Já de cara, durante os créditos iniciais, somos apresentados a toda a vitoriosa e celebrada carreira do lutador Randy “The Ram” Robinson. Ao som da clássica Metal Health, da banda de metal farofa Quiet Riot (cujo clipe segue acima), e de trechos de narrações de suas lutas, nós descobrimos que estaremos diante de uma lenda do esporte, de alguém que já se apresentara para multidões, que fora amado por milhões e que certamente havia colhido os louros financeiros de tantas vitórias e fama.

Finda a sequência inicial, The Ram (O Carneiro, em português) está sentado de costas para a câmera, em uma sala de jardim de infância decorada com “artes” infantis nas paredes, recuperando-se de uma performance, quando um sujeito entra e lhe entrega algumas poucas notas como pagamento pela apresentação daquela noite. Aqui, na primeira cena do filme, nós já sabemos tudo que precisamos saber sobre o protagonista.

The Ram Jam.

Randy – literalmente encarnado por Mickey Rourke naquela que é uma das interpretações mais viscerais da história do Cinema e que já consta do panteão das mais antológicas atuações já feitas – nasceu Robin Ramzinski. As circunstâncias, sejam elas quais forem (já que não nos são mostradas), levaram Robin não a assumir a persona de um lutador de luta livre profissional, mas a se encontrar enquanto ser humano na figura do Carneiro.

O Lutador, como acontece com frequência na filmografia do diretor a respeito de quem falarei melhor mais adiante, discorre sobre o grande desafio do ser humano hoje e sempre: a luta interna e externa constante que é meramente existir. A dificuldade que temos em aceitar a nossa própria natureza perante as necessidades e expectativas daqueles que amamos e da própria sociedade como um todo.

É este o caso de Randy. Ele foi um dos grandes daquela luta de mentirinha que os norte-americanos chamam de pro-wrestling (o que deturpa a tradição milenar e olímpica do verdadeiro wrestling, ou luta livre) na década de 80, mas hoje enfrenta a decadência e o ostracismo 20 anos depois de seu auge, sendo relegado a se apresentar em ginásios de escolas públicas ou centros cívicos de cidades pequenas.

Ele, contudo, não faz aquilo por causa dos míseros trocados que ganha em cada performance e que o obrigam a ter um emprego de merda num supermercado no qual é constantemente esculachado pelo chefe. Ele o faz porque aquilo é quem ele é. Ele não tem escolha e, ainda que tivesse, ele não escolheria qualquer outra coisa.

As circunstâncias que só o tempo traz, entretanto, forçam Randy a questionar sua identidade, questionar suas escolhas na vida e a vislumbrar um novo caminho. Um que não atente contra a sua vida e corpo destruídos pelo tempo, pelos abusos psicológicos, físicos e químicos necessários para manter o Carneiro em atividade até aquele momento. Um caminho que o permita, talvez, ter um relacionamento com a stripper Cassidy (Marisa Tomei) ou reconstruir os laços quase irremediavelmente rompidos com sua filha Stephanie (Evan Rachel Wood).

The Ram à paisana.

“O único lugar onde eu me machuco é lá fora. O mundo tá pouco se fodendo para mim.”, exclama Randy com pesar, mas também com a aceitação de quem entendeu, de uma vez por todas, que o comprometimento do homem deve ser, em primeiro lugar, para consigo mesmo e para com quem se é, custe o que custar. Cada um é, no final das contas, tudo aquilo que se tem.

Darren Aronofsky (a respeito de quem escrevi brevemente em nosso Top 10 – Melhores Diretores em Atividade) entrega mais uma obra-prima, demonstrando ainda ser um diretor versátil ao abandonar sua marca registrada de uma edição cheia de cortes, zooms microscópicos, sons metabólicos e extremamente técnica. A história de Randy realmente não comportaria aquele virtuosismo técnico e Aronofsky, entendendo isso, teve a grande clareza de mente em escolher deixar de lado seu estilo marcante e filmar toda a película de forma crua, com uma câmera na mão, em um estilo quase documental, usando quase sempre luz natural, sempre acompanhando Randy por trás e em closes quase pornográficos de toda a desgraça que recai sobre aquele rosto desfigurado e também todo o êxtase trazido pela entrega irrestrita à sua própria natureza.

Contando com um roteiro bem simples e direto, o filme pertence todo à excelência das interpretações dos atores – que, à exceção dos principais, sequer são profissionais – e ao brilhantismo da direção, provando, mais uma vez, que não é necessário alienar boa parte do público ao se apresentar simbologias elaboradas e significados escondidos como que numa ode ao próprio realizador.

Basta uma boa história e uma câmera na mão para que artista se expresse e seja compreendido por aqueles que realmente se proponham a escutar. E a história de The Ram, com todas lutas, o sangue, o suor e as cores berrantes de quem ainda vive intensamente os anos 80, grita ensurdecedoramente pela nossa compreensão.

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