Uma década se passou desde que o poderoso Isto é Inglaterra, de Shane Meadows, estreou, trazendo a história de um pequeno garoto atormentado pelos ecos da guerra das Malvinas, na qual perdera o pai, e pelo caldeirão borbulhante de conflitos sociais presentes pelas ruas inglesas. Uma década se passou e o filme se faz ainda mais presente. O fervor de outrora parece mais agitado, prestes a entrar em erupção. Os radicalismos aumentam, enquanto a alegoria de Shane se faz real. Uma década se passou e isto ainda é Inglaterra.

Shaun (vigorosamente interpretado por Thomas Turgooseé apenas um moleque que amarga a perda do pai, vítima da política pouco diplomática de Margareth Thatcher. Como todo infante, tem seus problemas pessoais, especialmente no colégio. E, para exorcizar tudo isso que queima dentro de si, ele encontra motivação em um grupo de skinheads, que o “adota” como mascote da “gangue”. É imprescindível entender o movimento inicial skinhead, que começa com a associação dos elementos brancos e negros, na música e estilo de vida, não pressupondo uma ação neonazista. O que explica a participação de Milky (encarnado com maestria por Andrew Shim), um negro entre brancos. No entanto, a chegada (ou retorno) de Combo (nas mãos do sempre impecável Stephen Graham), com suas idéias radicais, divide o grupo entre aqueles que tomam partido acerca do que ocorre no país e aqueles que decidem ignorar ou conviver com o que se passa.

Do pensamento para a ação: medo e ódio.

Trata-se da “boa” e velha mania do ser humano de rotular o que é diferente. Trata-se de excluir e culpabilizar o fraco. De projetar no outro as frustrações de um povo que cambaleia diante de um problema nada imediato. Assim como hoje, pelo medo de migrações desenfreadas que possam colocar em cheque o desenvolvimento nacional (dentre outros fatores, é evidente), o isolacionismo inglês é explicado; em Isto é Inglaterra (passado durante a década de 1980, mas feito já no século XXI) o grupo de skinheads decide se mobilizar diante da numerosa chegada de pessoas “estranhas” ao convívio usual. “Você se considera inglês ou jamaicano?” pergunta Combo, com modos nada convidativos ao encurralado Milky. Após ponderar: “inglês”, saudado com calorosos aplausos pelo neonazista à sua frente. É quando Combo faz um chamado às armas, em apelo aos amigos, dividindo a sala do local com um cuspe, utilizado como tinta para o desenho de uma linha que separaria os que optaram por lutar daqueles que escolheram não decidir. Nada mais forte do que esta divisão se dar pelo meio dos perdigotos de um homem feroz, na cena mais expressiva e que dá nome ao filme.

Shaun, ainda perdido entre seus escombros internos promovidos pela guerra e pela tensão social, se vê pronto para canalizar seu potencial destrutivo. O alvo fácil são os paquistaneses “invasores” que tentam se infiltrar na nobre sociedade inglesa. Movidos pelo nacionalismo exacerbado, como cães prontos a guardar a Terra de Albion, o grupo contaminado pela fala encandecida e determinada de Combo parte para a “purificação” dos pés que “caminham sobre as montanhas verdes da Inglaterra”. Mas em meio aos destroços que promovem, as relações pessoais que pareciam rijas, tal qual a solidez de uma nação antiga, começam a ruir igualmente e não se sustentam por serem alicerçadas sob bases condenadas e condenáveis.

This is England!

Uma década se passou desde que o poderoso Isto é Inglaterra, de Shane Meadows, estreou. Ainda que narrado durante os anos de 1980, a obra fala sobre o presente, fazendo jus à assertiva de Marc Bloch “toda História é História do tempo presente”. Nesse caso, o filme fora uma história do tempo presente (2006) e do tempo futuro (2016/17), porque aquilo… continua sendo Inglaterra.

Sugestões para você: