“Você ouviu o que disseram no noticiário hoje? Você ouviu o que está vindo para todos nós? Que o mundo como o conhecemos está chegando ao seu fim. Você ouviu? Você ouviu?” (Steve Harris). Assim começa a música When the Wild Wind Blows do Iron Maiden, inspirada no filme (ou livro) quase homônimo Quando o Vento Sopra (When the Wind Blows), de 1986, dirigido por Jimmy T. Murakami. Os primeiros versos da fabulosa faixa da banda britânica cairiam muito bem como sinopse da excelente obra cinematográfica conterrânea. Partindo de um viés histórico e compreendendo a produção como um resultado de seu contexto, percebemo-la, de antemão, como uma expressão da Guerra Fria na mentalidade mundial de sua época.

Hilda e Jim Bloggs (primorosamente interpretados por Peggy Ashcroft e John Mills) formam um ingênuo e delicioso casal de idosos em uma área rural da Grã-Bretanha. Passam seus dias com uma rotina extremamente metódica. Um só tem ao outro – já que o crescido filho mora em Londres, com sua nova família – e se tratam com absoluto carinho, fazendo companhia durante as longas e demoradas horas de cada novo amanhecer. Hilda prepara cuidadosamente as refeições do marido, enquanto ele provê as necessidades da casa. O clima de pleno pacifismo é quebrado com a notícia de que a Inglaterra sofrerá o ataque de uma bomba soviética. Jim toma à frente como o chefe do lar e começa a preparar a habitação em um abrigo anti-explosão, seguindo rigidamente as orientações dos panfletos governamentais acerca de possíveis ataques nucleares, como este anunciado.

Os apaixonantes Bloggs.

Mesmo à beira de um colapso total, o clima dócil é imperativo naquela casa, apesar de em poucos momentos uma leve discussão entre os dois se esboçar, pelo nervosismo do que está prestes a acontecer. Jim não paga para ver se aquilo é apenas o medo regulando as vidas de cada representante da sociedade, assim como seu filho, que lida com a situação fazendo graça ou admitindo – não erradamente – que aquilo acontecerá a todos. Os velhos Bloggs são sérios e, imediatamente, iniciam a construção do abrigo, enquanto relembram os momentos da II Guerra Mundial. São eles, os filhos da violência dos Homens, os que provaram do maior terror já produzido pela Humanidade, os que vivenciaram A Era do Extremos. Sabedores do que a natureza Humana é capaz, seguem à risca o manual da sobrevivência.

E os dias se passam, à espera do grande evento. A bomba pode ser capaz de consumir a paisagem à volta, o território, as nações. Mas, da mesma forma, seu anúncio é capaz de fazer definhar as relações, as emoções, os indivíduos. O poder da bomba vem desde a idéia da sua existência. E os dias se passam, enquanto os adoráveis Hilda e Jim Bloggs vão modificando o jeito, a aparência, a perspectiva das coisas. O terror paira sobre o ambiente; o medo toma forma; a detonação se torna mero detalhe dentro daquele inferno criado por demônios humanoides. Mas o instinto sempre será a sobrevivência. Hilda e Jim continuam tentando viver. E os dias se passam.

“A crueldade tem um coração humano” (Smith/Harris)

Quando o Vento Sopra é uma animação e como tal poderia sugerir algo mais leve, menos sombrio, mais palatável. Mas só poderia. A realização em nada perde para um filme live action estruturado em um forte drama. A obra de Murakami é pesada, rígida e sombria. Toca na ferida sempre aberta que dói. Contrasta o desenho colorido e o casal de velhinhos queridos com a falta de cor da crueldade humana. Apesar do contexto histórico de um fato já passado, a obra é atual, pois sempre estaremos à espera de um outro evento semelhante. A motivação pode mudar; os envolvidos poderão ser outros; mas o estrago é igual; é apenas mais um outro “quando o vento selvagem sopra”.

Deixo-vos, dessa vez, com outra indicação, além do filme. A inspiradora música citada no início.

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