Eram quase sete da noite do dia 23 de novembro de 2019. Estava sentado no sofá diante da televisão, olhei para o lado e vi um homem desapontado, triste, abatido. Eu sei quem ele é. Um setentão bem vivido, disciplinado, correto, em dia com o preparo físico que uma invasão cardíaca e a implantação de um marca-passo lhe exige. Fiquei preocupado. Ele carregava um semblante abalado e tenso. Suas mãos trêmulas passeavam repetidamente do queixo, à maçãs do rosto até um esfregar nervoso na careca, onde, tempos atrás, crianças faziam de plataforma de beijos e carinhos. O homem naquele momento era o retrato da desilusão.

Mas eis que de repente, uma explosão de paixão mudou tudo. Vi uma criança de setenta cinco anos pulando, levantando os braços, gritando palavrão. Instantes depois, outra explosão. Ele rodou pela sala em êxtase, beijou o cachorro e desabou no sofá, como se a felicidade lhe dissesse: “Tá vendo? Agora relaxa e aproveita porque você merece.” De fato, ele mereceu. Estava vivendo as consequências do que há de mais puro e sublime num ser humano: a paixão.

Enquanto o time e torcida do Flamengo se acabavam numa catarse coletiva, num orgasmo público e legítimo, que se estendeu ao dia seguinte numa multidão de fazer inveja aos políticos radicais, eu, que não sou flamenguista, mergulhei com todo respeito e reverência na sabedoria do filme O Segredo dos Seus Olhos, de Juan Jose Campanella.

No correr de uma trama genial, um dos personagens fascinantes – há tantos neste filme – diz, com o perdão do meu portunhol: “Un tipo puede cambiar de todo. De cara, de casa, de família, de novia, de religión, de dios. Pero hay una cosa que no puede cambiar. No puede cambiar de pasión.”

Pois a partir desta fala, o protagonista começa a chegar perto de um assassino misteriosamente desaparecido depois de cometer um crime quase perfeito. Persistente e obcecado, encontra a pista do homem, no epicentro da torcida do Racing de Avellaneda, no meio da multidão fervente do estádio, vivendo exatamente a explosão de sua paixão imutável. Este detalhe de roteiro é fundamental para o desfecho, que ainda duraria um bom tempo de procura a partir deste insight.

A história é bem tecida. Benjamin Esposito (Ricardo Darín) é um oficial de justiça aposentado. Para ocupar seu tempo, resolve escrever um livro sobre um caso de estupro seguido de assassinato, ocorrido em 1974, cujo processo se perdeu nos labirintos de uma Argentina burocrática e repressiva. À época, Benjamin conhece Ricardo Morales (Pablo Rago), marido da jovem morta, a quem promete encontrar o culpado, com ajuda do figuraça Pablo Sandoval (Guillermo Francella), seu grande amigo, e da encantadora Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil), sua ex-chefe imediata, por quem alimenta uma paixão secreta e permanente. É exatamente essa paixão que aflora quando o livro começa a ser escrito. O Segredo dos seus Olhos é uma pintura delicada de suspense, de sentimentos humanos simples e de uma história de amor emocionante. Tudo muito bem contado (roteiro do próprio Campanella e Eduardo Sacheri), muito bem dirigido, com atuações magistrais de Darín, Francella e Soledad.

O longa ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010, disputando com o favorito dos intelectuais “A Fita Branca”, um filme austríaco mais profundo, mais autoral e mais cabeçudo. Melhor para quem se entrega ao cinema simples, digestivo, delicioso, cativante, humano e emocionante. Ganhou o mais empático.

Darín e Campanella não eram uma dupla novata. A química vem de longe, desde 1999, quando ator e diretor inauguraram a boa sintonia com “O Mesmo Amor, A Mesma Chuva”, depois consolidaram a parceria com “O Filho da Noiva” e “Clube da Lua”. Soledad Villamil é uma cantora que Campanella fez brilhar como atriz apaixonante e Guillermo Francella teve o mesmo destino: um humorista de televisão que, ao lado de Darín, se revelou um grande ator de cinema, criando um Sandoval de arrancar incontidas risadas com seus hilários pelotudos, boludos, carajos, cago in Diós, e sua verve para espantar os chatos que ligam pelo telefone fora de hora, atendendo com o cínico: Hola! Banco de Sêmen! Grande Sandoval!

Cabe aqui uma observação e talvez uma provocação descabida: impressionante a regularidade do alto nível de qualidade do cinema argentino. Os hermanos nos entregam filmes bons, muito bons, excelentes, um atrás do outro, despretensiosos e bem roteirizados, bem escritos, engenhosos, humanos, extremamente bem dirigidos e interpretados por um elenco estupendo, no nível do carismático Ricardo Darín, sua estrela maior. A conferir, dos escaninhos da minha memória, que pode deixar escapulir uma ou outra obra: “A Odisseia dos Tontos”, “Relatos Selvagens“, “O Cidadão Ilustre“, “Um Conto Chinês”, “O Clã”, “Tese Sobre um Homicídio”, “Abutres”, “A História Oficial”, “Nove Rainhas”, “O Filho da Noiva”, “O Clube da Lua”, “Valentim”, “Tango”, “La Cordillera”, entre tantos, a lista é gigante.

O Segredo dos seus Olhos me leva a um questionamento polêmico ao compará-lo com o cinema brasileiro atual, que oscila entre comédias rasas – até engraçadas, ok – e dramas profundos sobre nossas gravíssimas mazelas sociais. Há destaques memoráveis, cada um tem seu melhor cinema brasileiro de todos os tempos, mas vai a provocação: por que o cinema brasileiro não consegue a regularidade dos filmes argentinos? Certa vez, um amigo arriscou uma hipótese: a maioria da produção cinematográfica brasileira nasce para ganhar um Oscar, uma Palma de Ouro ou um Urso em Berlim. Uma sensação de que “essa é nossa maior chance, agora seremos enfim reconhecidos”. Não deixa de ser uma tese a se considerar, concordo, mas meu sentimento pode soar injusto, no momento em que o cinema brasileiro está na trincheira do bombardeio cruel e burro que nossa cultura vem sofrendo. Mas mesmo assim, fica um mistério de décadas, mesmo com a chamada retomada: por que não atingimos um padrão de qualidade digno do talento de quem faz o cinema brasileiro? Por que, por exemplo, as séries nacionais da televisão aberta, fechada ou de streaming têm muito mais cara de bom cinema? Confesso que não sei a resposta e fica o convite à reflexão e às argumentações contrárias, desde que gentis.

Registre-se apenas a rara certeza de que o bom cinema e o futebol despertam sentimentos que nos mantêm vivos. São as tais paixões, que não mudam nunca no coração dos seres humanos plenos. Assim o disse o sábio Pablo Sandoval. Assim o fez o redentor Gabigol.

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