perturbando os bigodes de meu cachorro, analisando velhos dvds, pensando em nomes para navios imaginários. Eles me fazem perceber o quanto eu repudio o Sol.  Mas nada disso te interessa, interessa?

Fato que Llewyn Davis (Oscar Isaac) não se esconde debaixo de um cobertor. Provavelmente não repudia o Sol, quase não come, não titubearia em fazer um café se pudesse e despir-se-ia para um banho quente.  Llewyn precisa sobreviver, procurar uma casa para dormir e uma espelunca para distribuir seus acordes.

Llewyn pede carona em seu coração

Em dias frios, gosto de espiar pela janela e imaginar o rapagão e seu violão. Coloco uma música de Dave Van Rock e tento materializar o corpo de Oscar Isaac, sentado no meio fio de Ipanema. Você poderia se juntar a mim?

Feche seus olhos, atente-se aos dedos se chocando contra as cordas. A voz saindo maculada por espinhos se enroscando por dentro.

Não! Não, ainda não!

Talvez seja necessário mais do que uma simples música para receber sua companhia. Necessário uma viagem, para dentro do homem. Você provavelmente se retorce, revira os olhos e se pergunta quem caralhos é esse indivíduo e por que você na fina flor do seu ser iria querer viajar para dentro dele num tapete voador de sílabas esfarrapadas?

O que o Gustavo vai achar disso? Dessa indicação que nada indica, prosa que não leva a lugar nenhum. Gosto de pensar no Gustavo como um ser neutro, desprovido de julgamentos e considerações, uma espécie de Deus Ex-machina da edição. São essas minhas fantasias que me permitem continuar, mesmo já estando confuso e me perguntando secamente “Llewyn Davis continuaria?“.

Talvez seja melhor começar por aqui, talvez seja melhor terminar por aqui. Um ponto final, artigo enigmático, as indagações deixadas por minhas sílabas árduas fariam você correr para o Google, procurar freneticamente, errando diversas vezes a ortografia desse peculiar nome galês. Repito- mentalmente algumas vezes, acentuando o fonema “Lle”. Você ainda lê?

Sim, os irmãos Coen são incríveis, ousados, fantásticos roteiristas, ótimos diretores e excelentes editores. Mas nem Fargo ou Onde os fracos não tem vez me deixaram tocado, maravilhado ou embasbacado. Ok, Big Lebowski me deixou de joelhos, suplicando por mais Walter na minha crua vida, porém, por mero efeito dramático, exclua a epopeia de The Dude.

Num dia frio embarquei em Inside Llewyn Davis, desconfio que até hoje não tenha deixado esse navio embalado por folk.  Talvez tenha sido a atuação dos excelentes coadjuvantes interpretados por John Goodman e Adam Driver, em papéis de um surrealismo kafkiano. Penso na fotografia densa e escura, como se quisesse esconder nas sombras algum segredo, que na obscuridade me feria a todo momento. A música pavimentando os caminhos cegos da dor, regurgitada por Oscar Isaac e seu violão, me esburacando aos poucos e deixando entrar o frio ar, isso sem dúvida me emocionou. Ou mesmo os planos lentos, contemplativos e fortes, remetentes ao velho e belo cinema, longe da moderna e corrosiva lógica de pop ups na grande tela.

Llewyn vive por você.

Não! Não! Não, foi nada disso.

Num almoço de domingo revelei ao meu pai que queria seguir carreira artística, ele suspirou profundamente, coçou a barba rala e soltou:

-Nah, isso passa.

Falei mais uma vez. A retórica foi ainda mais seca.

-Você quer isso mesmo?

Respondi da mesma e protocolar maneira.

– Se prepare para passar fome e frio, porque não vou te sustentar.

Por mais que quisesse gritar, me descabelar, espernear e expor a importância da arte no universo, iniciando assim um discurso que começa por qualquer pintor holandês e sempre termina em Tarkovsky, me calei. No fundo ele estava certo.

Pense nos poetas, que sem reconhecimento continuam a tecer versos. Nos cineastas, jogando suas próprias economias para financiar as produções, fotógrafos, pintores, game designers, escolha qualquer um.

O artista tem em si uma vocação que o impede de procurar a felicidade, dinheiro ou sucesso, o verdadeiro artista só tem olhos para a manifestação de seu universo interno.  A dádiva é uma cruel maldição, corrói a alma e converte a existência em sentença.

Llewyn Davis oferece seu violão, baladas folk e uma voz rouca. Não recebe reconhecimento, é detestado pela família, presença non grata entre os amigos. Espalha desassossego por onde passa, dessa maneira conserva em si tal qual Van Gogh, Nietzsche, a verdadeira alma do artista. Em uma película de rara sensibilidade e muita técnica, Joel e Ethan Coen deram contornos e nome a um ser que me atormenta desde minhas primeiras e inocentes redações.

Entrar em Llewyn Davis é entrar em qualquer pintor, cineasta, poeta , músico ou escritor. Entrar em Lllewyn Davis foi em grande parte entrar em mim mesmo, contemplar o fracasso, a não realização, a possibilidade contínua do enforcamento, do confronto derradeiro com o mundo. A frustração para com minha maldição.

Seria você Llewyn Davis?

Após ver o filme e se você por acaso conter em seu âmago a doença, deixe eu sussurrar o diagnóstico em seus ouvidos:

Fique acordado artista
Não se entregue ao sono
Você é refém da eternidade
E prisioneiro de seu próprio tempo.

Repita-os, dia atrás de dia, no calor da aurora e no silêncio fosco da madrugada. Porque um dia, talvez, eles ganhem sentido, um dia, talvez, ele te convençam e você e eu, Llewyn Davises da vida, seremos mais do que almas penadas, meros joguetes do público, transbordando vida, mesmo em dias onde faz frio no Rio de Janeiro.

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