A representação da Justiça é uma mulher vendada segurando uma balança e uma espada. Dizem que não pode ver, portanto, para que não seja contaminada por conceitos prévios que possam, de alguma forma, prejudicar o seu julgamento. A Justiça – lança o bordão brasileiro – tarda, mas não falha. O juramento americano demarca, ainda, “Eu prometo fidelidade à minha Bandeira e à República para a qual se encontra, uma nação, indivisível, com liberdade e justiça para todos”. Já ouvimos falar, um sem-número de vezes, de casos que contestam todo esse senso comum referente ao sistema judicial. No entanto, recentemente, pudemos acompanhar quase 10h da vida de um cidadão em quem o raio cego (e surdo) da Justiça caiu não só uma vez, mas duas.

Assista! de hoje traz a série-documentário da Netflix Making a Murderer, dirigida por Moira DemosLaura Ricciardi, com 10 episódios sobre a vida de Steven Avery, condenado duas vezes por crimes, supostamente, não cometidos por ele.

Nascido em 09 de julho de 1962, Steven Avery sempre foi um cidadão não muito popular na pequena cidade de Monitowoc, em Wisconsin, onde já havia sido condenado por atos de vandalismo em um bar (coisa de moleque que não tem o que fazer; especialmente, se você mora em um condado onde não se tem o que fazer). Junto com sua família, dirigia um ferro-velho, em cujo terreno também morava. Porém, o marasmo da vida em um lugar como este sofreria um turning-point bruto quando, em 1985, Avery é acusado por um crime de agressão sexual. Condenado à uma sentença de 32 anos, declarando sua inocência (como é comum a qualquer indiciado), um novo turning-point surgia: através do uso de DNA estava provado que Steven não era o culpado pelo crime e que fora encarcerado por 18 anos erradamente. O homem de pouco mais de 40 anos saíra aliviado da prisão, onde passara quase metade do seu tempo de vida até ali. Mas… como tê-los de volta?

A primeira condenação de Avery.

É evidente que qualquer pessoa, na pele de Avery, faria o mesmo que o judiado civil fizera: um processo contra o Estado, estimado em US$ 36 milhões, pelo erro em seu julgamento. Em paralelo à isso, uma comoção pela história dele começava a tomar forma, de maneira que até uma lei em seu nome fora criada para evitar que novos erros como este pudessem acontecer. Nossa história, portanto, é a de um homem que, ainda em vida, consegue recuperar sua liberdade, torna-se uma celebridade local e ainda vislumbra a possibilidade de ser milionário, tão logo o processo que abrira em 2003 (ano de sua libertação) fosse julgado. Parece-nos, claramente, o conto do sonho americano, terra da Liberdade, na qual todos conseguem seus direitos. O bordão brasileiro também se fazia presente: tardiamente, mas não falhando, Steven Avery estava de frente para a Justiça feita. Ele podia respirar aliviado. Poderia viver o sonho americano.

“Eles prometeram que os sonhos podem se tornar realidade – mas esqueceram de mencionar que os pesadelos são sonhos, também”, dissera tempos atrás o genial Oscar Wilde. Tal qual o escritor coloca, Avery estava a um passo de viver este outro tipo de sonho.

O terceiro turning-point subverte mais uma vez a narrativa e muda o que é a história que estamos a acompanhar. No ano de 2005, dois apenas após sua liberdade, uma fotógrafa de seguro de carros, Teresa Halbach, desaparece juntamente com seu Toyota RAV4. Em seu histórico de trabalho, no dia do desaparecimento, constava um encontro com Avery, para uma sessão de fotos de um carro que ele queria vender. O local havia sido o próprio terreno do ferro-velho onde Avery morava. Aquele outro tipo de sonho estava prestes a começar. Nem dois anos de liberdade e ele surgia, mais uma vez, como suspeito por outro crime, enquanto amigos da desaparecida, e a contestável polícia de Monitowoc, faziam suas rondas para encontrar Halbach. Ignorando o primeiro grupo de suspeitos (que, segundo os agentes, é composto por cônjuges – atuais ou passados -, familiares e amigos próximos), ainda que houvesse histórico de problemas com um ex-namorado, que ameaçava perseguir a provável vítima, todos os olhares se voltavam contra o ex-prisioneiro inocente.

O distante sonho de casa.

Como encontrar uma agulha em um palheiro, em meio a um mar de carros no extenso terreno do ferro-velho da família Avery, a ronda de amigos, em ação voluntária de ajuda às investigações, encontra o Toyota RAV4 de Teresa Halbach. Estava ele ali, em pleno território de Steven, a poucos metros de sua humilde casa de quarto e sala. Holofotes em cima do velho bode-expiatório. O dedo acusador da Justiça se volta mais uma vez para o enrugado homem atado pelas mãos do destino controlado por homens. Dentro do veículo, aquilo que o salvara 18 anos depois, aprisionava-o depois de mais 2 anos: DNA de Steven Avery. Ainda no terreno, fragmentos do corpo de Teresa. A chave de ouro a trancar uma outra vez sua cela vem com o sobrinho de Steven, Brendan Dassey, testemunhando para a polícia que seu tio esquartejara a senhorita Halbach dentro de casa.

E nós, “torcendo” por um criminoso inveterado…

Por algum motivo da nossa moral, ainda que de maneira inconsciente, aqueles 18 anos não pareciam ser em vão. Mesmo que por um crime que não cometera, o lugar de criminosos, futuros ou passados, é na cadeia. Talvez, se ele nunca tivesse saído, Teresa Halbach ainda estivesse entre nós. Mas não cabe à Justiça prever o futuro. O novo julgamento de Steven Avery o condenava à prisão perpétua, sem possibilidade de condicional. Sua vida estava, portanto, selada.

As rugas de um homem velho.

Mas é exatamente aqui que entra a profundidade da série Making a Murderer, pois é aqui que percebemos que o pesadelo também é um tipo de sonho, e que ele também se torna realidade. A condução de todo o processo investigativo, as “provas” encontradas e, até mesmo, a declaração do próprio sobrinho se apresentam como as evidências mais toscas e manipuladas que você já terá visto. O velho bode-expiatório, agora já velho pelo tempo que passa e não espera por ele ou pelas confusões desse destino controlado por homens, mais uma vez encontra-se aprisionado por erros que, aparentemente, não foram seus. Demos e Ricciardi fazem uma profunda análise do sistema judicial americano ao questionar a forma pela qual se conduziu a condenação de Steven e apresentam para a sociedade as manipulações das esferas de poder que estão mais preocupadas em silenciar seus erros, cometendo tantos outros, do que servir fielmente àquela República com liberdade e justiça para todos.

“Uma marionete de ódio servindo veneno. Você me usa como isca, sua tigela de mentiras de um pedinte” (Bruce Dickinson)

Ainda que pelo olho único da câmera, e pelos cortes deliberados da montagem das diretoras, estamos de frente para UMA – e tão somente uma – representação da realidade, dentre tantas possíveis, Making a Murderer é capaz de, com sua narrativa intrigante e desafiadora, nos puxar pelo braço e, à força, fazer-nos discutir com nossa moral, enquanto somos guiados, como em uma dança louca, pelo ritmo frenético que as maestrinas impõem através das sequências que desfilam diante de nós. Enquanto debatemos entre o certo e o errado, entre verdades e mentiras, um homem velho e enrugado continua a dormir entre sonhos e pesadelos.

Sugestões para você: