O imortal humorista Ronald Golias nos idos dos anos 60 contou na TV que um cego ingênuo e curioso queria saber como era o leite. Seu interlocutor impaciente só disse que o leite era branco. Resiliente, o cego implorou: “Por favor, sou cego de nascença. Não tenho ideias de cores”. O impaciente respondeu: “Branco. Como a sua bengala.” O cego não desistiu: “Desculpe, sou cego de nascença, não tenho noção de coisas e cores. Sei para o que serve uma bengala, gostaria de conhecê-la melhor.” O cara, enfim se apiedou: “Vai tateando a bengala até em cima, e aperta sua mão pela curva que ela faz.” O cego foi apalpando a bengala, chegou ao topo, acompanhou com as mãos sua curva e abriu um sorriso: “Ahhhh… agora sei como é o leite. “

Claro que é uma anedota nonsense, daquelas que provocam risos contidos e uma sutil valorização da associação de ideias, como ferramenta para se decifrar o desconhecido.

Num filme que não me lembro – alguém me ajuda – um personagem descreve a primeira viagem de um grupo de tuaregues de avião. Conta que estão deslumbrados querendo tocar nas nuvens, mas a janelinha não deixa. Até que se dá a aterrissagem. Cintos apertados, extasiados com a sensação da primeira vez. O avião pousa, estoura um pneu, perde o controle, rodopia na pista várias vezes, avança pela grama de segurança e finalmente estaciona intacto. Pânico na cabine. Pessoas gritam, choram, rezam, se atropelam no corredor. Menos os tuaregues. Eles seguem maravilhados, na certeza de que uma aterrissagem acontece assim. O desconhecido não lhes levou ao pânico, mas ao êxtase. E soltaram urros de felicidade.

Em 1974, o diretor alemão Werner Herzog lançou uma de suas obras-primas, O Enigma de Kaspar Hauser, um mergulho na relação do ser humano com impacto do desconhecido, a ignorância (no melhor dos sentidos) diante do novo, dos fatos sem referência anteriores.

O filme, cuja título se traduz literalmente para “Cada um por si e Deus contra todos” conta a história de Kaspar Hauser (Bruno S.) um menino abandonado quando nasceu, trancado e acorrentado por 16 anos numa cabana na Alemanha do Século XIX. Misteriosamente, o homem que o prendia, igualmente misterioso, resolve soltá-lo. O rapaz perambula diante do que nunca viveu, até uma cidadezinha perto de Nurembergue, quando tem seu primeiro contato verbal, social e com as coisas da vida que o encarceramento lhe privara. Pela absorção tardia da língua, do falar e do se comunicar fora da infância, Hauser nunca desenvolveu a linguística de um nativo. Além disso, outras habilidade sociais foram seriamente suprimidas, ainda que ele fosse capaz do impulso da aprendizagem e da curiosidade. Uma das cenas mais emblemáticas é quando ele se depara com uma vela acesa e se enfeitiça pela beleza do fogo. Curioso, tenta enfiar o dedo na chama que baila à sua frente. Como não sabe se expressar, solta um “Uh!”, um grunhido que precede uma lágrima.

Intrigados com o jovem e seu primitivismo, com medo do perigo que ele representa, os moradores o prendem numa torre.  O prisioneiro conhece, enfim, o falar, estimulado por uma família generosa e por um padre. Ele aprende música, tricô e jardinagem, mas fracassa no entendimento das convenções da época, o que o torna um perigo iminente. Mesmo sem se dar conta, era uma ameaça. Deixava de ser um menino xucro e começava a desenvolver a noção das coisas, com senso crítico intuitivo. Da mesma forma que Kasper Hauser se impactou com a nova vida na qual foi inserido, os moradores se impactaram com o novo e estranho habitante da cidadela. Era o novo na mão e na contra-mão, atazanando o ser humano, um prato cheio para os interessados em relação humanas com o mundo ao redor.

Em O Enigma de Kaspar Hauser, Herzog repete sua visão autoral do Cinema num foco profundo no ser humano e no sobre-humano, consagrado mais pela crítica e pelos cinéfilos do que pelo público. A saber: “Aguirre, a Cólera do Deuses”, “Nosferatu: O Vampiro da Noite”, “Fitzcarraldo”, só para citar três das dezenas de trabalhos que marcaram a sua obra. Baseado numa história real, o filme ganhou três prêmios nos Festivas de Berlim e em Cannes e pode ser encontrado no Youtube.

O cego do Golias, os tuaregues de primeira viagem, Kasper Hauser. Três jeitos diferentes de sentir e lidar com o novo e o desconhecido. Três inspirações para uma hipótese que se instalou nas minhas entranhas cerebrais e ultimamente me vêm à tona.

Imagino um sujeito que após 30 anos sai do coma. É um indigente esquecido nos cafundós de um hospital, recebe alta e ganha o mundo desconhecido. Sem família, sem amigos, sem referências, vaga por ruas estranhas, a tropeçar na miséria, quase leva facada de um cracudo. Ele vê pessoas de máscaras, supõe que têm mau hálito. Ele vê pessoas sem máscaras, rindo, aglomeradas, festivas. Supõe que a vida é bela. Para num boteco e pela televisão assiste a um telejornal de olhos arregalados: um corpulento homem de cabelo cor de abóbora em terras distantes prescreve detergente na veia para curar alguns coisa que ele não sabe o que é. Em seguida, um outro, com “Brasília” escrito debaixo da tela, oferece um pacote de remédios para uma ema. É possível que meu personagem solte um “Uh!”.

Roteiristas, habilitem-se. A complexidade do ser humano ao primeiro contato com o inusitado é fértil e fascinante.

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